Fitou-me de cima a baixo e disse “você ainda vai se encontrar”. O homem que traiu sua mulher, abandonou os filhos e buscou reconhecimento através de dinheiro agora está me dando conselhos.
“Você tem que encontrar o que gosta” disse o senhor viciado em Whisky e bater na esposa para não ter que pensar na complexidade do próprio psiquismo. “Eu já fui igual a você!” exclamou com o riso frouxo de quem já deixou algumas famílias desamparadas.
Queria dizer que a estrada na qual ele se encontrou o meu pé nunca verá. Queria dizer que se fosse obrigado a passar pelo trajeto que ele fez cuspiria a cada metro percorrido ou deixaria pedaços de pão para pombos ou o lobo mal o encontrarem no conforto da sua realização pessoal. Queria bombardeá-lo com tudo que me faz relutar existir mas preferi ficar calado.
Sempre soube que o silêncio seria meu escudo nesses momentos já que disso ele pouco entende e como pode alguém, sem força e perdido como eu, querer lutar contra o onipresente?
Ele está em todos lugar: na TV, no jornal, na livraria, no mercado, no metrô e na sala de jantar dando conselhos enquanto passa o sal. Já eu, não sou capaz de me levantar da cama para brincar de vida.
Enquanto ele continua a opinar, retorno ao meu silêncio sabendo que o mundo onde ele se encontrou não me terá de pé.











