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Essa semana de maio
Me sinto menos adulterado no outono. Alguma coisa é certa entre mim e o mundo, especialmente em maio. Tenho alguma razão, sabe. Algum canal de comunicação está aberto e eu posso ler tudo, como se tudo-que-é estivesse escrito numa página amarelada e tudo-que não-é não importasse. E as lembranças estão todas vivas fora do passado, dançando em cÃrculos com o presente e metidas num telefone sem fio com o futuro. Sinto que eu poderia intervir, mas.
No outono passado o pássaro em piruetas na janela, nesse outono o pássaro esfacelado no chão. Cortei os cabelos e entendi o recado. E eu vi aquele velho-todo-bobo resgatando uma caixinha de música vermelha de uma caçamba de entulho. Esse ainda é mistério, assim como as espadas de São Jorge deixadas para mim na calçada. Tem também a árvore de urucum e o melão, que é uma promessa modesta, um presente singelo, um presságio feliz mas sem fogos de artifÃcio.
Escrevo cartas intermináveis com frases curtas, tomo chás de dois ou mais sabores, leio o que há para ler, ouço o que há para ouvir, vejo o que há para ver e há tempo para o que há de ser. Mastigo a saudade como um chiclete doce que às vezes causa dor de estômago. Gosto da luz, dos carros que passam, dos muros transbordando as flores do quintal, de ajudar os velhinhos com as compras e de contar moedas na frente da operadora de caixa no sacolão. Não vou querer sacola, que ironia. Gosto mais ainda de não sentir aquela cica de luxúria em absolutamente nada, nada parece obscenamente prazeroso. É um pedaço de pão. Nem ruim, nem bom. Pão absoluto. Pão justo para uma fome justa. O que há de floreios é pela minha conta, ou pelo bom humor de deus. Há certa medida e certo en-cai-xe para tudo. E entre essas medidas e esses encaixes eu posso flutuar sinuosamente, como as sombras projetadas nas paredes lá pelas quatro horas.
Cordão
Você cuspiu na taça. Sentada no chão, bem na minha frente. Não rejeitou, nem declinou, não devolveu nem desfez. Você cuspiu na taça. E ali um cordão se partiu, como se parte um apêndice. Tragicamente como se rompe um apêndice. Sentada no chão, bem na minha frente. As pérolas do cordão rolaram pelo tapete e pela primeira vez era do chão que vinha o trovão. Elas rolaram num espalhamento infeccioso, esferas de leite derramado, todo mundo sabe que não adianta fazer mais nada. Fizeram cócegas nos meus pés — cócegas como tortura — e depois rolaram pela sala, pelo hall, pelas escadas e andares, pela portaria e no sertão alguém avisou que a chuva viria. Nada mudou. Continuamos ali parcialmente revelados pela luz azul da televisão. Mas um cordão se partiu e eu vi.
Meus olhos tristes no meu rosto lunar. Minhas palavras esculpidas com seus prismas de sentido. Meus silêncios como ofertas de amor ao outro. Minhas minúcias efêmeras onde a minha vida celebra secreta. Meus tesouros no encontro, na saudade e na ausência. Meus escritos, meus garranchos, meus papiros e hieróglifos. Minhas camisas de botões e meus vidros espalhados. Minha contemplação solene da vida que é sagrada. Meu aniversário no jazz e minhas caladas caminhadas. Minhas piadas sozinhas estão vivendo sempre em seu melhor. Não há espaço para mais nada além do que é meu. Não há quem entre e eu não posso sair. Essa condição minha que não fui eu quem escolheu. Moro nos lugares onde só eu posso ir.
Eu diria numa carta que tudo anda pálido
Mas nada mais anda e a palidez parece ser anterior a qualquer delÃrio colorido

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10AM
@rickmiragem
Estiolamento
De todas as coisas, o encontro com o azul e a abstração do destamanho.
E novamente o céu que desde sempre falha em se repetir todos os dias, assim como falha em mudar através dos milênios.
E novamente eu, que olho pro céu como espelho, porta, oráculo, confidente, testemunha, inquisidor, fato e segredo.
E novamente o azul.

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O sertão do Rio
Desbotado, desnorteado e doce
Eu coloco meu pé entre o 1 e o 1,01 e ali eu fico por menos tempo do que o suficiente, mas o bastante pra justificar a minha existência. Gosto de guardar segredos e esconder tesouros. De todos os jardins, o meu.
A saudade pode ser hackeada em algum nÃvel
Enquanto as pessoas

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Autocrueldade
E se só por um momento eu abusasse da minha consciência, esticando um pouco o limite como a sombra se estica para a luz pela penumbra.
O segredo
É a cruel simplicidade que os olhos encontram nas colheres, cantos de parede, pás de ventiladores e braços de cadeira. Só nesse silêncio cruel compartilhado o segredo é sussurrado, em outra lÃngua, para os que se atrevem a testar a realidade com os próprios instrumentos. Enfiar o próprio dedo e não um palitinho. É a cruel e sóbria simplicidade cujos valores são obscenos de tão isentos, nulos e neutros. Não há beleza, magia, ética, grau ou glória. Nada é dourado como você gostaria que fosse. É tão especial quanto merda de cachorro. Por favor, não tente. A sua performance aqui não funciona e seu rosto — que de tão polido perdeu os relevos — não tem cor alguma. Não há um ponto de referência ou um jeito certo belo moral dessa vez. Eu quero te colocar nessa sala cheia de coisa nenhuma e olhar você se debater na sua própria retórica trapaceira, até que se reconheça o macaco de traje espacial que você é. Até que se perceba que depois de todas as suas palavras, você é primitivo e tem os olhos separados como um burro. E talvez a esse burro macaco espacial o segredo se revele como uma prostituta abre as pernas. A desonra, sujeira e a compostura necessárias para encarar o vazio coabitado entre um braço de cadeira e o próprio umbigo são faces de uma moeda que não vale nada para o seu mundo de isopor e complacência. Você nunca vai poder contar esse segredo, e saber dele não fará de você minimante melhor que ninguém. Talvez só por isso você nem queira mais saber. Ele escancara esse seu vazio preenchido de enchimento de pelúcia. Seu vazio não faz mais eco e isso é a morte mais patética que se pode dar a uma alma. Descanse em paz, você, que na ânsia de querer ser alguma coisa outra nunca conseguiu ver o que é e o que poderia ter sido de verdade. Os projetos de mentira também saem do papel. Tentar, aqui, não te redime. Você nunca vai saber o segredo enquanto usar seu traje espacial e rir dos macacos que andam pelados.