Coração me vê chegando antes mesmo que me anunciem, não é sua primeira vez.
Sai correndo e se esconde sem que ninguém a chame.
É pior que a pior criança.
A mais mal criada habitante da mais selvagem sala.
Tenho q tirá-la puxando pelo braço, violência física, já que nas palavras ela vence.
"Você prometeu!"
Ela grita esperneando, ralando as canelas cruas no asfalto afiado mal feito. Me faz arrasta-la. Não me da o luxo de ser pacífica.
"Prometeu!"
Grita de novo e de novo, esqueceu todas as outras palavras que existem.
Se torna muito pesada. Não consigo mais puxa-la.
Sento no chão.
Tento, então, argumentar.
"Você viu que eu tentei..."
Grande e conhecido erro.
Ela imediatamente sai correndo.
Não vai longe.
Não tem pra onde ir.
No fim de todos os caminhos, eu estou lá, sentada, esperando por ela.
"Mas você PROMETEU!"
Ela grita sem se aproximar.
"Pare com isso! Já está toda machucada!"
Retruco começando a me irritar também.
"Isso?" Ela olha pra si mesma, suja, roxa, cortada e com alguns dentes faltando. "Isso não é nada!"
Para me provar, Coração corre e saltita cantando em volta de mim. Da piruetas e soa canções bonitas que eu já não sou mais capaz de ouvir.
"Isso não é mais o suficiente." Respondo
Coração, pela primeira vez em anos, para.
"O que?" Ela pergunta, ainda sorrindo, mas confusa.
Eu repito.
Ela senta do meu lado, começa a roer as unhas sujas das mãos calejadas.
"Eu... eu sei que não tenho a memória muito boa, mas eu acho que lembro... Lembro que eles prometeram... prometeram, né?"
Então, ela me aponta um dedo acusatório certeiro. "Você prometeu! Você eu lembro!"
Eu suspiro e respondo a verdade.
"Eles também tentaram..."
De repente, ela se levanta furiosa.
"Eu não tentei, eu consegui!" Aponta pros seus próprios machucados "Eu fiz!"
Coração se prepara pra fugir novamente.
Então, igualmente brava, finalmente, confesso pra mim e pra ela:
"Não há mais ninguém aqui, merda!"
Coração congela.
Olha em volta, como se percebesse a realidade pela primeira vez.
Força a vista míope sem os óculos que nunca sei onde estão.
Enquanto se da conta de que esta sozinha, vai apequenando, fica com medo.
Começa a se aproximar.
A cada passo que da, encolhe um pouco mais.
Quando chega em minhas mãos, finalmente rendida, é apenas um pequeno botão de rosa branca.
Eu a pego irritada.
Tudo teria sido mais fácil se ela tivesse me ouvido meses atrás.
Vazia, nos levo até a beira do mar.
A bezunto numa bacia de dendê.
Jogo ela de forma agressiva nas ondas.
Ela nunca caiu de tão alto antes, mas o dendê impede que se desfaça.
Limpo meus pés, calço os sapatos.
Vou trabalhar.
_M



















