Pronto, chegamos na parte que você queria.
Eu tenho certeza de que o sexo anal é a mais polêmica das práticas. A grande maioria dos evangélicos se coloca moralmente contra, ao mesmo tempo em que é mais nítida a torcida pela manifestação a favor. Com exceção dos líderes e influenciadores, que precisam adotar uma postura externa mais inequívoca, a massa dos crentes parece aceitar a proibição a contragosto. Eles perguntam se é pecado, recebem a explicação de que é, mas... fica aquela sensação de que o mundo seria um lugar melhor se não fosse.
Eu já li incontáveis argumentos contra o sexo anal, e eles realmente são numerosos. No entanto, nenhum deles é pertinente ou conclusivo. Existem, de fato, muitos motivos plausíveis para que se aconselhe a evitar a prática por motivos pragmáticos, mas nenhum que demonstre irrefutavelmente a sentença de pecado.
Os cristãos facilmente caem em um conceito de pecado muito mais baseado na experiência do que na revelação. Pecado é o que a Bíblia diz que é. Para haver pecado, é necessário haver uma lei sendo transgredida. O pecado é algo que Deus julga como sendo mau e assim ele o revela aos homens. O pecado não é apenas algo inconveniente, mas é objetivamente perverso. Ele não varia entre culturas ou entre épocas, mas é vinculante a todos os seres humanos de todos os tempos e lugares do mundo. Se algo é demonstrado como pecado pela clara revelação divina, não há como relativizar. O pecado é uma transgressão que atrai a ira de Deus e merece o inferno. O pecado sem arrependimento é a base, a única base, para a excomunhão. Ele distingue entre os filhos de Deus e os filhos do diabo. Declarar algo como pecado é muito sério. É uma postura que não admite exceções, que coloca todos os humanos do mundo sob uma mesma regra fixa.
Portanto, nós não podemos pregar que o sexo anal é pecado se não houver uma clara regra bíblica que seja invariavelmente transgredida por esse ato. Do contrário, seremos culpados de prender a cristandade inteira a uma lei humana, o que é tão grave aos olhos de Deus quanto o próprio pecado.
Há dois tipos de argumentos contra o sexo anal: os que pretendem ser bíblicos e os que se baseiam em ciência e saúde.
O primeiro argumento bíblico é a citação de versículos que mencionam a “sodomia” como pecado. Se o termo “sodomia” significa sexo anal, logo a Bíblia estaria afirmando explicitamente que o sexo anal é pecado.
O erro desse argumento é a dependência da tradução de um termo que não significa atualmente o mesmo que significa no contexto bíblico. Comete-se um erro similar quando os cristãos tentam achar a prova de que o sexo antes do casamento é pecado citando versículos que condenam a “fornicação”. O problema é que “fornicação” é uma opção de tradução que, se já foi útil em outro tempo, hoje é enganosa. Em versões antigas da Bíblia, optou-se por traduzir como “fornicação” o termo “porneia”, porém “porneia” não significa sexo antes do casamento, e sim pecados sexuais em geral. As traduções modernas já trazem o termo “imoralidade sexual”, que é bem mais fiel. Provar que o sexo antes do casamento é pecado apelando-se ao “porneia” é uma petição de princípio, e a tradução “fornicação” induz a esse erro de raciocínio. A conclusão é correta, mas o argumento é ruim.
Semelhantemente, o termo “sodomia”, conforme conhecemos hoje em sentido amplo, não existe na Bíblia. Foi uma opção de tradução que hoje não se usa mais. Em todos os contextos da Escritura em que essa tradução desusada aparece, a referência é claramente à relação homossexual. Por exemplo, 1Coríntios 6.9 elenca entre os que não herdarão o reino dos céus os “efeminados, nem sodomitas”, conforme a ARA. Já a A21 diz “os que se submetem a práticas homossexuais, nem os que as procuram”. Outras traduções como a NVI, a NAA e a NTLH dizem simplesmente “homossexuais” ou “afeminados, nem homossexuais”. É muito claro, portanto, que a expressão original tinha em vista condenar as relações homossexuais, não o sexo anal em si mesmo.
O segundo argumento, semelhante ao primeiro, é a expressão “contra a natureza” e “deixando o contato natural” que aparece em Romanos 1.26-27. Nesses versos, Paulo menciona e condena as relações homossexuais de homens e de mulheres, declarando-as como sendo “contra a natureza”. A alegação é que o pecado masculino consistiu em buscar uma maneira de fazer sexo “antinatural”, que é o sexo anal, motivo pelo qual eles se inflamaram de paixão por outros homens.
A confusão nesse argumento reside em uma petição de princípio que não está no texto. O texto não menciona o sexo anal de forma alguma, porém os cristãos já assumem que o sexo anal é “contra a natureza” por motivos da fisiologia humana. É um argumento que pretende ser bíblico, mas que depende de uma visão científica. O raciocínio é forçado e não faz sentido nesse texto. Como que o sexo anal pode ser a coisa “contra a natureza” nesses versos, se Paulo menciona o lesbianismo como contrário à natureza também? Lésbicas não fazem sexo anal. Elas podem no máximo introduzir objetos, mas isso não caracteriza o modo como os corpos delas se relacionam. A expressão que aparece na menção dos homens é “deixando o contato natural da mulher”. O que é natural aqui é se relacionar com a mulher, e não se relacionar exclusivamente com a vagina.
Inserir a condenação ao sexo anal como o tópico desse texto traz consequências graves para a ética cristã. Se o homossexualismo está sendo condenado porque faz uso do sexo anal, segue-se que as relações homossexuais que se abstêm do sexo anal seriam, em princípio, corretas, ao menos com base nesses versos. Se dois homens combinassem de apenas fazer sexo oral um no outro, ou se lésbicas fizessem tudo menos introduzir dedos ou objetos no forévis, o texto em Romanos não teria nada a dizer contra tais pessoas. Contudo, é evidente que Paulo pretende condenar as relações homossexuais aqui. O que é antinatural nesse texto é o homossexualismo, porque o heterossexualismo é a norma da criação desde o Gênesis. O que a Escritura classifica como antinatural é aquilo que foi moralmente corrompido, não aquilo que é fisiologicamente contraproducente. O adultério entre um homem e uma mulher é anatomicamente natural, porém é moralmente antinatural.
O sexo anal entre homossexuais é um pecado porque o homossexualismo é um pecado, porém os cristãos inverteram essa correlação raciocinando que o sexo anal é o verdadeiro “pecado original”, e que o homossexualismo é a consequência. Como resultado, homens foram injustamente acusados quando pediram para fazer sexo anal com suas esposas. Já li o depoimento de uma esposa que, diante da solicitação do marido, sentiu-se desonrada e comparada a um homem, e até passou a suspeitar que o marido era um gay em segredo. Essa associação, porém, é um preconceito totalmente sem sentido. O furico é um órgão comum em ambos os sexos, tanto quanto a boca, a bunda e as mãos. O motivo pelo qual os gays fazem sexo anal é apenas por ser o único modo de praticarem o coito, mas isso não lhes dá a titularidade sobre essa prática. A consequência da caracterização do sexo anal como algo essencialmente homossexual é a conclusão de que o sexo heterossexual consiste naquilo que os homossexuais não podem fazer, rejeitando-se aquilo que eles fazem. Porém, os gays também praticam o sexo oral, a masturbação mútua e o beijo na boca. As lésbicas também praticam o sexo oral e o atrito da área pélvica. Se o sexo heterossexual legítimo for a totalidade das atividades sexuais após a subtração das atividades sexuais que os homossexuais praticam, então não sobra nada para os casais héteros, nada além da penetração do pau na vagina, sem beijo e sem toques.
Em vez disso, devemos honrar o sexo heterossexual apresentando-o como aquele que possui a mais rica diversidade de práticas, precisamente porque Deus fez o homem e a mulher para complementarem um ao outro. O sexo homossexual não encena o complementarismo e, por isso mesmo, é empobrecido. Os gays e as lésbicas fazem muito menos do que os héteros fazem, e não mais. Os gays não são os donos do sexo anal. Eles se apropriaram dessa prática para as suas próprias relações pecaminosas, mas ela pertence originalmente ao casal hétero. O casal hétero pode não gostar, não aprovar pessoalmente e nunca usar na vida, mas permanece o fato de que eles são os titulares desse ato, e não os gays.
Por fim, alguns apelam a generalidades que não trazem uma relação conclusiva. O pastor que ralhou comigo sobre a questão da ejaculação na boca também me constrangeu a confessar que o sexo anal era pecado porque era humilhante para a mulher e contra a dignidade dela. Até hoje não entendi onde está a desonra. Outros pastores dizem a mesma coisa sobre sexo oral e sobre sexo na posição de quatro. Haveria violação da dignidade e da honra se o homem constrangesse ou obrigasse a mulher a dar o cu, se ele fizesse de modo a provocar dor, se ele não se importasse com a consciência dela, se sacrificasse o prazer dela pelo dele, e assim por diante, mas o sexo anal não precisa ser assim. Sexólogas sempre dizem que o sexo anal é contra os “princípios cristãos”, mas nunca dizem que princípios são esses. Normalmente, elas recorrem a argumentos científicos, como se o cristianismo dependesse da validação da ciência.
Passemos agora a esses argumentos baseados em ciência e saúde. São aqueles que alegam todo tipo de risco à saúde e violação da fisiologia. Menciona-se o risco de lesões, endocardite bacteriana, as paredes finas e frágeis do reto, e o clássico “o ânus foi feito para excretar, não para receber”.
Toda essa classe de argumentos repousa sobre uma concepção errada da relação entre Deus e a ciência, e até mesmo do que a própria ciência é. Esse é exatamente o problema das sexólogas e de muitos pastores. A teologia deles é ruim. A cosmovisão deles é contaminada por premissas cientificistas, mundanas. O defeito deles reside no que eles assumem como fundamento da fé cristã.
A ciência é útil para muitas coisas e ela pode ser levada em consideração quando tomamos decisões pessoais, mas ela não pode determinar a ética cristã, por dois motivos. Primeiro, por uma questão de autoridade. O cristão está sob autoridade da revelação de Deus. A santidade é um produto da nossa adesão à Palavra escrita. Publicações científicas não têm autoridade para vincular a nossa consciência. Muito se engana quem enxerga na ciência uma espécie de descoberta da tal “lei natural” de Deus. A obsessão por encontrar uma lei natural escondida na ciência induziu muitos teólogos a erros categóricos. A revelação de Deus na criação não é uma revelação de fatos diferentes daqueles que já constam na Escritura. A Escritura não ensina isso em lugar algum. Você não deve somar Bíblia com ciência, ou somar lei escrita com lei natural. É a mesmíssima lei. A diferença está somente no grau de clareza, o que implica que, se a Escritura é a revelação mais clara de Deus, e se não há proposições novas reveladas na criação, segue-se que buscar regras da ética cristã na criação é um empreendimento inútil e enganoso. A Bíblia é suficiente e clara. E ela nunca nos autorizou a somar regras de conduta supostamente extraídas da natureza à lei canônica entregue por Deus na Bíblia. Como ele mesmo disse: nada acrescentarás nem diminuirás.
O segundo motivo é o problema da epistemologia. Já foi provado além da refutação incontáveis vezes: a ciência não afirma verdades. A ciência é sempre pragmática, não descritiva, e mesmo suas vantagens pragmáticas são provisórias. Toda publicação científica é passível de falsificação. Todo cientista é falível. O único que poderia usar o método científico para promulgar um fato é Deus, porque somente ele conhece todas as variáveis e todas as instâncias do presente e do futuro, e somente ele possui sabedoria infinita para estabelecer a ordem correta da imensa teia de correlações do universo. Ademais, somente ele tem poder para sustentar ou alterar essas correlações e para validá-las em cada instância, e somente ele tem conhecimento de si mesmo para publicar o que ele fará com esse poder. Percebe quão fraco é o homem tentando utilizar ciência para descrever a realidade do mundo?
Publicações científicas não levam em consideração o governo poderoso de Deus e sua ação sobrenatural sobre os supostos fatos, nem o relacionamento que Deus firmou com o seu povo baseado na fé e nas promessas. Porém, para os cristãos, isso é o que mais importa. O mundo dos cientistas não é o mundo de Deus. Os riscos à saúde podem ser removidos pela graça de Deus e pela oração. Deus pode nos proteger de bactérias e infecções, e ele pode nos curar de qualquer coisa. Ele pode fortalecer o nosso corpo contra lesões. Cura e proteção são termos da sua aliança conosco. Você pode dizer, “Mas isso é colocar Deus à prova!”. Seria se Deus houvesse proibido o sexo anal na Escritura. Nesse caso, um cristão não poderia praticá-lo e alegar as promessas de cura, pois seria presunção, e não fé. Ou você poderia dizer, “Mas não podemos brincar com as promessas de Deus dessa forma!”. E quem disse que o sexo anal é brincadeira? O casal está apenas explorando as possibilidades de prazer e diversão que o próprio Deus encoraja, como já argumentei por todo o livro. O casal não está tentando se exibir para uma plateia. Não estão testando se a Palavra de Deus é verdadeira mesmo. Estão fazendo algo que Deus não proibiu e confiando na sua Palavra, e cada passo do nosso cotidiano funciona exatamente assim.
O problema moral surgiria se o casal acreditasse que o sexo anal colocará a vida deles em risco, e mesmo assim decidisse fazer. Nesse caso, eles de fato estariam pecando contra o sexto mandamento. A raiz desse pecado, porém, estaria na incredulidade. A confiança deles estaria no que os cientistas dizem, e não em Deus. Por essa razão, as sexólogas e os pastores, ao tentar proibir o sexo anal baseando-se na ciência, acabam por contribuir para os casos de enfermidades decorrentes da prática, pois encorajam exatamente a postura de ceticismo diante de Deus que inibe a recepção de suas promessas de proteção. Todo pregador da incredulidade promove aquilo que ele alega combater.
Quando os cristãos confundem a autoridade sobre a sua ética e ignoram os problemas epistemológicos da ciência, eles invertem a correlação canônica entre pecado e saúde. A Bíblia diz que aquilo que é pecado faz mal à saúde, não que aquilo que supostamente faz mal à saúde é pecado. Se você quiser saber aquilo que Deus – o único infalível e onisciente – afirma ser causa de doença, você só precisa verificar o que é pecado, e você descobre o que é pecado aprendendo a sua lei. Você primeiro define o que é pecado a partir da lei de Deus, e então você declara que esse pecado faz mal à saúde. Idolatria, blasfêmia, assassinato, adultério, pornografia, inveja, roubo, tudo isso faz mal à saúde, porque Deus colocou a enfermidade como uma maldição da lei e como uma medida disciplinar. É um raciocínio inteiramente oposto ao desses cristãos que primeiro verificam o que os homens falíveis e limitados alegam fazer mal à saúde, e então resolvem classificar essa coisa como pecado e excomungar a cristandade inteira por esse critério. Os reformados deveriam ser os primeiros a entender isso, já que eles defendem os seus charutos e cachimbos relativizando o que os cientistas dizem sobre os riscos à saúde associados ao fumo.
A verdade é que quase tudo o que fazemos oferece risco à saúde. Tente reunir tudo o que nutricionistas, médicos e estatísticos afirmam como arriscado à saúde ou à vida, e tente viver à luz de todas as publicações ao mesmo tempo. E tente obrigar toda a igreja a viver assim também, já que todas as publicações adquirem valor de regra moral. Pegue, por exemplo, qualquer artigo que associa o consumo de refrigerante ao desenvolvimento de diabetes. O que um cristão normal faz? Leva em consideração, mas não tanto, e nem enche o saco dos outros. Ele poderá decidir tomar menos refrigerante, ou poderá decidir cortá-lo de sua vida, ou beber apenas em ocasiões excepcionais. Mas isso será uma escolha dele. Ele não irá inserir na confissão de fé da sua igreja um parágrafo dizendo que aqueles que tomarem refrigerante estão em pecado e serão passíveis de disciplina eclesiástica.
Dirigir um veículo oferece risco à vida? Todo mundo sabe que sim. Acidentes em veículos estão na lista das principais causas de morte e hospitalização no país. Mas todo mundo faz. Há procedimentos para dirigir com prudência e responsabilidade, mas você não pode se garantir na mesma sabedoria dos outros motoristas. Sempre pode haver um acidente. Onde estão os cristãos pregando que dirigir é um pecado e que viola o sexto mandamento? Talvez eles digam, “Mas isso é necessário, não há como viver sem dirigir”. Isso é falso. Eles podem andar a pé, ou podem ir morar na roça. Porém, andar a pé traz o risco de ser atropelado ou assaltado, e morar na roça aumenta os riscos de morte por picadas de aracnídeos. E agora? Não há escapatória. O homem sem uma aliança com Deus está vulnerável a tudo. Se tudo o que for arriscado à saúde for pecado, então praticamente tudo o que todo mundo faz é pecado.
Aliás, nem mesmo dentro do universo das atividades sexuais encontramos consistência desses mestres. Sexo anal traz risco de lesão e problemas de saúde? Bem, o beijo na boca também traz risco de contaminação. Ou ninguém sabe que beijar na boca de uma pessoa gripada é um convite ao vírus? Onde estão os legalistas pregando que é pecado beijar na boca do cônjuge quando este está doente? Outro exemplo: o sexo vaginal normal também traz risco de lesão no colo do útero, se o homem foi bem-dotado e meter com força até o fundo. Mas o que as sexólogas dizem sobre isso é apenas para se ter cuidado. Nenhuma delas e nenhum pastor advogam que homens com varas acima de 15cm estão em pecado quando se empolgam na penetração.
E há mais: nem mencionamos ainda o fato de que os próprios cientistas divergem entre si sobre o que faz mal à saúde. Alguns nutricionistas dizem que carne vermelha faz mal, outros dizem que faz bem. Trazendo para o nosso tópico, já li publicações de médicos dizendo que a endocardite bacteriana pelo sexo anal é uma mentira, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Outros reconhecem que há certos riscos, porém os retratam como irrisórios, bastando que se faça com a técnica certa. Então qual cientista eu devo seguir? Certo pastor afirmou que os médicos que negam o risco da endocardite bacteriana o fazem movidos por ideologia, por não quererem desincentivar o sexo homossexual. Bem, e quem disse que os médicos que enfatizam os riscos e os pastores que os apoiam também não são movidos por ideologias? Especialmente levando em consideração que a igreja tem mentido descaradamente sobre prazer sexual desde o segundo século, é razoável suspeitarmos desses teólogos que continuam teimando em uma proibição sem base bíblica.
A histeria sobre o sexo anal atrapalha o raciocínio. Quando alguém diz que o forévis foi feito somente para expulsar e que é uma violação da sua natureza inserir algo nele, eu me pergunto então como os médicos conseguem fazer exame de próstata e as mães conseguem inserir supositórios nos seus filhos pequenos. E, como eu argumentei sobre Provérbios 5, a moralidade de uma atividade sexual não tem a ver com a função fisiológica típica do órgão. É perfeitamente possível penetrar no furico, apenas mais trabalhoso. Há muito sentimentalismo e arbitrariedade nesse tipo de alegação. Nada disso tem relação com a pecaminosidade ou licitude da prática.
A evidência de que os argumentos contra o sexo anal são forçados é que geralmente quem proíbe sexo anal também proíbe o beijo grego e a dedada. Porém, inserir um dedo é muito mais fácil do que inserir um pau. É praticamente certo de que não haverá dor, incômodo ou lesão no interior. O beijo grego então é a coisa mais fácil do mundo, e dá prazer para muitas mulheres e homens. Acariciar o anel por fora também não traz risco significativo de lesão. O que vão alegar então? Que há risco de infecção? Mesmo se a mulher sabe se lavar normalmente por fora? Sinceramente, deveriam condenar os restaurantes também, pelo risco de se contrair tênias. Percebe como essa posição não se sustenta? Quando você escrutina detalhadamente e confronta hipóteses, nota que o alarde não é proporcional à magnitude do suposto risco. A ciência não é uma entidade senciente transcendental. Ciência é o que os cientistas fazem. Eles usam métodos defeituosos, formulam hipóteses provisórias, ignoram variáveis e, no fim, suas conclusões são descartadas por outras mais recentes. Ciência são pessoas. Submeter a consciência humana à ciência é o mesmo que torná-la cativa a homens, e não a Deus somente. É uma forma de escravidão mental a homens. É legalismo. Acrescentar mandamentos é tão odioso a Deus quanto retirá-los.
Eu não gastei tanto tempo falando sobre sexo anal por considerá-lo particularmente importante. Pode ser que ele seja uma má ideia mesmo. Pode ser que os casais terão menos problemas evitando-o totalmente. O que eu quero que você entenda é que os casais cristãos têm o direito de errar. Os pastores têm de permitir que eles cometam erros. Não estou falando de pecados, e sim apenas de erros. Um casal cristão pode tentar o sexo anal por curiosidade e perceber que não foi bom, que não valeu o esforço e que não tentarão de novo. Outro casal pode tentar, gostar, repetir e vir a ter problemas no futuro, em cujo caso eles repensarão sua decisão. Outro pode praticar e nunca ter nenhum problema na vida. O casal precisa se responsabilizar por administrar suas escolhas. Deixe o povo de Deus livre nisso. Ofereça seu parecer pessoal, mas não prenda a consciência de todos os cristãos a uma regra que Deus nunca revelou. Se você não gosta, acha estranho ou tem alguma restrição de consciência, é só não fazer. Seja feliz não fazendo. Como Paulo disse, tudo o que não provém de fé é pecado, e cada um esteja convicto em sua própria mente (Rm 14). Nenhuma parte do meu argumento constitui um incentivo ao sexo anal. Meu incentivo é à liberdade e à verdade. Argumentos ruins e farisaísmo devem ser combatidos sempre, independentemente do que cada um quiser resolver para a sua vida.
Oliver Amorim. Comendo Direito: Introdução à teologia da safadeza matrimonial (2025), p. 66-72. Leia aqui: https://poderliberdade.wordpress.com/