Transparência
Transparência, anseio por ser transparente. Explico cada vÃrgula, justifico as respostas, conto os segredos mais profundos da alma, exponho as cicatrizes e, quando questionada, sorrio e explico outra vez incansavelmente. Anseio pela transparência: das palavras, de sentir, de ser e de existir.
Quero ser transparente. Descolorir o pigmento da melanina até expor a camada de músculos e terminações nervosas do meu ser; depois, quero que meus órgãos, veias e vasos sanguÃneos sejam expostos enquanto vagueio pela melancolia da vida.
Me fascina ser transparente a ponto de o meu cérebro conseguir transmitir meus pensamentos e emoções sem que sobre espaço para dúvidas ou segundas interpretações. Quero ser transparente até o cálcio dos ossos, que a fragilidade da minha existência seja percebida sem que palavras precisem ser ditas.
Anseio pela percepção febril de que o meu sangue também flui de acordo com minhas emoções. Quero a transparência de ver os vasos dilatando no calor e durante o nervosismo também, para que eu não precise proferir nenhuma palavra sequer nunca mais, transformando a minha lÃngua em um músculo inutilizado, imóvel, que apenas habita minha carne.
Quero ser vista, entendida sem esforço.
Quero ser transparente.
Luna Duarte.














