â you donât even mean to torment me, do you? â (mary/michael)
Caso fosse questionada, nĂŁo saberia dizer como chegara a aquela situação, presa na sacristia com Michael Lenoir. Aquela deveria ser uma das suas tĂpicas noites, quando todos se recolhiam para seus respectivos lares e cabia a ela os serviços de limpeza e manutenção na igreja apĂłs a celebração, entretanto nĂŁo saberia recordar o instante entre estar sozinha, arrumando as vestes litĂșrgicas e separando as velas para o dia seguinte, e o instante em que a velha porta se fechou com o vento, nĂŁo mais sozinha. Quem sabe ele fosse realmente o demĂŽnio, e aquele seria o seu deserto, pois nenhum calor que jamais sentira se igualava ao que se espalhava por seu corpo. Suas mĂŁos, sem perceber, abriram alguns dos botĂ”es de seu vestido, libertando parte de seu pescoço, buscando ar. Seu olhar foi em direção a ele, o culpando pelo ocorrido como se ele de fato pudesse controlar os ventos, mas sua atenção corria, como sempre ocorria, quando Mary o olhava. Aqueles cabelos loiros que, se em outro rosto, seriam angĂ©licas, mas em Michael, com suas feiçÔes fortes, parecia mais um caĂdo do que um celestial. Fechou os olhos, tentando afastar os pensamentos, a mĂŁo indo para a nuca a fim de afastar o suor, indo ao pescoço agora exposto. Precisava pensar em alguma coisa antes do nascer do sol, quando o padre chegava para as primeiras preparaçÔes do dia, e teria feito isso, se as palavras dele nĂŁo tivessem tirado o seu foco. Abriu as Ăris castanhas novamente, encarando o Lenoir, que estava mais prĂłximo do que havia percebido, sendo aquele um espaço pequeno, de uma parĂłquia pequena. "Me? Do you have any- any idea what you do to me?" Suas palavras saĂram em indignação, quase um grito. Em outra situação jamais teria dito aquilo, jamais teria permitido que ele soubesse. "I can't hurt you as much as you hurt me." Se aproximava dele e, quando percebeu, estavam tĂŁo prĂłximos que podia sentir a respiração dele fazendo cĂłcegas em seu rosto. Como poderia explicar que o mero toque de sua mĂŁo causava arrepios em sua espinha, mĂŁo estĂĄ que ela desejava beijar com uma devoção que jamais demonstrara antes. Desde pequena ouvia sermĂ”es sobre o amor grandioso que ela deveria ter, deveria sentir, sobre o quĂŁo mais desse, mais receberia, mas Mary sentia apenas o silĂȘncio, o vazio. Mas nĂŁo com Michael. Cada palavra era retribuĂda, cada sorriso, cada acusação, cada raiva, cada riso. E nĂŁo deveria, nĂŁo poderia. "I try to wash my hands from the sin of you just to watch it becoming dirty again when you look at me." Se ele a tocasse, estaria perdida, condenada, mas o seu olhar marejado entregava a Ăąnsia pelo o que seria um pecado. Queria dizer que ele se afastasse, mas nĂŁo poderia proferir mentiras, quando na verdade desejava que ele fizesse alguma coisa, qualquer coisa, que a livrasse daquele tormento. Talvez, ao consumar o que ficava apenas em sua imaginação, tudo ficaria para trĂĄs, uma chama que se extinguirĂĄ e ela dedicaria a sua vida inteira para limpar as cinzas. Ou entĂŁo, quem sabe, seria consumida pelas chamas. "I swore to make my vows. For all that is in the world, the lust of the flesh, and the lust of the eyes, and the pride of lifeâŠ" Recitou os versos que ouvia desde que era criança, as vozes maternas, paternas e do padre se misturando em sua mente, porĂ©m eles estavam longe, e tudo o que podia sentir era o cheiro da pele de Michael, sua respiração em seu rosto, a proximidade inebriante. E ele sentia tambĂ©m, agora sabia que sim. Se era apenas para atormentĂĄ-la, tentĂĄ-la pelo simples prazer de fazĂȘ-lo, nĂŁo saberia dizer, e era apenas isso que a impedia de ir alĂ©m. "But the more i denied you, the more you became the center of my thoughts. So I can only ask you, beg you, for us to be free from this torment."



















