A noite do baile grego havia sido mais do que uma noite de trabalho desconfortável, uma noite de desastre. Mas tinha algo que deixara para trás que prioritariamente deveria ser resolvido hoje. E não era um tratamento apropriado para os leves hematomas que ainda pintavam a região do olho esquerdo de Zion, estes estavam quase curados, apesar da falta de cuidados do mesmo, eram agora apenas pequenas manchas azuladas perto do nariz, sobre o osso da maçã do rosto e uma maior abaixo da sobrancelha. Mas o assunto a ser resolvido era muito mais importante do que apanhar em público, dizia respeito a segurança das informações rebeldes e isso não podia ser deixado para depois em absoluto.
De trás no balcão, enquanto servia pôde na noite do baile observar Terra Wynter conversar amigavelmente com ninguém mais, ninguém menos do que o Comandante O’Connel, figura mais do que conhecida e ainda mais perigosa. De longe e naquela iluminação não tinha ideia do que havia sido conversado e momentos depois os havia perdido de vista. Aquilo não podia ser bom, ele tinha o dever de tirar a limpo o que se passara. E claro, não era nada ruim ter encontrar Terra no trabalho, afinal o Mindy’s oferecia um sortimento de opções de café da manhã que nem mesmo de barriga cheia Zion recusaria. Sem contar o fato de que a própria pessoa de Terra estava longe de ser desagradável. Eles tinham uma relação amigável desde os tempos em que se encontravam vez ou outra nos túneis rebeldes.
Sentado no banco acolchoado e usando a calça mais espaçosa que pôde achar naquela manhã, Zion acompanhava a própria Terra recitar seu pedido. “—Sim, sim, sim, sim.” Assentiu a cada item por ela disposto na mesa a sua frente. “— Acho que me esqueci de pedir também o bagel com cream cheese,”- ele disse observando todos os outros pratos distribuídos na mesa – “é bom ter um salgado também para equilibrar. Ah, e o suco de laranja.” Afirmou alegre. “— Mas acho que já dá pra começar.” Terminou a frase já se servindo dos ovos mexidos e dando uma garfada no bacon, para levar a boca.
“— Eu costumo tomar café em casa. Chego bem tarde do trabalho nas noites de semana, sabe como é. Mas adoro o Mindy’s, é bom saber que tem um rosto conhecido aqui.” Deu um pequeno sorriso de lábios cerrados, pois já havia posto mais comida para dentro. Mesmo o uniforme peculiar da cafeteria não tirava a beleza da moça, e Zion por alguns segundos se pos a pensar que a conversa dela com o Comandante poderia ter tomado rumos de que ela não fosse se sentir confortável em falar ali. “— E é preciso mais que isso?” Ele falou parando de comer por um instante, mantendo o garfo em punho. “— Ou você preferiria ouvir que vim te ver?” Levantou um pouco as sobrancelhas olhando para ela. “— Estou brincado, Terra, relaxa. Eu por enquanto vou só comer.” Falou no tom mais natural possível, enquanto tentava pensar em um plano para chegar no assunto na melhor hora possível. “— O Mindy’s tem uma troca de turno daqui a pouco, não?” Disse como quem não quer nada, já começando a ter uma ideia de como proceder para ter um tempo e lugar apropriados para fazer as perguntas à Terra.
Antes mesmo de conseguir respondê-lo, para dizer com muita propriedade que havia checado seu pedido antes de servi-lo, o soar da campainha tocou novamente e Terra viu, de longe, o conjunto “suco de laranja e bagel salgado” esperando por seu dono. Revirou os olhos para Zion, completamente cansada, mas se levantou para buscar o lanche dele, com um sorriso irônico. – É melhor você dar uma boa gorjeta, Zion Taurin. – Lembrou-o, brincalhona, olhando em seguida para o relógio do Mindy’s, checando as horas. – Se você não me der mais trabalho, digamos em estou liberada daqui cinco minutos. – Disse com simpatia, dando uma piscadela de olho para ele.
Não haviam se tornado melhores amigos, mas definitivamente que não se tratavam de pessoas distantes, indiferentes a presença um do outro. A vida que Terra levou confinada nos túneis rebeldes não havia sido da mais justa, ao ponto que a companhia de Zion, sempre bem humorado e muito gentil, foi de grande valor naquela época. De fato, ela não deixava de crer que a única razão para isso havia sido a ingenuidade quase admirável dele, que fora um dos poucos a não criar motivos para não falar com ela e os demais forasteiros quando chegaram a Gallica I. Porém, se tratando indubitavelmente de uma boa pessoa, preferia ele por perto, como uma confiável companhia.
- Em tempos como estes, eu bem que gostaria de ser mais querida. – Confessou, furtando uma fatia de bacon do prato dele, sem se importar com resmungos, dando uma mordida. – Vaessa ainda está próxima, mas Ryker, por exemplo, quase que sumiu. – Disse, um pouco mais cabisbaixa, talvez ressentida. – Pensei que Gallica I ia tornar nós três inseparáveis. Que sobreviver ao deserto iria fazer tudo diferente. – Explicou, enquanto fitava o pedaço de bacon remanescente, como se escondesse algum mistério. – Ingenuidade a minha. – Concluiu, comendo tudo de uma vez só, disfarçando porcamente sua tristeza com um sorriso daqueles que faz piada da própria infelicidade.
- Quer me levar a algum lugar? – Perguntou, tentando mudar o semblante para algo mais alegre. “Me leve pra um lugar que me faça esquecer daqui”, ela pensou, em resposta, engolindo em seco e dando um sorriso. – Se sim, espero que me surpreenda, viu? – Falou, roubando outro pedaço de bacon. – E, não se preocupe, eu acho que ela também está interessada em você. – Disse baixinho, como um segredo, fazendo referência a outra garçonete, da qual sentiu que Zion não tirava os olhos.