Depois de seis anos trabalhando afinco, finalmente chegou o dia mais esperado de sua vida: a grande promoção para um dos mais altos cargos daquela mega empresa. Sua alegria atingiu o pico ainda tão jovem. Depois de receber os comprimentos de grande parte do quadro de funcionários, ele parte para casa, em um dos seus últimos dias como "Um simples funcionário daquela empresa" isso, nas palavras que ele vem repetindo desde seu primeiro dia naquele ofÃcio.
Em frente a porta de seu apartamento, com a chave já na fechadura, ele pensa em todo seu processo até alÃ. Foi muito sacrifÃcio para atingir aquela posição de grande prestÃgio. Muitos romances que ele deixou de ter, pois, para ele, aquilo era perdas de tempo desnecessárias. Ele não tinha tempo para aquele recreio. Férias? Nem pensar "Quem quer vencer na vida não pode ter distrações" mas agora tudo fazia sentindo em sua vida.
Antes de fazer os afazeres de sua vida de solteiro, primeiro ele precisa passar no banheiro para riscar mais uma tarefa de sua lista de "Objetivos que devem serem feitos" ele caminha já com o lápis de olho em riste e a emoção aflorando de seu peito. É só riscar a frase "Chegar ao mais alto cargo da empresa" mas antes de fazer isso, seu reflexo chama atenção...
Ao olhar no espelho, seu reflexo te olha de volta com muito desdém. Lágrimas escorrem do rosto daquela imagem; decepcionado pelo que ele se tornou. Não está como ontem, naquele mesmo horário, com aquele mesmo olhar, com aquele mesmo velho e embaçado espelho. Tudo vai corroendo aos poucos.
Antes de deitar para dormir, lava o rosto na água fria da torneira. Dessa forma, as lágrimas de mais cedo se misturam com a água jogada no rosto. Antes de apagar a luz do banheiro é como se a imagem pedisse para que ele não parta.
Na manhã seguinte o despertador toca pontual como sempre. É hora de ir trabalhar! A cafeteira é ligada para agilizar o processo, uma chuvarada rápida para curar a letargia e antes de deixar o banheiro, um último olhar naquele espelho que acompanha ele a vida toda. Um sorriso em seu rosto confunde com a expressão melancólica no reflexo. "Mas porquê?" Questiona ele, antes de sair do banheiro rumo ao cheiro de café na cozinha. Ele vai para sua labuta.
No escritório, enquanto olha para a tela do computador recheada de informações, ele divaga sobre o que vem acontecendo recentemente com seu espelho. Cogita a possibilidade de ser um espelho assombrado, mas sua incredulidade logo salta à frente de sua hipótese. Busca em sua memória de infância e lembra como sempre via um sorriso genuÃno e alegre naquele espelho, motivação essa que fez ele levar aquele objeto ao deixar a casa de seus pais, ele adorava aquilo como parte de seu ser! Mas agora, tudo parecia diferente.
Às 7:56 chegava em casa como sempre. Sua rotina impecável vinha se repetindo a seis anos, sem pausa nem férias. Passou rápido pela sala e subiu a escada com doze degraus que levava ao seu quarto. Chegando lá, a porta estava aberta e a luz estava ligada. Lembrou, que sempre ao sair, desligava a luz e fechava a porta. Novamente a hipótese de algo sobrenatural passou pela sua cabeça.
Titubeante, entrou dentro do banheiro. Um forte receio bateu nele. Tinha medo de olhar no espelho. Não sabia o que o esperava naquele vidro refletor, mas aquilo tinha que ser feito, não poderia mais ser adiado. Respirou fundo e foi até o objetivo.
Antes mesmo dele encarar o vidro, sua imagem já se projetava à sua frente. Triste como vinha acontecendo. Sentiu uma mixórdia de sentimentos tomar conta de todo seu ser, "Porque está fazendo isso comigo?" Questionou o inquestionável. O reflexo nada fez, permaneceu intacto como sempre.
Apoiou as mãos na pia e aproximou lentamente seu rosto com o do seu reflexo, se assustou ao sentir a respiração vinda daquela imagem inanimada. "Para de me fazer de idiota, responda o que você quer!?" Gritou. O silêncio era imenso dentro daquela casa vazia, apenas sua voz conversando com um espelho fazia o som interno daquela residência solitária.
Passava meia hora desde que ele se prontificou ali para esclarecer esses eventos extraordinários que vinham acontecendo em sua vida. Aquilo, para uma pessoa metódica, era uma loucura sem limites. Sua vida era uma linha como ele mesmo definiu. Aos 15 anos, fez uma lista do que e quando fazer, e desde então vem seguindo isso a risca, sem desvio algum, exatamente como uma linha perfeita. A lista foi escrita com um lápis de olho ao lado do vidro do espelho, aquele mesmo espelho que acompanhou toda sua vida.
Olhou para aquelas palavras escritas a 13 anos e percebeu o que estava acontecendo, do que estava sendo alertado naquele momento. O porquê seu reflexo refletia decepção e tristeza, e ele, um ser realizado financeiramente e que havia abdicado dos contatos humanos, era tão feliz.
Aquele material formado por madeira e vidro acompanhou toda a vida daquele ser humano, escutou as palavras em sua boca se formando aos poucos e quando atingiu 1,45 de altura pode pela primeira vez ver o rosto de seu mais novo companheiro. Presenciou a puberdade tomando conta de um jovem rapaz que estava se descobrindo e com a imaginação — não somente para excitação — planejava um mundo belo para seu trajeto naquela curta vida. Viu seu sonho de ser atleta nascendo e, aos poucos, a cada treino, viu o suor escorrendo de sua face querendo ser grande. Querendo ser o melhor! Viu um garoto chorando em frente ao espelho por ter tomado um fora de uma coleguinha da escola. E as brigas com os Pais... E como brigavam... como é belo viver!
Mas aquela beleza foi ocultada pela frieza daquela metrópole. Sonhos foram sendo empacotados e ganhando etiquetas. Desejos foram convertidas em cores dispostas em telas e papéis em formas de curvas sensuais que nada mais era do que ilusório. Relações foram sendo apenas conservadas para um fim que era conseguir dar mais um passo em seus objetivos. Tudo isso foi se transformando em nada. Uma alegria efêmera. Nada mais que isso. E, aos 15 anos, aquele jovem sonhador foi vencido pela sociedade. Como culpá-lo? Aquela lista com datas do quando, como e o que atingir, poderia ser resumida em uma frase e a ausência de uma outra. A sociedade substituiu a frase ser feliz por vencer na vida.















