Domingo havia chegado pra felicidade da garota: acordar sem a preocupação de se arrumar às pressas. Se espreguiçou com toda a preguiça que os domingos lhe davam o luxo de sentir. O celular estava jogado pela cama, no silêncio, pois não queria ser incomodada.
Com uma blusa velha do Corinthians e uma calça de moletom surrada, levantou para fazer sua higiene matinal.
— Caramba, de parda tô ficando branca… — disse analisando o rosto no espelho enquanto escovava os dentes.
Foi pra sala e começou a arrumar o pequeno apartamento alugado. A playlist favorita tocava baixinho no fundo, misturando hits do momento com aquelas músicas antigas que ela nunca conseguia abandonar.
Em momentos assim, se sentia dona da própria vida. Lavou a louça do dia anterior e, assim que terminou, pegou um jarro com água e foi regar as plantinhas na varanda, que havia jurado que não daria conta, mas que, milagrosamente, ainda estavam vivas.
Pela varanda, conseguia ver os vizinhos caminhando: uns com cachorros, outros com seus companheiros, alguns voltando da padaria. Observava tudo com a tranquilidade de quem não tinha nada programado para aquele dia.
Quase meio-dia, resolveu se mimar pedindo comida japonesa. Não sabia como começou, mas era apaixonada por yakisoba. Assim que a comida chegou, sentou no tapete no chão da sala para comer enquanto assistia Bunny Girl Senpai.
Ser jovem aos 25 anos era exatamente isso: um equilíbrio frágil entre responsabilidades que às vezes pesavam demais e momentos simples assim que faziam tudo valer a pena. Um domingo de folga parecia luxo — quase um presente roubado do tempo.
Em um apartamento na cidade, Donghyuck se encontrava deitado de barriga para cima, coberto até o peito com o edredom, o rosto semi-escondido pelo travesseiro. O domingo tinha cheiro de preguiça, e ele só queria passar o dia dormindo, esquecendo por algumas horas os gritos da multidão, os flashes e o peso da fama.
— Levanta dessa cama, Donghyuck. O dia tá lindo lá fora — a voz de Karina se fez presente no quarto, abrindo as cortinas. — Você precisa de ar fresco. Uma fotossíntese também resolve, talvez…
Donghyuck riu, a voz rouca de sono:
— Karina, meu amor, sair no domingo? No momento, só quero passar o domingo todinho na cama.
A mulher de cabelos curtos revirou os olhos, já acostumada com as desculpas do cantor. Desde que tinham 5 anos, por mais que fosse a manager responsável por ele, era a única capaz de lidar com os caprichos de Donghyuck sem se cansar.
Ele abriu um olho, bocejou e riu.
— Você sabe que só de olhar pra mim já me dá vontade de voltar a dormir, né?
Karina se jogou na cama ao lado dele, arrancando uma reclamação:
— O seu namorado, cara de cavalo, vai me encher o saco se te ver aqui, sua doida.
Agora os dois olhando pro teto, Donghyuck desabafou:
— Sabe, Karina, às vezes eu sinto falta de ter alguém. Tipo, uma musa inspiradora.
Karina deu uma risadinha, cruzando os braços.
— Você tá precisando de uma namorada, Hyuck, isso sim.
E enquanto os dois discutiam, a porta se abriu novamente.
Jeno surgiu, guitarrista do grupo e namorado de Karina, e com aquele sorriso de quem estava prestes a causar confusão.
— E aí, Hyuck? Dormindo ou só fingindo de morto?
— Cachorrinho… — Donghyuck se sentou, tentando parecer ameaçador, mas a expressão de diversão denunciava tudo. — Sai daqui antes que eu…
Ele fez menção de levantar, mas Jeno apenas riu.
Jeno cruzou os braços, encostando-se na porta.
— O que é pior que domingo chuvoso? Você, sem roupa e deitado o dia todo.
— Oh, olha quem fala… — Donghyuck sentou-se parcialmente, revelando estar sem camisa, com um sorriso travesso surgindo. — Pelo menos eu não passo o dia tentando convencer a Karina a me dar atenção.
Jeno gargalhou, divertido, e Donghyuck revidou com a mesma energia, cada palavra carregada de provocação.
Mais uma segunda-feira nublada começou. Ainda morrendo de sono, ela se levantou, tomou banho, se arrumou às pressas e saiu de casa correndo. Conseguiu pegar o metrô cedo, mas ainda assim lotado, equilibrando-se entre a multidão sonolenta, com o fone de ouvido preenchendo o espaço do silêncio. Tocava uma das músicas dos Crzy, não porque fosse fã deslumbrada, mas porque realmente gostava do jeito como a melodia parecia traduzir sentimentos difíceis de explicar.
Ela já tinha se iludido com fanfics dos integrantes da banda. As suas preferidas eram com o vocalista. As dos outros também eram boas, mas conseguiam transformar um astro da música em uma pessoa normal, e para ela era engraçado pensar nisso.
Chegou na agência e cumprimentou as pessoas de outros setores antes de chegar na área de criação. A sala era aconchegante, com paredes de vidro e uma vista linda de São Paulo, diga-se de passagem… Na sua mesa já tinha vários post-its colados. Mais uma semana começando…
— Bom dia, princesa — gritou Jihyo, sua colega de equipe, erguendo um copo de café para ela.
— Bom dia… — respondeu com um sorriso cansado, largando a bolsa na cadeira e ligando o computador.
O dia estava passando lentamente. Sua tela piscava com e-mails não lidos, planilhas, artes inacabadas… mais uma segunda-feira típica.
Sentiu alguém se aproximar: era Jihyo.
— Tá com uma cara horrível, florzinha. Dormiu mal?
Soltou uma risada cansada.
— Durmo mal todo dia, né? A diferença é que hoje tem briefing.
A agência estava mais movimentada que o normal. A equipe de marketing corria de um canto pra outro. Ela só percebeu quando, ao levantar para pegar um café, viu alguns funcionários parados na recepção, cochichando e tentando espiar discretamente.
“Deve ser cliente importante”, pensou, voltando para sua mesa.
Mal sabia ela que o “cliente importante” não era apenas mais um executivo engravatado
Horas mais tarde, descobriu quem era o suposto cliente. O diretor estava fazendo um tour pela agência para ninguém mais, ninguém menos que Donghyuck.
Ele não estava vestido de forma deslumbrante como nos shows ou entrevistas. Estava como um cara normal: camiseta preta básica, jeans escuros, vans estilo skatista, cabelos avermelhados e óculos de grau que davam a ele uma aparência quase… comum.
Se não fosse pelo peso invisível da sua presença, os olhos castanhos inconfundíveis e a voz rouca, talvez nem tivesse percebido de primeira.
O que a impressionou foi o fato de que ele parecia ser um cara gente boa, um pouquinho tímido, já que as orelhas estavam bem vermelhas. Definitivamente ele era um rapaz impressionante.
As horas seguintes foram estranhas. Toda hora havia um burburinho sobre o cantor. Uns espertinhos tentavam ouvir a conversa, outros até espiavam pela fresta da sala de reuniões. Ela tentava focar no que estava fazendo, mas era impossível ignorar.
Toda vez que ele passava, ou quando escutava sua voz, era como se o ambiente mudasse e o coração dela fosse para as cucuias. Não por ser o artista favorito dela, mas por ser um cara simples com uma aura silenciosa, quase introspectiva.
Ela sempre riu das fanfics que lia entre os 16 e 18 anos, mas agora se via ali, vivendo uma espécie de versão maluca de uma delas. Só que com Donghyuck de verdade, a poucos metros de distância.
Tentava convencer o coração de que ele era só um cara normal, então não precisava desse alvoroço. Mas seu coração não parecia concordar com a razão.
Na hora do almoço, o destino resolveu brincar mais um pouco com ela: encontrou Karina, sua melhor amiga da faculdade.
— Amiga! — a morena de cabelos curtos a puxou para um abraço cheio de saudades. Ela a abraçou de volta. Fazia semanas que não via Karina para colocar o papo em dia. Mas por que o guitarrista da banda estava ali parado? E POR QUE ELE ESTAVA SEGURANDO A MÃO DA KARINA?!
— Nem te contei, né? — começou assim que desfez o abraço. — Meu amigo tava sem nenhum assessor e me chamou pra trabalhar com ele. E esse aqui é meu namorado.
Jeno a cumprimentou com um aperto de mão.
— Se seu cliente tá aqui, então quer dizer que…
— Sim, eu tô cuidando da imagem e da agenda do Donghyuck.
— Jesus, é muita coisa pra um dia só.
Karina segurou o braço dela, puxando-a um pouco para o canto.
— Fica tranquila, amiga. Eu sei o que você deve estar pensando, mas relaxa. O Hyuck é só um cara normal, acredita em mim. Conheço ele desde a creche. Ele pode ser um cantor incrível na TV e nos shows, mas gosta de coisas simples. Não é esse “ídolo inalcançável” que todo mundo pinta.
Era muita coincidência: sua melhor amiga foi pra creche com seu cantor preferido e ainda namorava o guitarrista do grupo.
— Karina, eu te invejo, garota, com toda minha sinceridade.
— Foi puro acaso, de verdade — respondeu Karina, com a maior naturalidade do mundo. — E escuta, talvez mais pra frente eu te apresente pro Hyuck, mas… sem câmera, ou flash na cara dele, beleza? Ele valoriza muito quando as pessoas tratam ele como alguém normal.
Ela assentiu devagar, tentando disfarçar a mistura de nervosismo e empolgação. Por dentro, estava surtando. A ideia de um dia ser apresentada ao Donghyuck não como fã, mas como amiga de Karina, parecia surreal demais para ser real.