Drão
Mudei de enderenço. Peço que recolha suas antigas cartas por mim, quando vier conferir o porquê de eu não ter respondido todas elas. Confesso que cheguei a ler duas ou três, te esperei na sacada, no portão, na esquina, nas vielas do centro da cidade e no parquinho do bairro vizinho. Eu te esperaria a vida inteira sem me importar de ver as estações do ano passando, e junto a elas a vida que um dia planejei viver ao teu lado. Mas um evento caótico aconteceu naquele fim de tarde de primavera, enquanto eu estava sentada na calçada, Juliana - minha vizinha - trazia nas mãos bobinhas caseiras de formato cilÃndrico. Ela perguntara como estava a minha vida, e nós conversamos sobre os preparativos do São João. Não contive a curiosidade de perguntar para que finalidade ela usaria aquelas bobinhas, e ela sempre sorridente, dizia que agradeceria no fim da noite pelos objetivos alcançados ao longo do semestre e que findaria seus agradecimentos com uma pequena explosão de bombas, para assim iniciar o novo ciclo de pedidos e posteriores agradecimentos. Costume de famÃlia, dizia. Juliana, que desistira do emprego de garçonete na sorveteria do centro e se lamentava pelos cantos pela vida que a foi imposta, por não ter mais emprego, um grande amor de cinemaHollywoodiano, ou pelo menos uma formação acadêmica, parece ter-se esquecido de tudo naquela noite. Tornou-se uma pessoa agradável ao ponto de eu não querer estragar aquele momento contando-lhe sobre minha rotina de espera o teu retorno. Naquela noite não, eu tivera que esquecer pelo menos por um momento os maus costumes e a auto-sabotagem diária, para deixar minha alma leve e feliz. Comprei vinho e pistache e nós bebemos e comemos, celebramos a vida como nunca havÃamos feito, mesmo morando há anos em apartamentos conjugados, onde eu ouvia seus discos de Joplin e ela, os meus de Gilberto. Como era mesmo que você cantarolava Gilberto, ''Drão não pense na separação não despedace o coração. O verdadeiro amor é vão, estende-se, infinito, imenso, monólito, nossa arquitetura. Quem poderá fazer aquele amor morrer..." Estávamos já cansadas, mas as crianças todas correram, pois Juliana decidira acender as bombas e prometera ser um episódio lindo. Aos poucos os meninos se ajuntaram na sacada do meu apartamento, a rua estava em festa e ela foi aos poucos soltando, uma a uma, e surgia cores de todos tipo; verde, amarela, azul, lilás, vermelha, e tudo parecia um grande arco-Ãris disperso. Alguém lá embaixo gritou: Viva São João! e Juliana rebateu; Viva a vida que só temos uma e pensamos ser imortais! Era isso, Drão, Juliana estava certa, pensamos ser imortais por isso choro, por isso eu grito! Por isso estou te escrevendo, pois depois que as luzes se apagaram percebi que não era e sofri por mim, por ti, por nós. Escondi a dor da tua partida até esse último momento em que meus dedos, já cansados, vai aos poucos finalizando esse pesar. Já não havia espaço na sacada, na cozinha, na minha vida... Eu bebi eu sangue e vomitei célula por célula, globosas, cilÃndricas, iam desfazendo-se aos meus olhos microscópicos. A vida é um caos, te amar é um caos, vou-me embora deste lugar, pois já não há espaço para mim. Juliana fica com os mesmos discos de Joplin, e agora com os meus de Gilberto. Acendi a última bomba que se fragmentou em mil pedaços sangrentos.