Krum encostou suas costas contra a parede, deixando que a mesma arrastasse contra os tijolos atĂ© sentar-se ao chĂŁo. A mĂșsica da festa ainda poderia ser ouvida de longe, mas os pensamentos pareciam mais altos. O peso das decisĂ”es que tomou, das fugas que teve que assumir, de todas as noites em claro se sentindo um mero animal, todas essas dores se misturavam em seu peito com a ajuda da poção da tristeza e do consumo do ĂĄlcool.Â
Sua cabeça estava apoiada nas mĂŁos e os cabelos lisos desciam por sua face escondendo sua feição. âQuem Ă© Ulrik Krum?â âPrefiro obliviar minha mente do que lembrar do tempo com vocĂȘâ. â Eu sĂł quero que vocĂȘ fique quieto. As frases foram repetidas mentalmente, ele se lembrava das mensagens trocadas no whatsapp com Asterin, de Amara chateada pelo o que ele havia feito. Esse era Ulrik Krum: um grande filho da puta! Por mais que ele se esforçasse para manter as pessoas longe, por mais que ele tentasse nĂŁo machucar ninguĂ©m, o coração dele sempre o traĂa e quando ele notava⊠era tarde demais para nĂŁo dizer um eu te amo e para nĂŁo ferir. NĂŁo era fĂĄcil manter a fachada de alguĂ©m frio, temer machucar aqueles que amava, mas ele conhecia o fim que tinha dado em Durmstrang. Ele estava submerso em seus prĂłprio problemas quando uma voz conhecida chegou aos seus ouvidos. Ele permaneceu com a cabeça abaixada, achando ser alguma peça de sua cabeça. Afinal, quantas vezes jĂĄ nĂŁo imaginou Asterin lhe procurando? No final das contas era sempre ela⊠ela que habitava seus pensamentos mesmo nas noites mais sombrias. Ele ignorou, uma, duas vezes! NĂŁo queria ter que erguer a cabeça e notar que era mais uma miragem, um oĂĄsis inalcançåvel.Â
PorĂ©m quando sua mĂŁo foi tomada pela da garota seu coração pareceu dar um salto. Ele apertou os olhos tentando conter a emoção âhomens nĂŁo choramâ, ele ouvia a voz de seu pai na cabeça. Mas a poção somada Ă veritasserum da noite fez com que as palavras saltassem de sua boca, embargadas. â Por que ainda estĂĄ aqui? â ele questionou com amargura, erguendo o olhar para fitar os olhos brilhantes da garota. Em outra ocasiĂŁo estaria perdido naquela constelação, mas desta vez ele voltava a falar tudo aquilo que guardou Ă sete chavesâ veio para me lembrar o quanto vocĂȘ Ă© boa e o quanto eu sou um filho da puta? As mensagens foram claras, Ă© isso que pensa de mim! â as mĂŁos tremularam sobre o colo. As palavras se embaralhavam na mente, e ele nĂŁo sabia ao certo se era tristeza, arrependimento, culpa ou se apenas queria fugir uma vez mais e poupĂĄ-la de vez. â Ă⊠talvez eu seja mesmo um monstro. Mas eu te prometi Asterin... â ele pausou levando as mĂŁos atĂ© o rosto, pressionando as tĂȘmporas pela dor que sentia. Se referia ao fato de ter prometido que nĂŁo queria machucĂĄ-la, e quando descobriu da doença que a garota possuia ele soube que nĂŁo poderia expor ela ainda mais aos seus genes de licantropia. â I care about your feelings more than mine. â foi o que conseguiu expressar sobre seus motivos. Ele gostaria de dizer o quanto se importa, o que ainda sente, porĂ©m isso poderia arriscar a distĂąncia que precisava estabelecer. A verdade era que a presença dela era viciante. Mais do que qualquer droga bruxa, era uma companhia que o fazia se sentir diferente, o fazia se sentir real. NĂŁo um Krum, nĂŁo um lobisomem⊠O Ulrik!Â
Como se seu corpo se encontrasse a deriva de qualquer local deixado as chamas, a respiração se tornou rarefeita, tentando conter a vontade de gritar com ele, pedir para que ele reagisse de alguma forma, mas nĂŁo o fez, estava cansada de esperar por ele em uma sala vazia, ainda assim sentou e esperou ao seu lado atĂ© que ele lhe expulsasse dali, porque talvez assim tivesse certeza de que ele estava bem e talvez pudesse descansar aquela noite. Porque vocĂȘ estĂĄ aqui? NĂŁo Ă© obvio? Quis rir, desgostosa porque ainda guardava aquilo para si, porque ele nĂŁo fazia ideia do porque quando era tĂŁo claro para si, mas nĂŁo podia dizer as palavras, nĂŁo, as engoliu em seco mais uma vez, porque talvez fosse apenas tarde ou cedo demais para dizĂȘ-las novamente. âPorque eu nĂŁo podia apenas ver vocĂȘ assim.â Sussurrou tentando engolir seu orgulho ao menos uma vez, ou talvez fosse apenas a poção da coragem, ainda que as palavra ditas nĂŁo dissesse metade do que desejava. âPor incrĂvel que pareça nĂŁo, eu nĂŁo vim dizer isso Ulrik, vocĂȘ acha que eu sou tĂŁo mĂĄ assim? Que eu iria vir aqui e te deixar pior? Esqueceu a pessoa por quem vocĂȘ se apaixonou?â Era quase uma suplica para que ele lhe respondesse e quis de alguma forma esconder o quanto ficou chateada com aquilo, porque todas as vezes tentava coloca-lo como ruim para tentar de alguma forma aceitar o que aconteceu. âDroga vocĂȘ.â Resmungou para si mesma, se encolhendo e abraçando as prĂłprias pernas, aquele maldito sufocar em seu peito que ainda insistia em bater por ele, ele Ă© seu, vocĂȘ sabia? VocĂȘ sabia! Ainda assim nĂŁo quis ficar com ele e eu estava brava demais para tentar entende-lo, convencida demais que era o melhor.Â
Antes que pudesse pensar as mĂŁos segurou o rosto dele, nĂŁo com força, ainda que quisesse o fazer olhar para si. âEu nĂŁo acho que vocĂȘ Ă© um monstro, eu nĂŁo acho isso, vocĂȘ entendeu?â A voz saiu alterada, em certo desespero para que ele parasse com aquilo, sequer ligou para as lagrimas que rolaram o rosto e que ele veria. âEu me lembro, eu me lembro de tudo.â Disse amarga, como quem prova o gosto do ferro, como se isso nĂŁo pudesse deixar de ser sentido, feridas que talvez nĂŁo fossem cicatrizar. âVocĂȘ achou que seria melhor assim... mas vocĂȘ machucou  mesmo assim.â Aquilo saiu de sua boca? Puta merda! Os olhos se arregalaram e ela tentou se afastar. âSe importa, se importa, se importa.â Repetiu, quase incrĂ©dula que ele tinha coragem de dizer aquilo, deixando um riso nasalado escapar. âVocĂȘ me deixou logo depois de descobrir um dos meus maiores segredos, o que eu mais temo contar, eu sempre soube que era demais, eu meio que esperava que vocĂȘ me deixasse, mas isso nĂŁo fez doer menos.â Porque eu queria que vocĂȘ ficasse. Droga! Estava falando demais, mas tambĂ©m estava tĂŁo cansada de guarda tudo. âMas eu nĂŁo odeio vocĂȘ, mesmo que eu queira muito odiar, mesmo que eu faça tudo pra parecer que odeio, eu nĂŁo odeio.â Confessou, um tanto brava com aquelas palavras, um tanto surpresa por saber o quanto elas eram verdades, mas era quase leve poder dizer, o que a fez rir, talvez pelo ĂĄlcool em seu corpo ou porque nĂŁo sabia como reagir a situação em que estavam. EntĂŁo eu o olhei mais uma vez e nĂŁo pude controlar sorrir, porque ainda era ele mesmo quando eu nĂŁo o reconhecia mais, ainda era o mesmo Ulrik que me apaixonei e eu nĂŁo o queria daquele jeito.Â
âEntĂŁo me faz um favor, larga de ficar no canto com essa cara de bunda e toma qualquer outro drink, finge que eu nĂŁo existo, sai com outras pessoas, porque se vocĂȘ se importa comigo eu quero que aproveite essa porra de vida que vocĂȘ tem, me prova que foi a decisĂŁo certa.â Talvez assim eu entenda porque vocĂȘ me deixou, me convença que vocĂȘ estĂĄ melhor assim e te perdoe por isso, porque eu nĂŁo quero morrer sabendo que vocĂȘ nĂŁo foi feliz. Â