Demorou mais do que o necessário diante da porta. O recado dobrado estava entre seus dedos como se pesasse demais para algo tão pequeno. Ele bateu duas vezes na porta, ainda que também fosse um morador, temporário, daquele quarto. Os toques foram curtos, e eles esperou uma resposta dela antes de entrar. Não sorriu. Ela sempre sabia quando algo estava errado; era irritante como conhecia o ritmo dele melhor do que ele próprio, por isso respirou profundamente, como se pudesse se reestabelecer, antes de entrar. A filha estava dormindo no canto, encolhida entre cobertas que Kerem ajeitara mais cedo, como fazia todas as noites. Deu um pequeno sorriso antes de voltar-se para a mais velha. ❛ O nosso futuro rei pediu para te entregar. ❜ Disse, estendendo o papel. Seco, e tão logo aquilo fora removido de suas mãos, ele as colocou no bolso. A ponta de seus dedos formigava, como se o papel houvesse queimado a pele. Para lhe dar privacidade, ele desviou o olhar primeiro, sentando-se na beirada da cama onde Cemre dormia. O maxilar estava tenso, os ombros rígidos demais. Raiva — ele reconhecia raiva. Ciúme, talvez. Medo… não. Medo era palavra fraca. O que ele sentia era outra coisa. Algo que não tinha nome, então ele empurrou para a gaveta conhecida. É a missão, disse a si mesmo. Só isso. Passou os dedos pelos finos cabelo da garotinha adormecida, depois depositou um beijo em sua bochecha e se levantou, ajustando o traje militar em seguida. Estava de guarda naquela noite, e apenas por isso o pedido havia sido feito para si, de entregar um recado para ela. ❛ Eu tenho que voltar. ❜ Murmurou, já se virando. O corpo obedecendo antes da mente, como sempre. A fuga disfarçada de dever. A mão já estava na maçaneta quando a voz dela veio, e ele parou. Não se virou de imediato. Porque, se se virasse, perderia o pouco controle que ainda fingia ter. Porque aquela frase não era um pedido simples para ele. Kerem fechou os olhos por um segundo. Um único segundo em que não era soldado, nem aliado, nem o homem que fingia ser marido por conveniência. ❛ Beren… ❜ Começou, e a própria voz o traiu, saindo baixa demais. Mas não abriu a porta, e nem se virou para ela.