língua não tem osso
— “Língua não tem osso”, diz o dito popular — devo ter sussurrado.
— O quê?
— Oi?
— O que tu disseste?
— Como assim?
— Tu. O que tu disseste? Falaste alguma coisa.
— Eu não disse nada, shhhiu – fiz baixinho, enquanto a acariciei na lateral do rosto.
Márcia voltou a dormir ou a tentar buscar um sono que perseguia de maneira frágil antes de me ouvir desabafar em voz alta. Não muito tempo depois disso, enfim pareceu adormecer. E enquanto estive seguro para mais comentários, embora tenha parado de proferi-los, fixei meus olhos naquele teto alto e claro com limpeza regular e impecável. Apenas uma luz amarela e amena iluminava o quarto, vinda de um abajur que certamente fora adquirido em uma loja grã-fina de Belém.
Sem que ela percebesse ou sem que sequer notasse, pousei um beijo em sua testa. Em resposta automática, aninhou-se em meu corpo, buscando um calor menos afoito e suado que o de antes, enquanto o ar-condicionado agia juntamente com a luz do abajur e com a brecha do luar que as persianas na janela permitiam ser visto. Estávamos no trigésimo terceiro andar do Village Mountain e nem em meus mais distantes delírios eu julguei dormir ou pisar num dos prédios mais altos e luxuosos da cidade. Mas eis-me ali: mordendo a língua para o bem ou para o mal.
A primeira vez em que Márcia e eu nos vimos foi durante a preparação de um aniversário de família. Da minha família que então passava a ser, tecnicamente, também a dela. Benício bateu na porta de casa, procurando minha mãe. Eu estava sem camisa, cabelo bagunçado e com a cara pouco lavada depois de um café da manhã fraco seguido por carregar-cadeiras-arredar-móveis-e-pendurar-balões-e-ir-rapidinho-à-feira-e-varrer-a-casa-e-outras-coisas-mais.
— A Márcia quer falar contigo — disse Benício à minha mãe, com um sorriso empolgado que vinha habitando seu rosto nos últimos meses.
Minha mãe abriu o portão e cumprimentou a mulher que então eu só conhecia de nome e de histórias. As duas se abraçaram e trocaram palavras gentis, embora fosse notável o agir-automático-e-sem-jeito de Márcia naqueles tempos. Em seguida, minha própria mãe foi quem disse:
— Olha, esse aqui é o meu filho.
E sem camisa, cabelo bagunçado e com a cara pouco lavada depois de um café da manhã que não me avisou que visitas logo viriam, vi Márcia pela primeira vez com aquele olhar de classe média alta que a tudo analisa curiosa tratando-se de pessoas menos abastadas. Os olhos de Márcia não eram grandes. Eram olhos normais. Mas eram olhos expressivos. Curiosos. Atentos e, acima de tudo, pertencentes aos mais fiéis julgadores. Foi ali, acho, que Márcia me julgou.
Demos as mãos, um aperto leve. Mas o olhar de Márcia ficou preso, fixado na minha cabeça, cultivando uma dezena de pensamentos que corroboravam com a imagem que eu tinha dela: classe média alta, mas de origem pobre, cirurgiã dentista que alcançou com esforço e com sorte alguns degraus que a separaram da noção real de mundo, de onde veio e de onde pertencia e que fizeram-na esquecer o quão semelhante era de nós, até mais do que julgava. Pensamentos esses que sondaram a fixação daquele grande e expressivo olhar como se me julgasse por saber o que eu acreditava e o que eu defendia. Mas, acima de tudo, um olhar que fazia rodopiar em meus pensamentos uma conclusão duvidosa que minha autoestima jamais me permitiria possuir, nem sequer em linhas ou em páginas delirantes de vis ficções.
A segunda vez que Márcia e eu demos as mãos foi em outro aniversário. Conquanto nossos encontros não fossem em velórios – outro evento comum a famílias –, tudo parecia bem. Dessa vez, entretanto, com camisa e com cabelo arrumado, digno de trajes adequados e não parecendo um filho bruto da classe à qual pertencia, Márcia me encarou com aquele mesmo olhar. Mas dessa vez o aperto de mão foi firme, deveras firme. Estranhamente.
Adiante, detalhes deram a esse aperto e àquele primeiro e desconhecido olhar nuances cada vez mais vertiginosas. “O teu filho é um neném”, foi o que minha mãe contou a respeito do comentário que Márcia fez a meu respeito, o que não seria estranho dado o fato de ser 13 anos mais velha que eu e, é claro, da mesma faixa etária que o namorado, primo Benício. E até o próximo aniversário e o segundo aperto de mãos, o “teu filho é um neném” não saiu da minha cabeça, juntando-se à espiral conspiratória que habitava a minha cabeça e, pouco a pouco, embora eu quisesse evitar, pulsava na outra.
Esse segundo encontro soou ainda mais estranho quando fui eu a comentar, sorrateiramente, a respeito da firmeza do aperto de mão que possuía a nova-namorada-do-primo-Benício-que-era-a-maior-novidade-da-família-nos-últimos-tempos, ao que todos responderam “não notei, ela apertou a minha mão normal”.
Então outros aniversários de família vieram. E batizados e festas de Natal e troca de presentes e confraternizações levianas como meros cafés da tarde. E, pouco a pouco, Márcia tornou-se mais da família, embora ainda muito distante da nossa realidade e com a típica imponência das patriotas que enxergam nos parentes “não” patriotas a excentricidade da pobreza e do esquerdismo. Os apertos de mão firmes continuaram, pelo menos só comigo. E os olhares de julgamento também. Continuava ela a nos analisar como animais excêntricos, espécimes com os quais há muito tempo ela não convivia, e que, no entanto, era sempre um prazer estar perto a título de compreensão.
E embora a família sobre ela por muito tempo mencionasse, os que não esqueceram de onde vieram sempre faziam comentários a respeito de sua arrogância elitista; já os que se esqueceram de onde vieram, comentavam a respeito de como, finalmente, uma adição ideológica e honrosa à família finalmente havia sido feita; ou, em ambos os casos, comentavam sobre sua exuberante beleza de mulher independente, cirurgiã dentista competente e corpo esbelto para a idade (o que estranhamente obrigou primo Benício a frequentar academia).
Márcia era inegavelmente linda. A mais linda namorada que o primo Benício, sempre isento de questões humanas, políticas e sociais, sempre deslocado do mundo, porém com um ótimo salário de funcionário público, havia tido. Isso, família e eu, éramos assertivos em concordar. Sobretudo porque, quanto mais eu pensava em Márcia, em seus olhos de imensa expressividade e em seu aperto de mão firme, sinalizando algo que talvez só eu estivesse louco em inferir, mais essas espirais de insanidades e imoralidades giravam em minha primeira cabeça. E mais a minha segunda pulsava.
E só depois de alguns aniversários, muitos apertos de mão e menos de um ano desde que nos vimos pela primeira vez, foi que Márcia me adicionou em redes sociais. Poucos dias depois disso, para a derrota de toda a minha falta de autoestima e para o alimento de minhas mais secretas e voluptuosas fabulações, Márcia me mandou uma mensagem direta.
E agora estou aqui, disse eu, mentalmente, enquanto passava a ponta de meu indicador direito pelo declive formado entre as costelas e as ancas de Márcia. E agora estou aqui, disse eu, mentalmente, enquanto repassava todos os comentários que um dia fiz a respeito dela e sobre como nos olhava com os incisivos olhos de pesquisadora científica, formada pelo severo conservadorismo brasileiro, enquanto catalogava a nossa raça, uma raça caricata e incompreensível que lutava e defendia os interesses da própria classe, ao invés de dobrar joelhos aos poderosos e dignos patriotas que defendiam o país com unhas vermelhas e dentes azuis e brancos acariciando as águias carecas da liberdade sob a proteção da gloriosa estrela de Davi. E agora estou aqui, disse eu, mentalmente, jogando fora minhas mais ferrenhas convicções (e Márcia também) para sentir o firme aperto de mãos dela envolvendo o meu pau naqueles sagrados encontros nas terças-feiras, rotineiros e só excitantes porque secretos e só secretos porque vergonhosos – moral e ideologicamente –, porém urgentes e necessários, pulsantes e sedentos, escorrendo entre as pernas dela sempre que me dizia que
— O Benício não consegue criar outra criança além dele, então me faz tomar remédio — ela ria com desmedido orgulho — então, vai, goza dentro da minha boceta, goza.
— Assim? — Eu perguntava, sempre que explodia entre as pernas dela. Sempre que me sussurrava tais moralidades no ouvido. — Assim que tu queres que eu goze, é?
— Assim, assim — ela gemia.
Eu segurava o meu pau e o espremia. Balançava e espremia. Certificava-me que todo o delírio e confusão plantados pelo olhar e pelo aperto de mão de Márcia haviam saído.
Cada
gota daquela
porra
pra fora.
Gotejando e
babando e escorrendo pra dentro dela,
um afluente constante dentro da fluvialidade de Márcia.
Todas as terças-feiras à noite.
Sem falta.
— O Benício não vai desconfiar? — Eu perguntava.
— O Benício ainda mora com a mãe.
— Acho que ele faz o teu tipo — retruquei, rindo.
— Benício ainda mora com a mãe e põe ela pra dormir porque quer.
— É exagero.
— Não, não é. O Benício não sai de casa por causa dela. Ele pode deixar a tia de vocês aos cuidados da irmã, mas não faz isso porque não quer. Tem que botar ela pra dormir.
— Mas tu já sabias disso.
— E isso nunca foi um problema pra mim — desdenhosa, complementou. — A gente nem estaria aqui se fosse.
— Não, não estaríamos.
— Agora eu é que vou dormir — disse ela levemente ofegante, pousando a mão no meu pau ainda duro depois de sair de cima (ou de baixo) de mim e fechando aqueles imensos olhos expressivos para cair no sono.
Então dormíamos de novo e só despertávamos quando, sem perceber, eu me via duro novamente e acordando dentro dela, que já estava desperta e rindo por eu ter recomeçado sem nem me dar conta. Fazíamos isso até o nascer do Sol. Acordávamos exaustos, tomávamos café da manhã e fodíamos de novo, às vezes na mesa da sala de jantar, às vezes no balcão da cozinha e só duas vezes sobre o tapete caro adquirido em Istambul durante a viagem que fizera quando o Brasil ainda não havia sido tragado novamente pela suposta ditadura comunista – que ela afirmava existir, mas nunca na minha frente, porque esses assuntos,
esses específicos assuntos,
eram proibidos por uma regra silenciosa.
Nossa regra silenciosa.
Os totens, Márcia os deixava para primo Benício: sussurrando influências em seus ouvidos, referências que ele sempre ignorou, mas às quais sempre esteve suscetível a perseguir, mesmo em cima do muro onde passou 45 anos da vida trepado. Para ele, ao ser balançado, era muito mais fácil e conveniente mergulhar para o lado direito da queda. Esses totens, erguidos sob uma falsa e deturpada identidade nacional, ficavam a cargo de Márcia com Benício. Por causa dela, ele conheceu podcasts e passou a frequentar os nove círculos infernais do Youtube. Por causa dela, Benício julgou compreender mais de política e passou a odiar as próprias origens. Acima de tudo, sob a fluvialidade de Márcia, Benício mergulhou cada vez mais fundo num senso efervescente de pertencimento e acolhimento patriótico.
Já os tabus, Márcia os compartilhava comigo. E deles fazíamos nossos próprios totens, num antropofagismo clássico e simbólico, tal qual ela um dia fez com minhas fabulações, desconfianças e desejos.
— Língua não tem osso – comentei novamente, agora em forte e em bom tom.
— O que tu estás falando?
— Ué, tu não estavas dormindo?
Ela sorriu. Coçou os olhos e guiou a mão de aperto firme até o meu pau. Em poucos segundos, ele endureceu. Pulsou como só ela o fazia pulsar.
— Então me mostra — ela exigiu. — Me mostra que língua não tem osso.
Acatei à ordem. Desci a boca pelo pescoço de Márcia. Deslizei os lábios e com chupões e lambidas peregrinei pelo marrom-claro dos mamilos e pelo sutil trincado da barriga, esfregando a cara nos pelos pubianos que cresciam lisos e regulares para finalmente parar no meio das pernas dela.
Ali encaixei meu rosto.
Márcia gemeu.
E pus o ditado à prova.



























