— Pegaram ele de jeito. Puseram umas camisas nele, umas calças, umas coisas estranhas.
— E ele?
— Ele foi deixando. Quando viu, ele já não era ele mais. Era só um rastro do que ele tinha sido antes.
— E então?
— Ele continua sendo e agora ele é ele.
— Como assim?
— Ele é como ele é.
— Mas você acha normal?
— Normal não pode ser, não é? Do jeito que ele olha, com aquelas roupas e tudo...
— Você acha que ele é feliz?
— Às vezes, mas às vezes também ele deve se lembrar e sentir saudades.
— Do quê?
— Dele mesmo, né? Do que ele era antes de mudar tanto.
— Mas todo mundo muda...
— Não assim, não tanto, não desse jeito, não com aquelas roupas que puseram nele!
— Então como é que fica?
— Acho que ele vai tentar apagar da memória o que ele foi antes.
— Como se tivesse nascido assim...
— É, como se tivesse morrido.
Arnaldo Antunes, "Aqui ninguém precisa de si" (2015)
























