A Aluna deu uma aula de verdade.
É exatamente em um ano de crise que os artistas lá fora não pouparam uma gota de suor para fazer bons discos. Nesse ano já tivemos Lemonade da Beyoncé, Blonde do Frank Ocean e o Coloring Book do Chance The Rapper, até então não existia mais brechas para algum destaque a mais, foi então que o toque de midias da produção eletrônica promovido por um duo inglês pouco conhecido explodiu. É do ritmo pulsante, batidas hipnóticas que nasce o disco mais suculento do ano de 2016. I Remember é o segundo disco do AlunaGeorge, o duo londrino que emplacou como uma das maiores referências musicais para os próximos anos.
Não é de hoje que a Inglaterra é uma fábrica de boas bandas. Rolling Stones, Black Sabbath, Blur, como também coisas mais obscuras do tipo Spice Girls fizeram nome na terra da rainha. Sendo mais específico, temos um berço inglês na música eletrônica, com uma alta representatividade no fim dos anos 80. Foi com o Acid House e o Garage House que se concentraram em grandes clubes como o The Haçienda (casa dos integrantes do New Order) e Ministry Of Sound, que se deu início a famigerada Era Rave, um grito que repercutiu mais tardiamente em bandas como The Prodigy, Primal Scream e Happy Mondays.
Just what is it that you want to do?
É dessa fábrica magnifica que nasce o AlunaGeorge em 2012, contando com Aluna Francis, junto a sua dócil e quase infantil voz e George Reid nos instrumentos. Subitamente aplicados a um bom e velho r’n’b lançaram em 2013, um dos melhores discos daquele ano, o debut “Body Music”. O disco engatava em um tribal mid-tempo bastante dançante, o que fez com que o duo conquistasse o público com músicas como “Your Drums, Your Love”, “Best Be Believing”, “Attracting Flies” e “You Know You Like It”, que mais tarde ganharia uma versão remixada pelo DJ Snake e alavancaria de vez a dupla ao sucesso.
Não para por aí: As colaborações foram mais que essenciais para essa decolagem. O AlunaGeorge já criou peças clássicas como “White Noise” com o Disclosure e fez uma colaboração arrepiante no último disco do Jack Ü com “To Ü”, que conquistou sucesso absoluto ao formar parcerias com Skrillex e Diplo. A banda esteve em duas aparições no Brasil nos últimos anos, primeiramente no Meca Festival e mais tarde no Rock In Rio.
Dança da motinha, as popozuda perde a linha
O I Remember é o novo lançamento da banda, que desfoca do r’n’b para se entregar a tendência da música eletrônica que se intitula de future house, um derivado de deep house que encaixa elementos de bass music, garage house e toques de EDM. Mas não se engane, os grooves lentos e sexies de Body Music que remetiam a era de ouro de bandas como The XX para batidões mais violentos não tiram a identidade do duo neste último álbum. As parcerias bem escolhidas para o disco como Zhu, Pell, Flume, Popcaan e Leikeli47 & Dreezy trouxeram um peso absurdo e uma chancela para ser registrado como um vício que você não vai desgrudar do ouvido, pelo menos por um ano.
O disco leva músicas como “My Blood” que tem o pedigree de Zhu, que fez um dos trabalhos de música eletrônica mais concisos desse ano, ainda que não deixe muito sua marca na faixa. “Not About Love”, produzido por nada mais que Mark Ralph (Years & Years, Kwabs e Hot Chip) nos traz uma pitada de Body Music com a pegada mais próxima da raíz primordial da banda, o rhythm & blues e um refrão chiclete que fica por horas na cabeça. Mas o que gruda mesmo é a vibração de “Hold Your Head High”, com um refrão poderosíssimo que nos joga no olho do furacão de uma das melhores faixas do material, com auto-tunes distorcidos, um flerte delicioso com a trap music e teclados da deep house do inicio do anos 90.
Faixas como a homônima “I Remember” e “Mean What I Mean” são um espetáculo a parte, com um som que abre mentalmente um verão em meio a qualquer inverno, se referencia a toques explicitamente tropicais e um reforço nos vocais com a Leikeli47 & Dreezy que colaboram nos rap, o que deixa a música extremamente redonda para virar o single do verão. A faixa ainda dá espaço para outra com o mesmo peso, "I’m In Control" que leva bronze como uma das melhores tracks do cd, pelo seu contraste entre o mid-tempo no início da música e o peso das percussões e baixo que comem solta no restante da faixa. A mais apagada entre as dançantes, "Jealous, é intima das duas faixas citadas anteriormente, mas sem a mesma vibração que as outras libertam com suas crescentes. Sem ter um bom clímax, fica um pouco apagada entre as outras.
Mas nada do Body Music está perdido, faixas como “Mediator”, “In My Head”, “Full Swing” devolvem as fantasias deixadas por Aluna Francis em seu debut.
I Remember mostra um trabalho extremamente competente e atual de um duo que não abandona suas raízes, ainda que consiga inserir batidas e texturas hipnóticas exclusivas que vão virar referências para tantos outros artistas sugar dessa maravilhosa vitamina proporcionada pelos ingleses. A Aluna deu uma aula de verdade
Por fim, só nos resta agora aguardar por mais um espetáculo dado por Aluna Francis e seu capacho George por terras brasileiras. Custando poucos temers, claro, porque tá difícil de $obreviver nessa crise toda.
Eu não sou a próxima Beyoncé ou Solange, eu sou a Aluna
Nota: 8/10
Texto por: Rodrigo Menezes