" Le vin tiré, il faut le boire ", reza o ditado francês, isto é, o vinho tirado da barriga, é preciso bebê-lo, ou seja, comecou, tem que ir até o fim. Se a humanidade está na chuva, é para ela se molhar. Quem a mandou deixar a zona do conforto irresponsável de uma eterna infância em que fora colocada por Deus Pai no Jardim do Éden?
Bem, segundo narra o mito, no começo era o Verbo. E esse Tal loquaz não se conteve, arrotou a Criação global. Depois, entrou-lhe coceira na sintaxe e espirrou o Homem. Mas o danado, ou o bendito, como queiram qualifica-lo. achou pouco essa dissimetria e, de um bocejo seu, nasceu a Mulher. Até hoje, discute-se quem é complemento de quem. Mas é fato que este primo casal, feito à imagem e semelhança do tresloucado Verbo criador, ensejou inúmeros desdobramentos, nem sempre lícitos. "Le ver était dans le fruit", o verme estava no fruto, a maçã, bichada. Mas tão bela!"Ça c'est pour ma pomme !", isso é para mim, gritou uníssono o primo casal. Dito e feito. Com o bichinho a fazer-lhe cócegas ao sul de seu íntimo Equador,, a mulher requebrou ... E o homem, pasmo, engasgou-se. Sobrou-lhe até hoje na garganta o pomo de Adão, " la pomme d'Adam".
"Bonne poire", bonzinho todo, o Pai Eterno " coupa la poire en deux", transigiu: ficasse solto e salvo o verme dos desejos nas entranhas da humanidade, desde que esta lhe pagasse, a ele, ao bichinho da volúpia, a hospedagem pelo suor do trabalho humano e pelas dores do parto. Espantado, o primo casal "tomba dans les pommes", ou seja, teve um desmaio. E Adão, desesperado e um tanto covarde, ao acordar da ebriedade passional, " la gueule de bois", ainda de ressaca, cismou protestar e botar culpa em sua companheira por sua manha sedutora : " Je ne suis pas de bois!", não sou de ferro, dizemos nós, confessando sem querer a herança daquela antiga fraqueza moral.
Tarde demais : nascida estava a primeira repressão à liberdade, e também a primeira manifestação de machismo besta, o primeiro discurso dogmático dos censores, " la langue de bois", cuja prole numerosa espalha fanatismos e ódios até hoje.
"Touchons du bois!", esconjuremos a sina maldita : com maçãs, ou com manga rosa, com poesia, com vinho e até com sã rebeldia, que não morra de fome a liberdade, nem o desejo.
Velho Matuto, Leopoldo de Bulhões, 2 /08/2026
















