Mergulho sob o Cais Invertido
Ela lança o corpo para baixo como quem foge da gravidade,
com os pés apontados ao céu negro que o cais esconde.
O fato de banho negro cola-se-lhe à pele como uma segunda sombra,
enquanto a água escura abre a boca para a receber.
A madeira antiga range num silêncio cúmplice,
com pilares e cordas a observarem o salto sem interromper.
O reflexo treme e multiplica-a antes do impacto,
criando uma gémea invertida que já conhece o fundo de cor.
Ela atravessa a superfÃcie como quem atravessa um espelho partido,
com o cabelo preso a transformar-se numa âncora de luz.
O mundo de cima fica cada vez mais distante e ridÃculo,
e ela ri por dentro da seriedade do próprio mergulho.
A água engole-a devagar, tornando-a peixe de tinta viva,
até que o corpo e a noite se confundem num único abismo.
No fim, restará apenas o eco de um mergulho que ninguém ouviu,
e a certeza absoluta de que alguns saltos nunca chegam a tocar o fundo.










