Sobre Saltos
Registro sobre a experiência na oficina de Kinomichi (Rampa, lugar de criação – 26,27,28 de fevereiro de 2016
Fui a ganhadora do sorteio que escolheria um bolsista integral para participar da oficina na semana em que inicei os tramites para ser colaboradora e estudante do espaço no esquema de permuta.
Me aproximei da Rampa num momento muito específico de auto descoberta. Em minha vocação para artes cênicas enxergo três vertentes: o texto, a voz e o corpo. Até pouco tempo eu me sentia sempre dividida entre estas áreas, ouvindo que nunca serei suficientemente boa em nada se não optar por uma destas vertentes e investir somente nela minha energia vital. Mas a chama por esta investigação conjunta persiste e decidi mudar um pouco a perspectiva disso para ao invés de me ver sempre bifurcada e me sentir frustrada, investir em experimentar com tudo cada uma delas para ver se neste caldo elas ficam homogêneas ou se separam de vez; se se faz necessária de fato esta separação ou se minha prática e pesquisa de vida não está em justamente trabalhar nesta integração.
A vertente dramartúrgica e poética foi a mais desenvolvida ao longo da vida através da leitura e da produção de textos incessantes e este ano, trabalho na arquitetura e publicação do meu primeiro livro. A vertente musical foi trabalhada intensamente durante minha participação durante 2 anos e meio no Coro Luther King em São Paulo e busco agora minha pesquisa e estudo autônomos, introduzindo instrumentos aliados ao canto e aprofundando sua ligação com a espiritualidade. A vertente corpo ficou abandonada até meus 21 anos quando encontrei no pole art fitness o esporte dança que me faria me comprometer semalmente propondo pela primeira vez um trabalho contínuo. Após três anos de prática interrompida muitas vezes, de aprendizado difícil e lento, me dei conta de que faltava respiro. Infelizmente meus treinos, apesar de me fazerem feliz e de terem me alçado para experimentar posições em que nunca imaginei que pudesse chegar usando o peso do meu próprio corpo, ficam na repetição e na forma, mais como ginástica. Faltava consciência e sensibilização para de fato ocupar o corpo onde moro e poder me expressar com ele não só artísticamente com acrobacias na barra vertical de aço ou para que apareça expandido quando estou em cena em uma peça por exemplo, mas para me relacionar de maneira mais verdadeira com as pessoas e objetos ou quaisquer coisas que eu entre em contato; para explorar a infinita gama de reações possíveis a partir de um toque ou de um mover simples de mão. Para além disso, faltava um respiro para dentro, a presença encarnada que reage aos próprios movimentos orgânicos. Inteligência sensorial, acho que é assim que quero chamar. Pois frequentemente a mente se coloca como carro chefe e nesta descoberta estou mais tendendo a acreditar que num corpo existem não um, mais vários caciques que atuam como mestres lado a lado, não uns sobre os outros. E se eu não “mandar” que meu braço faça isto ou aquilo e simplesmente abrir a escuta para o que ele naturalmente faria seguindo a energia que flui atráves dele?
Aí eu vou precisar treinar. Da mesma maneira que eu escrevo um livro hoje porque dei leituras e exercício durante anos ao meu cérebro para que criasse repertório com o qual criar, se canto com segurança hoje porque passei anos dando repertório aos meus ouvidos para que minha voz pudesse ter referência para se manifestar e mais de 30 meses praticando quase que diariamente com mestres que dominavam o instrumento ao meu lado. Meu corpo, coitado, se encontra em enorme desvantagem. Uma infância encolhida e uma adolescência tímida culminaram numa adulta intelectual que tem condições para se comunicar por esta via ou pela voz, mas que é incapaz de responder honestamente a um aperto de mão. Que se machuca em movimentos simples, porque a mente trava o corpo com medo, claro, ninguém falou para ela que eu não vou morrer se fizer uma cambalhota para trás. Eu não ensinei ao meu corpo que ele tem 80.160 alfabetos disponíveis. Não ensinei que assim como existem infinitas combinações de palavras num texto, assim como existem inúmeras composições de notas a serem criadas, existem milhões de movimentos dormindo nas minha células, esperando para serem usados.
Aí entra o Kinomichi, que eu nunca tinha ouvido falar, eu achava que yoga e a dança contemporânea ia tratar do que eu precisava, mas já que eu tinha ganhado o sorteio, vamos lá. Deve significar alguma coisa eu ter acabado de chegar neste lugar e já ganhar uma oportunidade de imersão.
Vamos lá.
E vamos lá de novo.
Suave, inofensivo este Kinomichi não?
Claro. Claro que não.
Foram saltos de compreensão corporal.
Três dias de descobertas e 15 insigths por minuto.
No primeiro dia só eu compareci e fui apresentada à Chistiana e a Vitor que me deram um panorama geral e depois fui apresentada, durante uma hora, ao chão.
Morar num corpo com pouca escutada trabalhada e inflexível pode ser ruim, ou pode ser só um ponto de partida. Uma das coisas da prática do Kinomichi que me ganhou de pronto foi a aceitação do seu estado naquela hora pois não existe forma a ser alcançada mas existe a presença inteira em cada parte do caminho e isto pode ser feito com leveza, para que força? Pode ser feito com sorriso, para que cerrar os dentes? Não só pode ser feito, como deve ser feito, pois sorrir mexe músculos suficientes para fazer os pés lá na outra extremidade vibrarem diferente. Isto foi outra descoberta mágica: se eu puxo meu cotovelo sinto lá na costela a pele esticar? Sim, porque movo cada parte tão somente para sentir a integração do todo e poder brincar com isso. Isto é muito importante, brincar. Constantemente quem mora num corpo mais fechado vê tudo fora como uma ameaça e fica sisudo e cheio de defesas, fácil, fácil, crente que tudo que não é ele mesmo ou vai machucar ou vai julgar. Esta experiência me ajudou a tentar. Só isso. Ver, fazer e sentir como é. Se errou, ótimo, vamos observar e fazer de novo, não tem pressa pra nada nem obrigação de nada, não tem carrasco com chicote além daquele que mora na minha cabeça, mas eu dei um chá de camomila e mandei ele dormir e bocejei a vontade. Bocejar por sinal, como conversamos eu e Chris, pode não ser um sinal de desinteresse mas sim um sinal de que algo dorme pra outra coisa poder despertar (uma sensação comum nas experiências de transe ou incorporação). Mais uma descoberta mágica: aceitar e acolher as imperfeições e limitações. Ao invés de persistir querendo exorcizar o que sob o meu julgamento não vai bem (uma dor, uma encurtamento, uma energia que falta) como faço para driblar isso ou para brincar, apesar disso? Quem sabe as coisas que incomodam não se cansam se eu mostrar a elas que está muito gostoso. Elas ficam sem escolha se eu me envolver com tudo, tem que brincar também. Ou ao menos me dão uma pausa preu poder tentar. A abordagem da oficina com relação ao exercícios foi maravilhosa para mim neste sentido, porque sair da lógica de que algo tem que ser feito para a de que algo pode ser feito, causou um bom efeito. Existem milhões de maneiras de fazer isso e tem essa aqui, veja, vamos tentar? Mais leve assim. Menos cobrança. Mais diversão.
Investigar a si próprio no lugar que é difícil pode ser uma tarefa árdua e chata a ser cumprida ou não.
Durante o segundo dia de aula, tive um insigth maravilhoso que se mostrou com muita clareza na
minha mente por uma via que me é muito familiar: os arcanos menores do tarô tradicional ocidental.
O naipe de Espadas está ligado ao elemento AR que se relaciona ao intelecto, à lógica, à comunicação mental em geral. Na minha trajetória, este naipe é o mais desenvolvido, através da escrita, da leitura e da comunicação oral. Meu tipo ayurvédico predominante entre os arquétipos físicos descritos por esta medicina (doshas) é vata, ligado diretamente a este elemento. Falando muito breve e superficialmente, ao mesmo tempo que são pessoas enérgicas e inteligentes, penam pela inconstância e pela dificuldade de começar, desenvolver e concluir algo, tendo ótimos impulsos iniciais mas pouco enraizamento e portanto pouca força de realização na matéria, pois frequentemente a mente é mais rápida que o resto, pulando de uma coisa a outra sem o tempo de maturação terreno.
O naipe de Copas está ligado ao elemento água, relacionado ao reino das emoções e do inconsciente. Minha relação com a música está intrinsicamente ligada a este naipe, configura-se como a expressão que liga o inconsciente e os sentimentos mais profundos com fluidez , falando aos outros pelo coração. O lado profundo pode permanecer para sempre oculto embora fluído, necessitando de deságue, fluidez externa, dar vazão a voz.
O naipe de Ouros está ligado ao elemento terra, relacionado à materia: a própria terra debaixo dos pés, o dinheiro, o corpo, e tudo que traga em si o que é concreto. Para mim o Kinomichi apareceu neste momento como a prática perfeita de ouros. Traz a relação imporante com o chão, com os pesos: para poder sublimá-los é necesário de fato sentí-los, interna e externamente, porque existe o chão que pisamos e o assoalho pélvico por exemplo, apoios basilares. Durante os exercícios senti alhumas vezes tatear a energia que corria em mim e nos parceiros de prática, tatear mesmo, como tocar as mãos ou outra parte do corpo. Habitar com verdade o corpo é a expressão clara de ouros. Alimentá-lo de comida, sensações e alimentos, dar a ele atenção e intenção, sem muletas verbais. Uma das minhas imagens preferidas da oficina foi a de chamar ou repelir alguém pelo movimento, sem nenhuma outra forma de comunicação, porque o movimento basta e inclusive é o mais forte meio. Ora, se eu digo que amo alguém enquanto dou-lhe um soco, de fato a dor tátil que causo em seu rosto é mais eficaz em sua comunicação, enquanto as palavras ficam vazias, sem significado.
Durante boa parte da vida me esforcei para não ser percebida no espaço e muitas vezes consigo isso, a custo de diminuir também meu espaço interno. Em algumas poucas práticas de yoga experimentei o movimento aliado a respiração que concentradamente abre estes lugares apertados e nesta experiência com o Kinomichi sem dúvida, com o adendo de que além de ganhar meu espaço interno sou convidada a ganhar o externo em relação com os demais presentes.
Abrir escuta em relação é minha maior dificuldade. Abrir fenda na minha couraça para alguém. Na experiência coral entramos em conexão pela voz, nos afinamos num só timbre pela escuta.
Conseguirei eu afinar meu corpo a outro a despeito do costume ensimesmado e da pouca abertura?
Não sei. Tentei. Acho que consegui algumas vezes, por breves minutos. Por muitas vezes não. Está bem para um corpo semi-analfabeto em flexibilidade. Este mergulho de final de semana me mostrou que aos poucos eu posso. Porque foi maravilhoso o mergulho que eu dei no mar depois da aula, dançando com àgua salgada sendo onda com a onda. É maravilhoso sentir o suor escorrer por que brincou, porque correu, sentir as engrenagens do cérebro descobrirem outras formas de girar porque faço cócegas nelas enquanto aprendo algo novo, que nem aprender a falar outro idioma.
O povo todo achando que o pole dance, por sua herança em night clubs é uma dança sensual a priori. O pole até pode ser como pode não ser. Sensual mesmo é o Kinomichi. Estar encarnado sabendo articular seu próprio corpo em relação ao outro, aí mora a sensualidade. No sorriso que ri por que não é nada além de um sorriso mesmo, um estar ali presente sem se preocupar em ser nada mais, isto é ser sensual. Sentir, suave, interagir e fluir. Ser cru e honesto com o que se é incluindo os defeitos é sexy, o sexy não está nas poses.
Não esqueci do naipe de Paus não. É que ele é a conclusão. O naipe de Paus está ligado ao elemento fogo, relacionado à vontade, o desejo, à força de realização. Este é o desafio, manter a chama acesa qual seja a enrascada, por mais cascuda que seja a empreitada. Apesar do cansaço, do sair desconfortável dos lugares seguros, de ficar carrancuda e as vezes travar e machucar, apesar ser pesar na força e de ser dura, me propor flutuar. Meu projeto é ser menina voável. Quem diria o quanto eu iria aprender sobre vôo aprendendo a me entregar para o chão. Quem diria que eu ia achar uma porção de coisa legal na atividade que nem tinha pensado em procurar. Quem diria que ia me amarrar numa prática que veio de uma arte marcial do Japão. Quem diz o caminho que eu devo tomar, se não for eu mesma, ao não parar de caminhar? Se o caminho é mais legal sendo caminho – sem pressa de chegar a nenhum lugar.
Agradeço ao Rampa pela bolsa, a chance do contato com esta arte, e pela companhia para jogar: aos mestres Chris e Vitor pela realização vibrante e atenciosa, pelos sorrisos, paciência e pelo cuzcuz. Vê-los brincar faz querer brincar também. Agradeço a Gisele, Bel, Luisa e Vinícius também navegantes generosos. Arte e gente ajuda a gente desconfiada a superar os escudos, a quebrar os muros de vez em quando e ver mais longe.
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Eo grilo lá no início? O grilo é meu desejo de ser, já sendo. Bicho do mato, canta o tempo todo, é esperto e alegre, tem jeitinho de extraterreste, tem atentas antenas/sensores, é pequeno e se faz invisível, mas quando precisa toma impulso e ultrapassa várias vezes o seu próprio tamanho, num salto.











