Cigarro Ă© sinĂŽnimo de vocĂȘ. Digo isso porque algo que vocĂȘ carrega no olhar, no canto dos lĂĄbios e nas pontas dos dedos me instiga, mesmo eu nĂŁo sabendo do que se trata. Eu poderia citar todos os tipos de drogas, desde licitas atĂ© ilĂcitas, mas prefiro o cigarro. Ou melhor, vocĂȘ prefere. Somos um triangulo amoroso: eu, vocĂȘ e o cigarro. Eu dizia coisas como âvocĂȘ seria mais interessante se nĂŁo fumasseâ, enquanto vocĂȘ retrucava afirmando que o-seu-mistĂ©rio-estava-na-fumaça. E talvez estivesse mesmo. VocĂȘ fumava e isso nĂŁo mudava o fato de que vocĂȘ continuava sendo um cara com ar superior a todos os outros caras, mesmo tendo plena consciĂȘncia de que os seus pulmĂ”es estariam totalmente debilitados ao longos dos anos. VocĂȘ nĂŁo se importava com as criticas dos demais - nem mesmo com as minhas - e isso era admirĂĄvel. Eu pensava que fumar era o seu pior defeito, atĂ© descobrir que, na verdade, era o que tornava a sua personalidade incomparĂĄvel. NĂŁo quero dizer que sou a favor disso. O que eu quero dizer Ă© que vocĂȘ, mesmo com um ou outro cigarro em mĂŁos, consegue transmitir a imagem de um homem forte, independente, inatingĂvel, imutĂĄvel. E, alĂ©m disso, consegue me ter em mĂŁos tambĂ©m. Uma triste histĂłria pra virar livro: eu era viciada em vocĂȘ, enquanto vocĂȘ era viciado em cigarro. Tentei fazer com que vocĂȘ se viciasse na minha voz, no gosto do meu beijo, no cheiro do meu cabelo, no barulho da minha risada ou em qualquer outra coisa que te livrasse desse mundo cinza. Foi entĂŁo que me dei conta de que o que eu enxergava como uma mera porcentagem de substĂąncias tĂłxicas, vocĂȘ via como um melhor amigo. O cigarro era a sua melhor companhia e a fumaça era a sua melhor amiga dançando no ar. O problema foi que eu demorei muito tempo pra perceber que travar uma guerra contra algo que faz parte de vocĂȘ seria em vĂŁo. Eu enxergava o fim da sua vida baseado em pĂłlvoras, enquanto vocĂȘ encontrava ali um apoio, um consolo, um ombro nas noites vazias. O calor da brasa se movia malemolente entre os seus dedos frios atĂ©, enfim, apagar-se. Compreendi, entĂŁo, que nĂŁo importa quantos segredos vocĂȘ conte ao fogo, ele morrerĂĄ logo e ninguĂ©m precisarĂĄ saber. Talvez o seu vĂcio por cigarros tenha sido causa da falta de abraços verdadeiros, aconchegantes e acolhedores no passado. Um cafunĂ©, um beijo na testa, um ouvido capaz de escutar, quem sabe. VocĂȘ nĂŁo vive tentando levantar alguma bandeira, mas defende a sua. E agora eu entendo isso. Antes eu jogava na sua cara que vocĂȘ poderia ser o prĂncipe dos meus sonhos se quisesse, bastava parar de fumar. A sua atitude nĂŁo foi surpresa pra ninguĂ©m: antes sair da minha vida a ser um prĂncipe que vocĂȘ nĂŁo Ă©. Isso me fez perceber que essas coisas a gente nĂŁo escolhe, o coração Ă© quem distribui as cartas e faz as regras do jogo. Hoje, confesso, eu tambĂ©m me encontro em pleno vĂcio. Pensei atĂ© em procurar por ajuda, se duvidar. Descobri que o amor tambĂ©m pode ser considero uma droga - uma das piores, pra falar a verdade. Ă normal amar tanto alguĂ©m quanto eu aprendi a te amar? O cigarro continua entre nĂłs, mas dessa vez a favor de me ajudar a decifrar os teus enigmas. Lutamos pelo mesmo lado agora. Desde aquele dia, quando eu resolvi te questionar o porquĂȘ. Afinal, qual o motivo? Digo, tantas coisas pra se viciar por aĂ, porque o cigarro? VocĂȘ respondeu sem pensar duas vezes: enquanto uns sĂŁo viciados em cigarro, outros sĂŁo viciados em pessoas. Felizmente sou viciado em cigarro.
Capitule. (via nevarei)













