há pessoas que chamamos
enquanto elas
chamam outros nomes.
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há pessoas que chamamos
enquanto elas
chamam outros nomes.

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Havia um lugar
que me recebia
antes do toque.
Agora entro
como quem erra o passo
num chão que mudou
sem aviso.
Algumas presenças
não desaparecem —
apenas deixam de aquecer.
Havia um lugar
onde eu pousava sem pedir licença.
Agora entro
como quem pisa em vidro
sem ver.
Algumas presenças
não vão embora —
apenas esfriam.
Se eu não me movo,
o mundo não se inclina.
Se eu recuo,
o chão aceita.
Meu nome ficou suspenso
em perguntas que não vieram.
O cuidado virou eco.
Houve sinais.
Eu os nomeei.
Mas eles voltaram
com outra roupa,
como se não me conhecessem.
Cansa ser margem.
Cansa ser aviso.
Hoje,
sou atravessada
como se não estivesse.
Talvez eu fosse gesto
enquanto servia à forma.
Talvez o vínculo
tenha durado
o tempo exato
da utilidade.
Quando não coube,
fui silêncio.
Sinto falta
de um riso
que sabia meu idioma.
Agora carrego
uma ausência habitada,
uma raiva muda,
um afeto que não encontrou saída.
Algumas perdas
não fazem barulho.
Elas só ficam.
Há um lugar dentro de mim onde teu nome ainda ecoa.
Um território feito de lembranças translúcidas, onde a ausência respira
como se fosse uma criatura viva.
Sinto falta — falta abissal, falta que dobra o tempo —
da amizade que fomos,
da alquimia rara que nos unia mesmo quando a geografia nos separava.
É estranho pensar que duas cidades inteiras nunca foram obstáculo,
enquanto duas vidas adultas se tornaram muralhas intransponíveis.
Havia dias em que uma simples mensagem iluminava o silêncio,
como se a tela do celular fosse um santuário
onde nossas confissões se encontravam sem esforço.
Ali, éramos próximas, éramos inteiras,
éramos um abrigo mútuo contra o vazio do mundo.
Mas alguma fenda — talvez invisível, talvez inevitável —
se abriu entre nós.
E a vida, com sua mecânica implacável,
foi nos levando para lugares onde a amizade se rarefaz,
onde o afeto evapora devagar,
onde o que era sólido vira miragem.
As mensagens começaram a murchar.
As tuas chegavam e eu já não sabia responder.
As minhas iam e não encontravam retorno.
Era como se estivéssemos nos apagando aos poucos,
duas constelações que se afastam até que a luz do outro
demora demais para alcançar.
E eu tentei.
Tentei ressuscitar o que fomos,
reavivar o fogo antigo,
invocar aquela versão de nós que existia antes do mundo pesar.
Mas o eco voltou vazio.
E no silêncio que ficou, percebi a ferida secreta
de perder uma amizade que parecia eterna.
Hoje, carrego essa dor clandestina,
uma dor que não grita, mas persiste,
como uma cicatriz que se recusa a fechar.
E ainda assim —
mesmo entre sombras, entre palavras não ditas e saudades herméticas —
eu guardo o que fomos.
Porque há vínculos que não morrem:
apenas adormecem em algum canto profundo
do que chamamos de coração.
Poesia — Aquilo que se perde no escuro
Há noites em que escuto passos antigos
percorrendo os corredores da memória.
São ecos teus — ou ecos nossos —
sussurrando um passado que ainda respira
nas frestas do que ficou calado.
Sinto falta de ti,
mas não de ti agora:
sinto falta da figura antiga
que caminhava ao meu lado
como se reconhecesse meu silêncio
antes mesmo que ele nascesse.
Nossa amizade surgiu como um aceno do destino,
um acaso que parecia mapa,
uma chama discreta que cresceu escondida
nos cantos da faculdade,
onde palavras viravam abrigo
e risos eram códigos que só nós sabíamos ler.
Mas algo se moveu —
um deslocamento secreto, subterrâneo,
um tremor discreto que só depois percebi.
Não sei onde começou a fenda,
nem que sombra atravessou teu peito
para levar embora aquela versão tua
que sabia me encontrar.
Eu parti, você ficou,
e de repente fui varrida do teu horizonte,
como quem arranca um nome do vento
para que ele nunca mais volte.
Fui apagada dos teus caminhos digitais,
silenciada sem sentença,
como se um enigma se fechasse
antes da última pista.
E mesmo assim, há saudade —
uma saudade que não se mostra inteira,
que vive enrolada em neblina,
que me toca e recua,
que aparece como um vulto
quando a madrugada desfaz as certezas.
Algumas amizades não morrem.
Evaporam.
Virando névoas que ninguém segura,
destinos que se desalinham sem explicação.
E eu sigo aqui, tentando decifrar
o enigma do que fomos,
o segredo do que deixamos de ser,
e o motivo oculto
que fez o teu caminho fechar-se ao meu.

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Algumas pessoas passam pela nossa vida como tempestades curtas:
não duram… mas deixam cheiro de terra molhada pra sempre.
Ela foi isso pra mim.
Um raio que caiu rápido demais,
iluminou tudo por um segundo,
e depois me deixou tateando no escuro.
Não era amor — era presságio.
Uma sensação estranha de que o destino estava dizendo algo,
mas a gente não soube escutar.
A gente existiu no tempo errado:
ela sempre atrasada,
eu sempre adiantada,
duas linhas que quase se encontraram
mas morreram no quase.
E mesmo assim, eu lembro.
Lembro do último abraço em frente à faculdade
como quem lembra da última brasa antes do fogo apagar.
Um abraço que queimou primeiro,
e só depois virou cinza.
Um ano depois, o universo nos devolveu uma à outra,
como se quisesse ver até onde a gente aguentava doer.
Eu deixei um bilhete com uma música,
achando que poesia podia segurar alguém
que já estava indo embora.
Mas a gente terminou do pior jeito:
com palavras afiadas,
culpas jogadas como pedra,
e a sensação de que eu era a bagunça
de um caos que também era dela.
Depois disso, ela me bloqueou,
me apagou,
me tirou de todas as janelas por onde eu poderia voltar.
E a gente virou silêncio —
um silêncio tão fundo
que parece um buraco dentro do peito.
Com o tempo, eu entendi:
há pessoas que são só feridas bonitas.
Não cicatrizam, não fecham,
mas a gente aprende a viver com a marca.
Porque tem encontros que não foram feitos pra durar —
foram feitos pra doer.
E no fim, tudo vira metáfora:
eu fui tempestade,
ela foi vento,
e nada do que a gente foi
conseguiu ficar.
A ansiedade frequentemente me projeta para além do tempo presente, conduzindo meus pensamentos a um futuro ainda incerto, enquanto o agora se dissolve de maneira quase imperceptível.
O futuro, com sua aparência sedutora, convoca-me insistentemente.
E eu, movida por um impulso quase ingênuo, cedo ao convite e avanço rumo ao desconhecido, acreditando que ali repousam respostas que ainda não possuo.
Entretanto, após esse percurso precipitado, compreendo o desgaste provocado:
percebo que investi energia em possibilidades que não me pertenciam e negligenciei o território concreto do instante presente.
Ao retornar, descubro que o presente, outrora acessível, transformou-se em passado — silencioso, irrevogável e distante.
Assim, constato que, ao tentar antecipar o que ainda não se formou, deixei escapar aquilo que já existia e merecia ser vivido.

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A exaustão emocional é bem pior do que o cansaço físico, porque dormir não adianta quando é a alma que está cansada.
Eu preciso ficar sozinho algum tempo e deixar que naturalmente tudo se tranquilize dentro de mim.
Caio Fernando Abreu.

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Tenho em mim medos e inseguranças, Guardo uma angústia de existir.
“Às vezes você quer muito uma coisa, mas não é pra ser. É preciso ter coragem para aceitar as coisas que não consegue mudar.”
— Apartment 23.