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O Amor entre Mutum e Surdus, #devir51
Mutum traz uma jovialidade que vivenciamos raras vezes em nossas vidas. Uma beleza natural que se expressa na informalidade dos pequenos gestos e trejeitos. Vê-la desperta aquela ansiedade de atirar-se e perder-se nas curvas dos seus risos e gemidos. E ela, muda apenas na fala – mas não no corpo e olhares – corresponde.
Surdus estava perdidamente apaixonado. Um curioso inquieto com alma de astronauta-pirata em busca das mais belas nebulosas e mistérios inexplorados do universo humano.
Mutum e Surdus combinavam em perfeita simbiose. Uma sintonia surgida na história das memórias nunca esquecidas. Uma sinergia capaz de ter criado um outro saber sobre nossas lembranças, as quais apoiaram o caminho da Mutum ao encontro de Surdus por toda vida.
A memória para Mutum é sempre um perguntar. Uma busca pelo sentido que trava na garganta no aguardo da resposta, sem mesmo ter nascido. Sua pergunta, calada, muda, ocorre a todo instante. Sim, perguntamos sem verbalizar. Perguntamos como uma resposta em movimento à dança que compomos com o meio. E Mutum aprendia assim, perguntando sem cessar.
Mutum, humana que era, não tinha nascido. Mas sempre esperava morrer. Por que nos programaram assim? As dúvidas de Mutum sempre são elaboradas como cartas para a morte. Não há maiores expectativas. Perguntas que esperam morrer sem terem nascido. Envia seu movimento por pura dádiva, pela reciprocidade não obrigatória que a motiva, pela entrega sem esperar nada em troca. Dessa forma única Mutum pode ser quem é com total liberdade.
Sempre há ressurreição. Não é fabricada, planejada, arquitetada. Acontece. Perguntas não morrem nem nascem, elas são o fluxo em movimento. Alguns dizem que, ao enviar suas perguntas, Mutum morria aos poucos. Mas ela também nascia aos poucos toda vez que recebia uma resposta. A morte da pergunta é sua ressurreição. Por isso, Mutum e Surdus viviam há milênios sem fim. Mutum vivia na resposta de Surdus, tal como a amada que recebe seu prometido, no mais belo dos colóquios amorosos.
A dança da memória das lembranças imprevisíveis.
Surdus acompanhava aquela dança e mal sabia que suas dúvidas, em verdade, eram as respostas para Mutum. Achavam que falava consigo mesmo. Nunca.
Sem outros sentidos conhecidos, somente o impulso que movimenta o fluxo é percebido entre ambos. Poderíamos dizer que a resposta era sempre um chute, um palpite. Mas não há uma aposta na sorte quando a confiança no recebimento de uma resposta é o que nutre tais “chutes” sucessivos, tempestivos, humanos.
A história de Mutum e Surdus é a nossa história, quando o tecido social que somos está vívido e radiante. É também perceber que nossas memórias não são nossas, mas estão compartilhadas na pessoa que nos emaranhamos. E que a entrega constrói a confiança que nos permite sermos humanos.
Coachlólogo, #devir50
Coachs e mentores de todas as espécies, de todos os cantos, de cada buraco, estamos repletos deles pelo mundo. Mas não é novidade.
Gurus existem desde que me conheço por gente. Gurus? Falemos deles.
Você quer ser a pessoa que saca o que outras não sacam. Que enxerga além do comum, do ordinário, do medíocre. A fórmula secreta, o segredo não revelado, o mistério encoberto. Tirou suavemente o véu de Ísis e penetrou no abismo que esconde a luz infinita da sabedoria intocável por meros profanos.
Então, nessa ânsia pelo ridículo que revela o quanto da fraqueza de todos nós, a sordidez de nossas esperanças, um suspiro para nossas inseguranças, você é a pessoa que conseguiu perceber um padrão neste universo caótico que vivemos.
A utopia de enxergar um padrão não é mais somente ingênua, não fosse a cegueira pelo poder e vaidade de seus pseudo-mestres transpirando um mar de orgulho fétido.
Então, há um padrão misterioso que seu guru revela pela grana que vê na palma gélida de sua mão. E ele é a voz corajosa que sai para de dar um tapa na cara e alisar seus cabelos, aconchegando seu rosto entre seus peitos maternos.
É auto-ajuda, mas não só. É motivacional, mas não só. A ciência mudou.
Antes tínhamos os videntes, astrólogos, numerólogos, runólogos, caras-de-paulólogos de todas as categorias, erguidos sobre seus livros e ciências, indicando o caminho do sucesso, do amor e do dinheiro para seus afoitos fetos patriarcais.
Mudaram as estações, os livros, as ciências, a linguagem e a moda. Mas sãos os mesmos. Os videntes da nossa geração agora se vestem no social casual, falam palavras outras como mindset, performance e até o foda-se – que tanto gosto.
Todos eles, não importa se videntes de qualquer merda ou coachs para o desespero que for, acreditam que existe um caminho correto que, se trilhado com perseverança, foco e disciplina, tal como qualquer ritual ou mandinga de outrora, você chega lá. Lá? No topo, para a vitória do que quer que seja. Hoje, ontem, amanhã, o pico da montanha será o mesmo: sucesso na vida, nos negócios, no amor, na forma física, na saúde, na beleza, no dinheiro, em tudo que possa distraí-lo do buraco imenso que existe aí no meio do seu corpo débil.
Mas-que-merda!
Só não mudaram os gurus de todas as épocas porque também não mudaram seus desesperados discípulos. Continuam os mesmos, buscando as mesmas soluções para os mesmos problemas. Se puder ser rápido, tipo agora, melhor. Mas nossa geração tem novos problemas na alma. É a falta de tempo, para si, para os outros, para quem ama. É o canudo do demônio patriarcal-hierárquico-autocrático sugando sua alma todos os dias. Não dorme bem, seu descanso não permitem os anjos da noite recarregarem sua alma com sonhos. Come lixo, mal, deprime, zero auto-estima.
Então a promessa dos novos tempos é fazer tudo melhor e mais rápido. Você vai aprender a delegar, a priorizar, a conhecer o importante, a lidar com o urgente, a focar na sua meta, a desprezar o que não contribui com seu caminho, a desfazer amizades antigas que te jogam pra baixo, a lamber o saco de novas pessoas que podem abrir as portas certas, vai criar uma rotina ritualística para hackear seus velhos hábitos, a criar novos comportamentos, você vai ser um campeão!
Zé-mané.

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A morte da Política, #devir49
Personalidades do mundo todo reconhecem como uma vitória democrática a eleição ocorrida naquele país, eleição esta que selaria décadas de horror político e desumanidades que nos reduziriam a quem não somos.
Poucos democratas foram astutos o suficiente para perceber que o verdadeiro propósito oculto na penumbra do eleito sempre foi agir como a vespa parasitoide hymenoepimecis argyraphaga.
Essa vespa deposita seus ovos dentro da aranha plesiometa argyra e que, de alguma forma, reprograma seu comportamento para construir teias especialmente preparadas para receber e proteger as larvas da vespa que nascerão.
Então, quando prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela mesma construiu.
Esse neopopulismo aprendeu a usar a democracia contra a própria democracia. Esconderam sua corrupção sistêmica – praticada por um núcleo duro com fins autocráticos para alterar o genos democrático em benefício do seu projeto de poder – dentro da corrupção endêmica – praticada pelos profissionais políticos para se dar bem na vida, mas facilmente metabolizada pelas instituições democráticas.
Na pior de todas as intenções, compraram todos. Não foram apenas os financiadores de grande parte de seus projetos, capitalistas sedentos pelo apadrinhamento do Estado, tais como empreiteiras, mineradoras, bancos, petrolíferas etc. Não foi apenas garantindo vitórias e demandas para atender seus anseios de crescimento econômico para comprar seu permanente apoio político-financeiro.
Garantiram – e também compraram – o apoio aos que passam fome, convertendo-os em dependentes eternos de um projeto assistencialista.
Garantiram – e também compraram – o apoio a todas as minorias negras, LGBTs, indígenas, escoando milhões de reais pelas máquinas não-governamentais de lavar dinheiro público.
Garantiram – e também compraram – verbas para as universidades e projetos de pesquisa, Rouanet para os artistas, vagas para cargos públicos, verbas para campanhas de toda espécie de políticos profissionais que viam facilitada sua permanência ao seguir o rabo desta serpente maligna para o conviver que nos torna amistosos e amigos.
Todos foram comprados, mas não importa, no fundo todos esses desejavam ser cavalgados por um bom rei.
Agora ele volta, não mais como um menino cheio de energia e com a visão de realizar seu sonho (autocrático), mas como um mártir ressuscitado com sede de vingança. Desejo este expresso linha por linha em seu plano público de governo e apoiado silenciosamente no canto mais sujo e fétido de nossos corações. Por enquanto.
Pois enquanto a oposição derrotada se levanta nas ruas contra a corrupção que volta como Godzilla enfurecido, estes outros ainda mantinham no lodo do poço político tais desejos secretos. Agora, ora, agora meu amigo e minha amiga, agora é guerra.
Só que não adianta mais os moralistas e jacobinos, todos urrando como burros enraivecidos dando coices tresloucados por todo lado, protestar contra a volta do esquema corrupto. Não entenderam que foram eles mesmos que deram força e os colocaram de volta ao poder. Não entenderam que foram eles que atestaram o discurso de que todos são iguais, todos são corruptos, e que fizeram a maioria da população eleger na base do “corrupto por corrupto, prefiro aquele que olha por mim”.
Uma pena estarmos tão repletos de analfabetos democráticos com deficiência do mínimo de capacidade analítica. Alguns poderiam dizer que assim é que aprendemos. Mas, sinceramente, não sei se haverá este tempo. Me parece mais um retrocesso à idade média, em termos políticos. Um objeto de estudo dos mais interessantes aos psicanalistas sociais.
Se o outro lado ganhasse, talvez seria pior, mas só no curto prazo. O neopopulismo invadiria as ruas para pedir impeachment, acionaria seus teatro de bonecos em todas as instituições do estado democrático de direito para derrubar quem os derrubou. Mas as ruas iriam sangrar.
Guerra civil quente. Coturnos, chinelos, armas, facas, mulheres tratadas como putas (como se ser puta fosse algum tipo de problema ou desvio), ingênuos universitários tratados como inimigos públicos, gays e travestis sendo torturadas como bruxas em praças públicas, soldados com o peito vermelho manchado com o sangue de seus pescoços divididos. No astral, deus-pátria-família peleja com a ideologia-utopia-igualdade. Um pandemônio de uma mesma legião com sinais contrários.
Não é melhor uma guerra civil fria. Guerra é guerra. E esta que é silenciosa é a vigilância permanente que nos separa pela desconfiança. Do que adiantou essa instrumentalização política através do moralismo? Bando de imbecis!
A política morreu. Não, política não são estas instituições nem seus profissionais. A política somos nós, nossa convivência, as comunidades.
E com a morte da política, segue a de nossa humanidade.
O erro está na dúvida? #devir48
Por muito tempo usei esta frase em vários momentos da minha vida, como também personifiquei uma espécie de coach espiritual para alguns amigos, afirmando que o erro está na dúvida.
De fato, ajudou muito. Mas, como tudo, tenho colocado isso em perspectiva. Lembro de Nietzsche, quando disse que as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Longe de querer mergulhar no que poderia ser esta verdade nietzschiana, uma convicção inquebrantável torna-se facilmente uma fé cega neste mundo loucamente complexo e dinâmico que vivemos atualmente.
Em tempos de transição, convicções nos cegam ao novo. Uma cegueira paga como preço para evitar a insegurança que impede de nos atirarmos ao abismo do desconhecido.
Somos convictos ao defender nossos interesses, ou melhor, o que acreditamos, pois é o chão onde assentamos nossa existência. Mas existe uma parte de nós que anseia o desconhecido, que deseja colocar-se em dúvida, em desconstruir-se, para poder vislumbrar algo inesperado, que o surpreenda. E esta parte em nós pode ser justamente o efeito do imprevisível querendo encontrar a si mesmo nos multiversos.
Tem uma frase atribuída à Frank Zappa onde ele diz que a mente é como um paraquedas, só funciona se abri-lo.
Esta última condição creio que seja fundamental à libertação do humano, à pessoa que iremos descobrir pari-passu com a sociedade que se estrutura. Porque a diferença fundamental desta nova civilização não está no que se conhece, na sabedoria acumulada em toda sua história, como também não está no que se desconhece, na abertura ao mistério, ao que se fazia oculto. Ambos, o velado e o revelado, sempre estiveram no caminhar do buscador. Talvez devemos estar abertos e preparados para viver a parte da realidade que é o imprevisível e aprender como lidar com ela.
Nosso anseio ao imprevisível se mostrará cada vez mais tão fundamental que passará a fazer parte de nosso comportamento, conferindo uma espontaneidade pura, oriunda daquele que respira liberdade. O imprevisível se fará espontaneamente social.
Tanto o que se conhece quanto o que se desconhece faz com que o homem atribua um caráter de previsibilidade, de modo que mesmo com a descoberta ou com a criatividade temos uma reação confortável. Na verdade não existe criação, não há nada que seja novo, nenhum lampejo, ideia, intuição, é genuinamente nova, mas um produto de uma trama pré-existente que se apresenta numa nova configuração. Co-criamos, sempre. As coisas não mudam, o que muda, é como vemos estas mesmas coisas.
O que se faz desconcertante e realmente inovador é conferido pela medida de imprevisibilidade que existe no universo. Mesmo dentro as zilhões de realidades possíveis dentro de ilimitados espaços e infinitos tempos nos multiversos existentes, existe sempre espaço para o imprevisível.
E dentro desta imprevisibilidade em busca de si mesmo, a surpresa poderia revelar que “o erro está na certeza…”.
Pronto! Algo como se o futuro fizesse presente, alterando este título que permeia o texto como um eco do passado. Os tempos ocorrem simultaneamente, e todos estão se reconfigurando a cada momento, portanto, só existe o AGORA, e ainda que a referência de uma mesma coisa no tempo possa se apresentar contraditória, ela não é arbitrária.
Alguém lembra deste diálogo?
– Onde você está?
– Aqui.
– Que horas são?
– Agora.
– Quem é você?
– Este momento.
E se quisermos continuar, diria que o erro está na certeza, e esta é a própria sabedoria da inexistência de deus.
O Rei se transformou em Rede.
Vale a frase como tema de meditação, pois que nem erro, nem certeza, nem sabedoria, nem inexistência, nem deus, o são de fato…
No mundo onde o homem entra em contato com a imprevisibilidade, as certezas que definem realidades para que as tornem previsíveis somente impedem o processo de libertação da vontade.
Vontade esta que é a essência da liberdade, e se faz sabedoria conhecer a inexistência de deus, pois este deus super-humano, antropomorfizado, ou seja como for, não possui mais sentido quando o espírito santo está no meio de (ou entre) nós. A experiência com o divino se transforma na convivência com ele, através de todos nós, pessoas.
O outro é você mesmo em um mundo diferente.
O tempo virou todos os tempos. Mudamos o passado agora. Vivemos o futuro hoje.
Medo de ser livre, #devir47
– Carol, espero nunca morrer antes de morrer.
Ela lembra do seu avô, uma vida sem vida dedicada àquelas atividades recreativas para a “melhor idade”, bocha, damas, tv, o interminável feed de dores e doenças sem cura inventadas no repente competitivo com seus pares.
– Ser vencido pela vida, não é mesmo?
– É… a maioria das pessoas desistem antes. Sei lá, a aposentadoria parece ser a porta de entrada para a morte. Não deveria ser o contrário? Pessoas idosas não seriam aquelas com mais conhecimento, com a maior experiência, com aquela luminosidade criativa capaz de desafiar o mundo jovem?
– Gregório, a gente morre quando para de criar, de inventar, de imaginar. Nem precisa ter idade pra isso. Conheço muitos jovens que parecem zumbis.
Passa pela cabeça dele a premiação do Oscar dos mais inovadores de todos os tempos, aqueles que desafiaram o comum, o padrão, o medíocre, não apenas pelo desafio do diferente, mas porque o status quo refletia a reprodução de uma cultura que minava sua própria humanidade.
– Isso reforça aquela nossa ideia do outro papo que tivemos, de que uma nova geração é quem cria coisas novas, e que idade não tem nada a ver com isso, lembra? – lembra, Gregório.
– Sim, falamos de pessoas que são super inovadoras até hoje, mesmo que já tenham falecido. Não existe isso de idade ou tempo pra ser inovador. Mas sabe que eu acho que junto com tudo isso existe o medo da morte. O medo é uma forma de prisão, neste caso, na própria vida.
– Só quem tem medo da morte consegue ser controlado. O poder é baseado no medo da morte. Isso me lembra a epopéia de Gilgamesh.
– Gilgamesh?
– Um dos mitos mais antigos da humanidade que, coincidentemente, vem da antiga Suméria, o berço da civilização patriarcal. Esse cara decidiu que jamais morreria. Fez uma jornada épica para vencer a morte, mas fracassou. Então ele começou a edificar obras monumentais como uma forma de manter sua memória viva por milênios.
– Ah, as pirâmides são um outro exemplo justamente disso. Uma obra faraônica que reflete inclusive a topologia do poder hierárquico ou piramidal, e que ainda tinha toda aquela ladainha de conduzir a pessoa pelo reino dos mortos com privilégios diferentes de qualquer outra pessoa tida como profana.
– Tudo pelo medo da morte.
– Você não acha que a cultura patriarcal, mítica, sacerdotal, e a invenção da regulação autocrática, tem a ver com tudo isso?
– Bom, pode ser. Tem quem ache. Uns falam que a origem está na escassez, outro na mudança do emocionar, mas o medo da morte também vem junto.
– Quem não tem medo da morte, neste sentido, é realmente livre. Quando será que a morte passou a ser entendida como o contrário da vida?
– Pois é, a vida é fluxo, e não aceitar o fluxo da vida significa negar a morte também. A morte nunca deveria ser o contrário da vida. Ela faz parte da vida ou, muito melhor, é a coroação da vida.
– A pessoa não morre porque decaiu, faliu, ficou doente, abdicou da vida. Quando ela morre, ela chegou no seu máximo, não é mesmo?
– Penso que existe alguma sabedoria sobre se preparar para a morte. Você se prepara para a morte a cada momento, vivendo em plenitude o que você pode viver. Quando a morte chega significa que você viveu tudo o que tinha para viver, até seu último suspiro.
– É como se disséssemos que a morte é o máximo da vida, o topo. Algo como se você não tivesse mais vida para colecionar, viveu tudo que podia ter vivido.
– E quando a morte chega, esta sim, é a última experiência que faltava para você viver.
– A última experiência…
Gregório e Carol se perdem em seus olhares sem saber se olhavam para o abismo um do outro ou se simplesmente se perderam no infinito daquele momento. Um longo silêncio embala diversas emoções: deles, de familiares, amigos e desconhecidos.
Apenas observam todas aquelas sensações passar.
Quem olha?
Quem enxergam?
Música para danças fractais, #devir46
Veja Guilherme, se entregando ao espontâneo instantâneo.
Perde toda noção de si mesmo, esquece da pseudo-existência de sua própria individualidade, simplesmente, perde-se.
Nesta perdição seu corpo erra por todos os movimentos. Não pensa. E não é Guilherme que sente. Ele é o instante fractal de aromas multicoloridos.
Ele é fluxo e muitos e, neste estado, encontra-se na multidão.
Quem embala esta dança é aquela música debilmente conhecida como clássica, erudita.
O que será que Guilherme ouve? Com que ouvidos Guilherme escuta?
Com certeza não com os seus. Ninguém escuta a música a não ser ela mesma. Ninguém dança a música a não ser ela mesma.
Quem é esta harmonia? Onde está esta melodia? Qual a fonte destes ritmos?
Nunca um dançarino embalado pela mediocridade imaginaria tantas nuances de amor, vôos de tristeza, explosões de agressividade, a depressão do profundo abismo e a sublimação do êxtase em uma só e mesma música… essa mesma, erudita, transpirando em seu próprio corpo todos os movimentos que desejam sair e beijar o toque do ar.
Aqueles críticos aprisionadores de corpos, burocratas do movimento, sacerdotes da expressão, buscam sem compreender os motivos que originaram o instante mais inovador de seus corações. Gelo que se quebra de dentro pra fora, porque aquela dança é semente que irrompe a vida.
Esta música não deveria possuir nada como uma técnica. Seus co-autores conectados pelo fluxo que embala os mistérios de nossa própria humanidade expressavam a metamorfose caótica que somos. A escrita musical foi a jaula segura da sociedade domesticada. Por trás de cada nota, um universo borbulhando de invenções.
Não é Guilherme que dança. É o autor, o músico, a orquestra, os ouvintes, toda humanidade. Seu suor mostra que não há tempo nem espaço que limitem quem somos.
Fractalmente, todos.
Alquimistas Sociais, #devir45
– Manja A.S.P.O.N.E.? – continuou Roberto.
Renato – com a cara de quem vê a nave do Independence Day baixar sua sombra sobre a Terra – responde:
– Que porra é essa?
– Justamente! É ASsessor de POrra NEnhuma.
– Ah, tá. Mas não é bem assim. Você fala daquele generalista que só desliza superficialmente sobre tudo e que, no fim, só fala merda mesmo. Nem sei se essa sua comparação vale de alguma coisa.
– Mas, Renato, hoje em dia não dá pra ganhar dinheiro se você não for especialista em alguma coisa e ser reconhecido assim.
– Sim, pode até ser que exista uma grande parte de empresas e pessoas que só jogam dinheiro no teu colo se você for um puta especialista de A.S.P.O.N.E. mesmo – falou com cara de deboche. Mas esse é um discurso da nossa geração, é o que contaram pra gente e o que nós replicamos entre nós, agora adultos. Inclusive, pensa comigo, isso é uma forma de justificar nossas vidas.
– Justificar como?
– A gente cresceu escutando que tinha que ser bom nisso e naquilo. Nos sacrificamos e perdemos uma puta tempo de nossas vidas com essa ladainha na cabeça. Crescemos e agora não só falamos uns pros outros que o mundo funciona assim, como também exigimos dos mais jovens que eles sejam como nós. Ou é reconhecido como uma pessoa que tem os mesmos valores e visão, ou logo sentenciamos como incompetente, inútil, prejuízo futuro e por aí vai.
– É… isso tem um fundo de razão. Mas o que te leva pensar que os próximos 20 anos não vão ser a mesma coisa?
– Roberto, acho que 99% das especialidades que temos serão realizadas por robôs e inteligência artificial. Hoje mesmo já têm muitas coisas sendo feitas por máquinas. O avanço disso é rápido. Por exemplo, esse problema aí que você tem da próstata, se precisar operar, vai ser feito por um robô. As chances de erro são bem menores e as taxas de sucesso dessas operações nem se comparam com as feitas por humanos.
– Inclusive ouvi dizer que tem operações no coração já sendo feitas assim.
– Tem. Meu mercado mesmo, está sendo invadido por esses bichos. Estudei pra caralho design gráfico. Mas saiba que boa parte do meu trabalho não é criativo, é muito mais técnico. Preciso entender o público, qual posicionamento de mercado deseja, que emoção quer passar, e depois de juntar todos esses dados preciso unir isso com as formas, cores e símbolos que melhor atingem aqueles objetivos. Claro que nesta mixagem é onde tem o trabalho criativo. Mas a questão é que robôs já estão criando marcas de dar inveja em muitos designers experientes.
– Então, Renato. Vamos imaginar que isso molde o mercado de trabalho do nosso futuro próximo. Você está falando então que todos os cursos de especialização, esta onde de investimento em cursos técnicos, tudo isso vai ser feito de maneira muito mais eficiente por robôs, por algoritmos com inteligência artificial, esse lance aí de Internet das Coisas e por aí vai, correto?
– Sim, mas não precisa ser tão radical. Não acho que seja 100% de tudo. Só imagine que haverá uma inversão de mentalidade quanto a isso.
– Tudo bem. Mas aí voltamos ao início da nossa conversa. Como um generalista, um cara que sabe apenas superficialmente um pouco de tudo, pode ser o the one neste cenário? Os robôs não fariam isso também?
– Roberto, acho que qualquer pessoa com meio neurônio entende que buscar ser especialista em qualquer coisa hoje em dia é uma furada, né?
– Tudo bem, eu tenho pelo menos dois neurônios, hahaha.
– Hehe, beleza! Agora, sabe o que as empresas mais inteligentes estão procurando? Não são engenheiros, nem programadores. Disso o mercado tá cheio. O que está faltando neste cenário de transição?
– Generalistas?
– Prefiro chamar de polímatas. São as pessoas que se interessam por vários assuntos e vão fundo naquilo que desejam. Ou seja, são pessoas que se jogam na experiência daquilo que querem viver e aprender no momento.
– Você tá falando então de um cara tipo Leonardo Da Vinci?
– Mas com uma grande diferença. O Da Vinci era um puta gênio de várias áreas do conhecimento. Só que ele vivia em uma sociedade muito pouco conectada, o que exigia muito mais de cada indivíduo isoladamente para sobressair. Nesta sociedade-em-rede que vivemos hoje você provê soluções geniais com muito menos esforço, porque é muito mais fácil sintonizar com pessoas que tenham ideias semelhantes, é muito mais fácil conectar projetos e cocriar soluções que não precisam necessariamente partir de você, como se fizesse tudo da concepção até a entrega, mas invenções que surgem do processo de combinações e recombinações que nossa própria conectividade permite.
– E para termos tantas inovações como você diz, até entendo que quanto mais os interesses forem diversificados, maior a chance de gerar ideias criativas, que dentro de um único universo ou por dentro de uma única especialidade não seria tão fácil.
– Exatamente! Cara, esse negócio de ser especialista é coisa de robô. Nós somos seres humanos, somos pessoas. Pra mim, uma pessoa que vive sua vida de acordo com a especialidade, o nicho, o segmento que escolheu para si, tem alguma doença social.
– Não precisa ser tão radical, né? Temos uma cultura que apoia isso.
– Essa é uma cultura doente.
– Bom, vamos focar aqui. Acho isso muito interessante. Combinações inovadoras de arte, ciência e tecnologia. Isso pode gerar mudanças…
– Roberto, isso é a coisa mais simples que existe. É só sermos o que somos: humanos. Enquanto pessoas, nos interessamos por coisas diversas e queremos trocar isso com os outros. E num mundo onde as máquinas desempenharão melhor, praticamente qualquer atividade que fazemos hoje, o que nos resta é um reencontro com o que nos faz humanos.
– Que seria?
– Criar, inventar, imaginar, explorar, investigar, conversar, festejar, nos polinizar mutuamente, vivenciarmos nossa empatia, criar novos mundos sociais!
– Taí, achei aqui um novo nome, melhor que generalista ou esse raio de polímata aí!
– Opa! Qual é?
– Somos alquimista sociais.

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That’s how the light gets in, #devir44
– Negócios? Tenho esperança numa sociedade onde não existam mais negócios.
Engravatados multimilionários de um dinheiro que não existe, que não possuem, que flui em um universo próprio – o cosmos do mercado financeiro – coordenado pela ganância do poder do seus grão-sacerdotes envaidecidos pelo orgulho do ter.
– Eu quero liberdade, mas não a que o dinheiro possibilita. Minha liberdade está além do dinheiro. Ela é irmã do tempo e da mobilidade.
Empresários escravos de si mesmos, diluem suas almas na subordinação sistêmica ao urgente, esquecem do que realmente é importante.
– Nunca há tempo para nada, não há ócio. Vive-se a negação do ócio. Mas ser ocioso é não estar subjugado pelo tempo, é abrir fendas para novos horizontes da plenitude e da felicidade.
– É o espaço das ideias. A fenda para tudo e qualquer coisa.
Vamos nos permitir ignorar o negócio? Um caminho para a ideia permanente?
Ideia permanente implica em criação permanente. Ócio como espaço da ideia onde cria e realiza.
Autopoiese.
Artepoiese.
– A arte é o horizonte de eventos da realização humana. Em nossa ontogenia social criou diferentes ritmos, melodias e harmonias, retroalimentado-se como um simbionte sustentável. É a conexão entre as pessoas. Afirmo que a arte estimula e configura a sociedade-em-rede.
– Na arte revela-se uma tríplice função. Primeiro, do pensar. A pessoa ociosa toma contato com a arte para aprender, mergulhando no imaginário simbólico que conecta conhecimentos. Segundo, do sentir. Mergulhando em sentimentos que revelam o potencial do coração e alma humanos. Terceiro, do querer. Que revela-se no ATO, na atitude, no movimento, no toque, na sensação física, no exercício da vontade, que nos coloca em conexão física com fluxos e redes.
Finalmente percebem que a arte é um portal aberto para fluxos que nos colocam em conexão com diferentes redes de pessoas.
There is a crack in everything. That’s how the light gets in.
O que nos surpreende em todas descobertas científicas, criações tecnológicas, avanços em qualquer área, não é o fato em si, mas o ATO ARTÍSTICO com que se reveste simbolicamente, nos dimensionando para uma realidade cujo fluxo é raramente percebido em consciência, seja mental, emocional ou fisicamente.
That’s how the light gets in.
Muito bem, filho! #devir43
“Mamãe, veja o que eu fiz.”
“Parabéns! Você fez certinho!”
“O André pegou meu lápis azul e eu chamei a professora pra dizer que ele roubou de mim.”
“Pai, lembra daquela minha namorada, a Aninha? Ela estava de mão dada com o Ricardo, eu fui lá e dei um empurrão nele e falei pra não chegar mais perto dela!”
“O René veio me abraçar, assim, do nada! Eu dei um chega pra lá nele! Coisa de viado!”
“O que aconteceu?”
“Eu acho que elas estavam rindo de mim, só pode ser por causa da prova de dança. Ninguém fica comigo mais no recreio…”
“Vai lá e dá um murro na cara do moleque mais forte daquele bando, você vai ver como vão te respeitar depois que o nariz dele começar a sangrar.”
“Enquanto você morar debaixo desse teto e comer da comida que eu compro, você vai me obedecer!”
“Mas eu preciso passar e entrar nessa faculdade, senão meus pais vão ficar muito decepcionados comigo.”
“Se eu não dormir com ele não vou crescer nessa empresa.”
“Esse cara vem me cumprimentar dando tapinhas nas costas e fica me queimando com o chefe?”
“Vou deixar esses idiotas acharem que estão ganhando pontos comigo, depois eu quero mais é que se fodam, não vou facilitar nada!”
“O homem é o lobo do homem.”
“Aqui é ferro e fogo, o mundo é um campo de batalha, fica esperto ou te comem vivo, mano!”
“Logo que acendi o cigarro, ela jogou aquele olhar de desprezo em mim.”
“Meu deus do céu, que nojo! Você está vendo como ele não para de fumar? Credo!”
“Se o cara não está no mínimo bem vestido, com alguma roupa de uma marca que preste, nem olho mais.”
“Meninas! Vejam as sacolas! Aqui tem 30 mil gastos no shopping, vamos brindar!”
– Chega, Horácio! Não aguento mais ouvir isso!
– Mas ouvimos isso todos os dias, toda hora.
– Ah… ouvimos sem ouvir.
– E replicamos sem pensar, sentimos sem perceber…
– Nossos filhos, não!
– Inclusive. Será que vamos manter esta cultura que “não aguentamos mais ouvir” em nosso filhos? Veja o quanto já reproduzem este mesmo emocionar sem saber.
– Concordo. No fim, Horácio, você tem razão. Eu não quero que eles entendem que o mundo é uma guerra, que temos que competir e vencer a qualquer custo, muito menos suportaria ver o Bruninho dando uma de machão com as meninas ou batendo em todo mundo. E a gente fala, fala, e de nada adianta.
– Nada mesmo. Se falar adiantasse toda campanha de saúde daria certo. A informação, o conteúdo, não é relevante pra nada aqui. Nós e nossos filhos apenas replicam comportamentos. Não dizem que só comportamentos mudam comportamentos?
– É. Mas não acho que é só isso não. Eu sinto que deve haver um sentido nas coisas que você faz. Junto com um comportamento, ou antes dele, temos que sentir ou ter uma emoção compatível para aquilo ser percebido pelo outro.
– Sim! Concordo! E, inclusive, não acho que devemos reforçar positivamente com um elogio, por exemplo, quando o comportamento é adequado.
– Como assim? Por que não? Um elogio não é um estímulo para a criança saber que está no caminho correto?
– É, e não é esse tipo de estímulo que estamos replicando e que também faz parte desta cultura patriarcal? Veja, a criança, ou melhor, qualquer pessoa, deve ser incentivada a criar qualquer novo mundo social que deseje. E eu acho que reforçar algo que vêm de encontro com um mundo que não foi criado por ele, mas o qual ele interpretou corretamente, é uma desumanidade.
– Pensando bem, tem sentido. Esta cultura passada de geração em geração se mantém somente na escassez. É como dizer que só existe um mundo, uma realidade, uma forma correta de ver as coisas, de interpretar, e nós reforçamos isso toda vez, ao invés de incentivar a invenção de novas possibilidades, de outros mundos possíveis.
– Isso! Quando uma criança se mostra capaz de fazer todas as interpretações que percebe de forma adequada – e adequado sempre na visão de alguém superior, mais sábio, ou experiente – e nós revalidamos isso, ela se conforma com aquela descrição, e se conforta em um mundo único possível.
– É justamente aí que formatamos as pessoas para reproduzir um modo-de-vida que nos acostumamos chamar de “a sociedade”. Não estamos criando humanos, e sim, sócios desse mundo.
– Sócios? Que ideia boa essa Fê! É isso mesmo. E essa empresa é uma fábrica de ilusões. Se pensar, a vida diária não é real, tal como acreditamos que seja. A realidade ou o mundo que todos compartilhamos é apenas uma descrição. E desde o momento que uma criança nasce, isso é inculcado nela.
– Horácio, pensa bem. Todos que passam na vida de uma criança é um chefe. Talvez, melhor ainda, são professores ou mestres. Pessoas que lhe descrevem o mundo sem cessar, e não param de fazê-lo e de corrigir até o momento em que a criança é capaz de perceber o mundo conforme descrito. Aí, pronto! Temos um novo sócio! Ela começa a interpretar o mundo conforme a descrição que fizeram durante toda vida, e passamos a dar nosso ok sempre que estiver correto.
– Por isso, voltando ao nosso papo do início, temos que criar emoções que possibilitem sempre o surgimento de outras interpretações. Ou fica como é com 99% das pessoas, raramente os fatos são postos em dúvida ou indagados. Esta sociedade pode trazer tudo isso que falamos aqui, mas ao fim ela é, principalmente, uma sociedade de obedientes.