ATRITO DA MEMÓRIA (Miguel Cardina)
apresentação por Luca Argel Na esteira dos 50 anos do 25 de Abril é muito importante ocupar o espaço de debate público com trabalhos de investigação com este nível de competência e lucidez, porque ainda há muito caminho a fazer em Portugal. Ainda há muito a fazer na construção de um senso comum mais bem informado, mais maduro, e sobretudo mais empático e plural quando o assunto é o passado colonial, e a identidade nacional que se funda e se refunda a partir de uma visão muito particular desse passado.
E é por aí mesmo que eu queria começar a comentar o livro, porque uma das primeiras ideias que aparecem nele e que eu acho fundamental pra começar a discussão é uma premissa básica:
A forma glorificante de se recordar, de se percepcionar o passado colonial português é uma ESCOLHA. Essa palavra é absolutamente fundamental pra que se possa conversar e refletir: ESCOLHA. Não é um dado adquirido por defeito pela sociedade portuguesa, não surgiu naturalmente, de geração espontânea, não é uma imposição divina, não foi uma visão que caiu do céu, nada disso. Foi uma ESCOLHA, deliberada, tomada por figuras com poder político ao longo do tempo. E essa escolha por glorificar o passado colonial (primeiramente o mais remoto, da expansão marítima dos séculos XV e XVI), tem objetivos muito claros: assegurar o apoio popular à dominação militar de territórios e populações. E com isso, obter dividendos econômicos da exploração destes territórios e populações.
Subtrair das narrativas coloniais o seu lado mais violento e desumano foi uma escolha para que não fossem perturbados esses lucrativos mecanismos de exploração. Isso é uma premissa importante porque, se a narrativa glorificadora foi uma escolha das elites portuguesas, nós, como outra parte do corpo social, podemos também escolher outras formas de nos relacionarmos com esse passado.
E o que esse livro oferece é uma base factual bem documentada e bem articulada, para que a gente possa fazer a nossa escolha. E nos oferece ainda uma leitura que identifica e interpreta os efeitos que aquela velha escolha “oficial” de relacionamento com o passado teve, e tem, na sociedade portuguesa ao longo do século XX e XXI.
Esses efeitos são muito nocivos, atrasam o nosso desenvolvimento civilizacional, e precisam ser revertidos urgentemente. Que efeitos são esses? Eu vou falar aqui sobre três que eu considero os mais graves:
1- A aceitação do discurso de que a colonização portuguesa foi benevolente por se propôr a “civilizar” os povos colonizados, parte do pressuposto profundamente problemático, de que tais povos são primitivos, inferiores, em comparação com o referencial europeu, tomado como o ideal universal de sociedade. A cristalização dessa visão racista e eurocêntrica, tomada como único ponto de vista possível, tem uma consequência óbvia: sustenta o racismo. Compõe um sistema de crenças racista. Leva a resultados como o da pesquisa da European Social Survey, aliás citado no livro, que em 2020 constatou que 62% dos portugueses acredita em algum tipo de superioridade racial, o que é um dos níveis mais altos da Europa. A insistência nesse tipo de discurso paternalista que louva o empreendimento colonialista como um caminho para o desenvolvimento dos povos colonizados nos torna absolutamente insensíveis para com a realidade vista do ponto de vista contrário. De experimentar pensar fora do lugar lusocêntrico, eurocêntrico; de retirar-se do centro da discussão. Ou seja, e isso é o efeito mais grave, nos incapacita para a empatia.
2- Ainda na mesma esteira, ao assumir como verdade a tese lusotropicalista (adotada pelo salazarismo, mas que sobreviveu largamente a ele, e está aí até hoje), de que existiu um colonialismo muito próprio de Portugal, que foi brando, generoso, vocacionado para a interculturalidade e para a miscigenação, e portanto teoricamente incompatível com o racismo, nós perdemos um elemento fundamental de compreensão das desigualdades do presente. Porque, ao adotar a lógica lusotropicalista, todo caso de racismo torna-se um desvio, um incidente pontual, que necessita apenas de um ajuste pontual, e nunca de uma intervenção estrutural. Eu ouvi, este ano, em 2023, num podcast de um grande grupo de comunicação nacional, que tem jornal, revista, rádio, um grupo de historiadores dizerem consensualmente que o racismo em Portugal não passa de um “epifenômeno”. Ainda esse ano, também, em fevereiro, nós ouvimos uma ministra do governo (ministra adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes) dizer com todas as letras, que “o racismo não é um problema estrutural em Portugal”. E aí o efeito é muito simples, se não conseguimos enxergar o racismo em sua dimensão estrutural, estamos incapacitados de combatê-lo devidamente. Não se combate aquilo que não se vê.
3- Por fim, o efeito mais delicado de todos. Um vez que entram para o senso comum o imaginário heróico de um “Império mítico”, dos “Descobrimentos” como o “facto capital” da história de Portugal (e isso são palavras de Mário Soares, relembradas pelo Miguel no livro), e da suposta vocação portuguesa para uma colonização benigna, elas passam a ser um elemento estruturante da auto-representação de cada português e cada portuguesa, porque o pertencimento local, o pertencimento a uma idéia de nação é um alicerce poderosíssimo na construção das nossas identidades individuais. E a partir daí, a cada vez que nós questionarmos aquele imaginário, expondo as partes da história omitidas pela narrativa puramente glorificadora, é inevitável que muitos acabem se sentindo pessoalmente atacados. Atacados na sua própria auto-representação pessoal. E em seguida, como é lógico, se defendem. Defendem esse imaginário como se defendessem a própria honra. O nacionalismo naturaliza-se como único terreno possível para se pensar a questão, e, consequentemente inviabiliza qualquer conversa cuja conclusão não seja a proteção daquele imaginário patriótico. Isso simplesmente nos incapacita, como sociedade, de travar um debate real e maduro sobre o assunto. E sem debate, ficamos também incapacitados para a transformação.
Conclusão: se nos tornamos incapacitados de sentir empatia, incapacitados de enxergar esse problema de forma sistemática e estrutural, e até incapacitados de ter uma conversa produtiva sobre a origem desse problema… Estamos bem fodidos.
Daí a importância desse livro. Aqui se identificam as evidências de que Portugal efetivamente fez uma escolha relativamente à forma como representa o seu passado. Depois há aqui uma análise rigorosa, mas em linguagem acessível, e com riqueza de exemplos, sobre como, onde e quando se deram momentos chave de reiteração dessa escolha por parte seja das autoridades de estado, seja da intelectualidade formadora de opinião. E finalmente, também está aqui narrado como se deu também a disputa por narrativas alternativas, desde o 25 de Abril e que está até hoje em curso. O próprio livro se insere como um elemento valioso nessa disputa.












