O recorte do filme que corresponde à essa música é muito inteligente e é organizado quase que para enviar uma única mensagem:
A mulher negra carrega e opera a máquina da sociedade, ou sistema.
Como a gente consegue chegar a essa compreensão? Muito simples, a idealização afrofuturística que é prenunciada no interlúdio anterior nos mostra o que posteriormente se revela como uma mulher vestida com trajes tradicionalmente utilizados por personalidades marcantes dos guetos americanos, as strippers. Então, essa mulher preta está operando o maquinário como se o estivesse regulando e ela aparece fazendo isso, tanto em pé, quanto agachada, uma posição que remete novamente a profissão. Dessa maneira vemos uma mulher que estereotípicamente corresponderia a uma stripper sendo a responsável por fazer a máquina funcionar e mesmo estando por trás dela você conseguia enxergar ela pela janelinha, por exemplo.
Dessa maneira, é possível compreender que a intenção dessas cenas era meio que dar o crédito as mulheres pretas que fazem tudo que está a seu poder para se manterem vivas, as vezes apelando para a profissão de stripper e mostrando como ao fazer isso essas mulheres movimentam a economia e dão lucro para outras pessoas enquanto dão alívio sexual para homens que geram lucro para a economia, ou seja, essas mulheres estão nesse momento , exatamente na base da sociedade, pois todos a exploram e seu lucro é o único que não é visado na relação.
Logo em seguida, você vê essa única mulher carregando esse maquinário pelo deserto por uma longa estrada e chegando ao final, diversas outras mulheres pretas a encontram, como se ela tivesse trazido todas as mulheres pretas ao lugar onde chegaram, de maneira bastante metafórica.
Agora sobre a música, temos uma participação do produtor Metro Boomin falando “Hold Up” o que vai ser a base da batida da música. A letra começa falando sobre alcoolismo na comunidade, depois ela fala sobre a questão das mulheres trabalhando no chão ou na pista fora da cidade, dando a entender a questão da vida de stripper e eventualmente ela fala sobre a maneira como recebe o criticismo das pessoas. Essa última parte tem uma conotação que algumas plataformas descrevem como uma vingança física, mas eu interpretei pelo lado da comunidade. Isso porque o álbum inteiro é sobre a relação dela com a sua comunidade, logo não faria sentido ela mudar o propósito da sua argumentação para direcionar para uma pessoa, sua violência física.
Eu entendi que as críticas que são feitas contra ela retornariam como uma crítica feita a própria comunidade ou ao próprio estilo de vida da pessoa. No caso, sendo uma pessoa preta, ao criticar alguém que faz um trabalho que celebra a essência da população preta no país, você critica a si mesmo. Beyoncé que teve a mesma criação de Solange diz em diversas músicas como lida com críticas e ofensas pessoais:
“Always stay gracious best revenge is your paper”
“My sister taugh me how to love my haters”
“When you hurt me you hurt yourself”
Isso me levou a crer, que apesar de serem muito diferentes, talvez compartilhem essa compreensão de mundo.
Então essa música, eu compreendo como falando do ciclo vicioso da comunidade: Os homens estão cansados e estressados pois são explorados e vão aliviar a tensão com a mulher preta trabalhando na boate de stripper. Depois esses mesmos homens saem de lá e criticam outras mulheres por se comportarem ou se vestirem como as mulheres que aliviam ele a noite. Logo em seguida, passam o dia sentindo o peso da exploração novamente para retornar à boate e seguirem o ciclo.
Stay flo é realmente bastante complexa, mas o filme ajuda muito a saber de que lugar a interpretação deve partir e quais as concepções que vão nortear a compreensão da letra. Um beijão e até a próxima.