Regrets Collect Like Old Friends || Korak & Neraj || Flashback
Embora soubesse da improbabilidade do amigo ler aquelas mensagens que enviava sem nem ao menos ler o que digitava, Korak continuava a digitar para Neraj initerruptamente. Seu estado atual era o êxtase. Não sentia a utilidade de suas ações com relação aos outros até que finalmente havia se deparado com alguém que poderia ajuda. Obviamente, o contato com Daphne Hero havia saído errado antes que ele pudesse compreender que sua abordagem era a pior possível, todavia, não sabia como controlar suas palavras tão bem quanto sabia como controlar seus atos. Suas ideias, assim como sua mente, sempre fora diferente da maioria, afinal, nunca teve um fundo sadio no que ele fazia, sempre abrindo mão da segurança pela emoção da aventura. Porém, naquele momento, sua intenção era de fato ajudá-la e, por um momento, se viu diante da sua incapacidade de fazê-lo devido ao modo como utilizou a abordagem de algo que ele sabia que não deveria fazer, porém, não conseguiu se controlar. Durante o curso, havia aprendido como deveria ser a abordagem diante de situações em que o paciente desejava não partilhar seus traumas e, se seu supervisor do estágio estivesse vendo-o agora, provavelmente ele não teria conseguido o diploma.
A última mensagem foi digitada ainda com o sorriso no rosto, porém, ele sabia que seu amigo não iria respondê-lo mesmo que Korak pedisse todos os deuses para ele o fazer. Neraj tinha um problema com tecnologia que era compreensível para Clayton, mesmo que ele zoasse o amigo em alguns momentos por tal característica. Mesmo que fosse como o outro diante de seu amor e devoção pela vida que os cercava, o indiano não via problemas em usar tecnologia como o outro; e, mesmo que o amigo não lesse suas mensagens, Korak não poderia deixar de contar para ele. Neraj era seu melhor amigo e confidente desde que o homem não tinha dentes na boca e, se havia alguém para quem ele gostaria de contar acerca do que havia acontecido, era para o outro. Não é difícil imaginar, então, o que Clayton acabou fazendo diante da falta de respostas – mesmo que não estivesse usando qualquer peça de roupa.
“Neraj, você não acredita!” Sua voz demonstrava um pouco de sua animação ao entrar pela porta da cabana, sem se preocupar em bater. A sorte era que estava destrancada, ou então Korak teria certos problemas. Parou ao observar o modo como o outro estava olhando para um objeto que ele não era capaz de identificar. Mas a expressão de Neraj acabou fazendo com que ele hesitasse diante de sua fala. Um orgulho para Clayton era a sua delicadeza para se comunicar com as pessoas, assim como o tato para reconhecer quando alguém não estava se sentindo bem apenas estando no mesmo ambiente que o outro, principalmente quando o assunto era Neraj. Ele sabia reconhecer as emoções de seu amigo apenas se aproximando do rapaz, sem que ele dissesse muita coisa. “Neraj?” Chamou, ainda parado no mesmo lugar. Outra boa qualidade era sua paciência.
Neraj estava tão absorto em seus pensamentos que sequer notou quando seu amigo entrou na cabana. Já era distraído por natureza e, para agravar esse traço, estava sendo completamente consumido pela culpa naquele momento, sem deixar seus pensamentos fugirem de Amisha. Quando foi chamado pela segunda vez, virou a cabeça e finalmente percebeu a presença de Korak. Ele não estava usando roupas e, apesar de não ser algo incomum e Neraj já ter se acostumado há anos, teria feito alguma piada a respeito do amigo andar nu pelo acampamento em outra situação. No entanto, não estava com humor para brincadeiras e sequer chegou a se perguntar se alguém teria o visto andando como veio ao mundo pela ala de dormitórios masculinos. “Oi” respondeu, com a voz quase fúnebre, antes de voltar o olhar para o colar que havia encontrado. Não sabia se Korak o reconheceria — provavelmente não — nem se queria falar sobre aquilo com o amigo. Não gostava de discutir sobre Amisha com ele, afinal, já havia afirmado reconhecer o erro que havia cometido ao namorá-la e que não sentia sua falta. Deveria ser incoerente Neraj se sentir mal ao pensar nela para alguém que não possuía mais informações. Às vezes pensava em contar o que havia acontecido, no entanto, sempre mudava de ideia, sem conseguir vencer a vergonha de confessar o problema com as drogas, as brigas com Amisha e todas as mentiras.
Korak era seu melhor amigo há tanto tempo que nem se lembrava de quando não se conheciam. Com exceção do seu relacionamento com a ex, contava tudo para ele. Era estranho ter um segredo entre eles. Neraj sabia que, como psicólogo, Korak com certeza já havia escutado histórias muito piores, entretanto, não sabia como ele reagiria ao ouvir algo assim sair da boca de seu amigo. Temia que os anos de mentiras acabassem destruindo a amizade dos dois e tinha certeza de que não conseguiria ficar sem Korak. Eles eram tão próximos que chegavam a parecer uma pessoa só às vezes. Frequentemente eram confundidos pelos outros, Neraj já estava até acostumado a esclarecer que não era o amigo. Podia contar nos dedos as ocasiões em que ficaram mais de uma semana sem conversar. O que faria se aquela amizade acabasse? O que faria se aquela amizade acabasse por culpa dele? Não conseguia sequer imaginar uma resposta.
O risco era grande demais, no entanto, Neraj não aguentava mais guardar aquele segredo. Não sabia se seria capaz de finalmente confessar o que o incomodava tanto em relação à ex-namorada, mas precisava tentar mais uma vez. “Eu encontrei o colar da Amisha. Devo ter deixado cair na minha mala sem querer” comentou, com a mesma voz tétrica, mantendo o olhar focado na bijuteria. Ele respirou fundo e se preparou para dar mais detalhes, porém, não conseguiu. Temia a reação de Korak à verdade, contudo, também temia que perdesse a oportunidade de ser perdoado pelas mentiras caso demorasse mais para confessar tudo que havia feito. Eu sinto muito, pensou e abriu a boca para pronunciar as palavras, mas não disse nada.


















