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Sentença
Pele de vidro Metabolismo original Olhar vazio Análise conformacional
Estudo De um exemplar Aleatório Tridimensional
Nu Cru Real
Sem pudor Sem repressão Sem monitoramento Sem conclusão
Supervisão Apenas
-pausa para refil de nanquim,-
Verdades Incontestáveis Circulam O organismo Desse indivíduo Da população
Entubado Dopado Involuntário
Desconhece sequer O que se passa Desconhece sequer Sua casa Sua ideologia Sua ecologia
Desconhece sequer A nova cadeia alimentar O destino das massas de ar Desconhece o que restou do planeta
Além de tudo Desconhece seus valores Seus princípios
Ele está exposto Inconsciente Exemplificando Rispidamente A lógica por traz Do desprezo que o poeta tem Pelo bípede mais soberbo do planeta Terra
Gente Rústica Rude Gente ruim
Não há confessionário Que caiba o perdão do mundo Porque o mundo vegeta A espera de uma eutanásia
-DON'T PRESS THE BUTTON-
Impulsividade! Explosão! Expansão do universo!
Poetas ásperos Sobrevivem ao apocalipse E tudo o que lhes resta É escrever
Luísa Mendonça
Do ultimo Carnaval
Sapiens, I
Já era tempo De juntar todos os rascunhos E reciclar os templos que foram tombados pelo patrimônio histórico do meu ser
Já era tempo De fazer cultura com meu corpo E exalar cores no meu cheiro Abrir mão do dinheiro Limpar meu cinzeiro Concertar meu veleiro Fugir do cativeiro Exorcizar este espírito caseiro Que me prendeu aqui
Já era tempo De tatuar de novo Entregar-me inteiramente enquanto estampo; Acabar esse trampo Over and over again Admitir que cada pedaço de pele que eu tampo É um pedaço de pele tocado pela imaginação de alguém E isso basta Como isso basta, Sapiens. Você não tem a mínima ideia.
Já era tempo De admitir que eu acampo Pra esquecer que o ser humano Já não vale nem o bacilo que, Na cissiparidade de seu ciclo, Demonstrou que só precisa de cópula Quem é incompleto demais
Não me completa, Sapiens, Me transborda, por favor.
Vamos fazer amor Sabendo que não há nada além de amor pra se fazer Virar beija-flor Lambuzar de néctar, deixar dissolver Contar pro pastor Que eu floresço de novo Cada vez que me fazem gemer E gritar E sorrir E gargalhar Né não? Viver!
Pecador é o senhor Que abdicou do seu prazer Já passou da hora, Sapiens Luísa Mendonça 22 de agosto de 2016
Pintar-nos em sonhos Não me leva mais a qualquer lugar Nem álcool, nem drogas Eu preciso de você aqui
Contudo, isto é impossível E o que a bebida acaba por fazer É eu te amar sem dor Poder falar sem medo Mesmo que ninguém ouça Que você mora aqui e que eu não sei lidar com isso

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Ante o frio, faz com o coração o contrário do que fazes com o corpo: despe-o. Quanto mais nu, mais ele encontrará o único agasalho possível — um outro coração.
Mia Couto
Olho, olho Mão, mão Boca, boca Mão, cabelo Cintura, cintura Costas, lençol Peito, peito Coxa, coxa Boca, boca e vai
L.
Ninguém no mundo
Onde estão as almas dos seres humanos que ainda vivem? Vagam? Vigoram? Voam sobre nós?
Eu perdi a fé nas pessoas E, na desconstrução do especismo, Descobri que minha casa chama-se Terra, Descobri que não é familiar minha relação com ela, Não é hierárquica, Não é religiosa.
Eu não sou discípula, Eu não sou criada, Eu não sou mãe, Eu não sou filha, Eu não sou “alguém” desse organismo que flutua no espaço.
Eu não quero ser nunca “alguém” daqui, Essa palavra é tão “gente”, É tão homo, Tão antropo, Tão pouco.
Sobre o que eu sou desse Planeta, Além de eternamente grata. Sobre onde eu estou nesse Planeta, Além de eternamente sobre. Sobre quem eu sou nesse Planeta, Além de meramente “alguém”.
Análoga a uma organela, Eu apenas existo nesse corpo, Mas dependo dele, Inteiramente.
Analogamente, Porque literalmente Eu não sei.
(…)
De uma viagem que começou na rebeldia, eu notei que a gente não tem tanto tempo para viver, Sentirmos vivos. O tempo que temos é o agora.
O contexto social da humanidade não abre portas para viagens, A não ser que as arrombemos com a fome de mil leões, A não ser que nos desenvolvamos numa placenta de nata, A não ser que o contexto social não seja tudo o que você conhece;
Você não nasceu para viajar, Criar estórias, Amar e ser amado Completamente.
Mas você nasceu E você está vivo, Ocupando um espaço, Respirando parte do oxigênio, Sendo ALGUÉM.
Na cegueira que lhe é imposta Existe um ponto glorioso e nítido, Conhecido como o “seu umbigo”: Isso é tudo o que vê.
Muito além da alienação, Manipulação de massas. Muito além do que o homem fez ao próprio homem, Há o que o homem fez e faz ao corpo em que reside;
Tão alastrado quanto um câncer, Ainda mais infiel que Judas, Que vai sugando toda a dignidade, De todas nossas existências.
Também por isso o nojo De ter dado a sorte De ter o privilégio Dessa chamada ‘racionalidade’.
Queria eu ser uma célula tronco desse corpo E me transformar no que eu bem quisesse Mas eu, organela insignificante Sou apenas “alguém”.
Apesar de tudo Que há além de mim.
Luísa Mendonça 23 de julho de 2016
Minha criança não é o problema
Eu vi uma criança mimada chorando na rua hoje E me lembrei de Freud Depois pensei em mim mesma Pensei nas coisas que minha mãe diz Sobre minha infância
Ela não usa a palavra “fria” Eu só era quieta, séria Se doía, não chorava Se tinha graça, eu não ria
Ainda assim minha mãe me chamava de flor Até hoje ela me chama assim E desde sempre, por conta disso Eu enxergo pétalas imaginárias envolvendo as crianças
Mas o que Freud diria? O que ele diria sobre mim? Afinal, para ele as pessoas eram tão óbvias As próprias crianças eram previsíveis
Pra mim, crianças ainda nem são pessoas São só flores mesmo Enfim
Eu sou tendenciosa pra falar de Freud E eu ainda tenho muito a aprender Mas eu também sou tendenciosa quando o assunto é ética animal E isso se deve à carência de humanidade Que eu vi com os meus olhos Durante a minha vida Ainda que eu seja fã de Gandhi
Então, eu falo, eu xingo Eu li e tenho muito mais de ler Mas as vezes parece que Freud nunca foi criança
Eu não suporto Freud Margarete era o nome da professora que me plantou essa repulsa A disciplina era “Psicologia da Educação” E, com uma didática duvidosa, ela analisou Freud ao pé da letra Imagine só! Tá aí a raiz da minha tendência
A questão é que as vezes Eu reparo em seres humanos específicos Realmente imaginando “quem é essa pessoa?” “O que se passa na cabeça dessa pessoa?” Mas eu gosto mesmo é de fazer isso com as flores
Crianças são fáceis e difíceis de se reparar Desprovidas de maldade, Não nos deixam com o pé atrás
Mas o que eu acho mais incrível nas crianças Nas mais pequenas É que eu posso revirar minha memória Que eu não me recordo de forma alguma O que se passava na minha cabeça Quando eu era uma criança Um baby Uma frô
Não saber é uma delícia Olhar, não conter o sorriso causado pela pureza E não ter a menor pista de seus pensamentos É delicioso
Não tiramos conclusões.
Ver essa criança hoje me lembrou Freud Essa lembrança me levou a escrever esse texto Esse último verso me lembrou uma pessoa muito especial Sobre a qual já escrevi duas vezes E da qual já escutei muitas coisas bonitas: Iago
Iago, há menos de uma semana Direto da Austrália, via Skype Me disse aquela porção de coisas irreproduzíveis que ele sempre diz “Sobre o amor, sobre o carinho Sobre a cidade grande e a sutileza da vida”
Foi numa dessas que eu aprendi a não tirar conclusões Ou pelo menos foi numa dessas que eu enrosquei uma lâmpada na minha cabeça E essa lâmpada se acendeu hoje quando eu vi essa criança
Foi numa dessas que o mistério das crianças foi levemente solucionado Porque aprendi que, na vida, as melhores e as menores coisas não tem solução E isso é outra delícia
Enfiar tudo que Freud disse no cu dele é demais Pois devemos reconhecer sempre pessoas a frente de seu tempo Mas quero deixar bem claro que não é por tentar ser poeta Que eu sentimentalizo tudo a minha volta
É por reconhecer que não se generaliza comportamentos Por mais que possamos prever reações É por desacreditar no complexo de Édipo É por amar o cheiro das flores
É por clamar com todas as letras (Complicado ou não, objetivo ou subjetivo):
Por favor Não pratiquemos a psicanálise Antes de fazer amor
Luísa Mendonça 12 de julho de 2016
Desde o momento que terminei esse texto Me impressionei por não ter usado a palavra “cultura” E eu acho que Freud nunca teve um orgasmo
Paul Klee
Night Feast (Nächtliches Fest) 1921

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Paul Klee - Portrait of an Artist
Paul Klee - villas florentines -1936
Ei, tô no wordpress
Fazer o que né? Tumblr é quase uma arte morta agora. https://bossazen.wordpress.com
Criatura
Gesticula, fenômeno humano Pra eu ver que tu queres falar E cospe pro mundo inteiro Tuas confusões mentais desconexas Teus manuscritos em papel pautado Teus rascunhos em notas de celular Teus desenhos inacabados Estão criando teias e netos Tu não os vês como recheio de livro Nem letra de rock progressivo neo psicanalítico Tu não regurgitas mais água suja de tinta Que, na cegueira da empolgação visual, Se mistura com a xícara de café E está no local errado Por acaso Mas tu és capaz, Sapiens Não é por pouco que te chamam assim Pois foi pela sagacidade de alguns indivíduos Que a alienação massiva virou tática de jogo (O Sistema Capitalista não funcionou, Peço humilde licença para proferir e repetir tais palavras: “O Sistema Capitalista não funcionou” PENSA: Se a noção de ser humano fosse, de fato, além de política e econômica; Social, ecológica e cultural – como composição da própria natureza -: O Sistema Capitalista não seria bem sucedido. Qual é então, tua noção de ser humano? A direita e a esquerda hoje são falsos posicionamentos Pois é tudo uma questão de já ter sentido ou não Na pele A falha A falta O desgosto E o descaso com o ser vivo que temos o direito inato de ser no mundo.) E já que a vala não enche E nós, humanos, não paramos de multiplicar Já que a tendência medíocre se tornou lei Já que não é tão vantagem competir Pela dificuldade de se destacar: Desamassa teus papeis rabiscados, Recompõe teu olhar de criança E aprende a digerir amor, Porque nosso estômago está passando por um processo de seleção artificial rancoroso Sem espaço pra lógica Sem espaço pro bem; Sai desta inércia louca Desta história pouca Que vive repetindo Pecados dos ancestrais E costumes ditatoriais Humilhantes Decadentes Holocáusticos ABRE teu olho Tua pupila Teus braços E tuas mãos Abre cada minucioso poro do teu corpo E abre tua consciência da existência que exerces aqui Agora Onde estás e onde poderias estar No mundo e nos Universos em todas suas dimensões Mostra Que tu conhece O valor da tua presença Neste momento do espaço-tempo: Em que tua energia se materializou Em carne e osso Em cheiros E em gemidos CRIA, Criatura Luísa Mendonça 29 de junho de 2016 bossazen|wordpress
alceu valença cantava anunciação
destino é uma palavra compulsória, conheci pegando carona com o acaso muito nova, sem dentes para arrancar você passou entre os meus joelhos, eu tive que dar o primeiro passo: depois disso, tudo destino jantares e lugares onde alceu valença cantou anunciação.

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masoquista
eu to bebendo e fumando muito além do normal como se precisasse preencher algo aqui dentro de mim.
eu to bebendo e fumando e perdendo a noção de responsabilidade, quando numa sexta a noite saio sem rumo entro numa festa cheia de pessoas vazias beijo a boca de estranhos e acabo na cama de um cara
(eu nem gosto de homem)
e ele tenta me tocar e eu digo não mas ele insiste e eu continuo dizendo que não porque eu nem gosto de homem mas ele insiste
mas eu nem gosto de homem
eu to bebendo e fumando demais como se precisasse sentir algo aqui dentro como se precisasse que alguém me fizesse sentir algo aqui dentro como se precisasse de alguém que me machuque para sentir algo aqui dentro.
quando, na verdade ninguém pode me machucar, além de mim mesma.
to me tornando masoquista, mon cher bebendo e fumando e me machucando pra precisar sentir que tem algo aqui dentro de mim.
// borges, l.
(inverniando)
Recado para colar no espelho
Você não é especial, amigo.
Te digo isso com o carinho – e com a corriqueira indiferença – de quem diz “saúde!” a um espirro.
Você não é especial.
Melhor que te diga isso esta voz tranquila dum poema que nutre tua solidão clandestina (em que – oh, tão único! – só você se imagina.)
Menos, querido, menos. Três passos atrás e tua imagem já se embaça no espelho.
Insisto, você não é especial… Vocês todos não são.
Haverá, talvez, em ti, agora, um riso irônico, uma descrença, ou licença que te proteja de perceber que outros – como você – lêem este poema com risos igualmente irônicos, similar licença ou descrença.
Sim, é compreensÌvel…
Todos, – absolutamente tudo e todos – te enganaram desde o início: te fizeram crer que você era único e, oh, insubstituível.
(o mercado, com seu olhar cínico de currículos, sabe bem mais de você e de teu trato… oh, trabalho humano abstrato)
Você não é especial…
Tua mãe, pequeno, te enganou. Teu professor do primário te enganou. Tuas namoradas, – uma a uma – te enganaram. (E fechaste os olhos quando tentaram te mostrar teu humano e comum fracasso!)
Os comercias de TV, os shampoos pra teu especial tipo de cabelo, o teu gerente no banco, os cartões de crédito, a puta, o psicanalista, o padre, o médico, todos te enganaram…
Você mesmo, todo dia, ergue seu castelo kitsch de qualidades raras no espelho, no trabalho, no social das redes, no chuveiro enquanto repassa solitário (com trilha de fundo) tua história – oh, tão própria! – de acertos e fracassos (como milhares agora mesmo o fazem).
Assim, tão especialmente educado, é normal que, de início, não aceite… Todos, – e você não seria diferente – negam, a princípio, os fatos… mas seu corpo os conhece e vão repetidamente te sussurrando à hora de dormir: você não é especial! você não é diferente!
Aquela paixão tão ardente nos olhos dela? Brilhará novamente – tão ou mais ardente – sem seus olhos.
Aquele jeito próprio de gemer teu nome, ou a fúria com que mordia tua pele, o gozo conjunto pralém da morte? Se repetirão indefinidas vezes – mais ou menos intensamente – com tantos outros “especiais” igualmente.
E as palavras que ela – ou ele – lhe disse num certo momento sublime… novamente as dirá com mesmo frescor – sublimente – a quem for.
Você não é especial. Aceite.
E o que te faria? Mais conhecimento? Mais beleza? Coragem? Consciência? Mais dinheiro? Paz? Tua tristeza? Teu jeito excêntrico de fazer algo comum? Teu desespero diante da morte e do sem sentido? Tua revolucionária utopia? Poesia?
Venha, querido, me abrace.. aceite.. relaxe…
Você não é especial.
Se desfaça dessa inútil e pesada couraça…
retire a coroa de louros…
(só te atrapalha…)
Venha, junte-se a todos…
você não é especial…
a vida é
Jeff Vasques