morremos todo amanhecer
esse texto não é sobre você, mas acho que vai acabar sendo. um fardo que passei a carregar, babe. esse texto é sobre francisco do apartamento ao lado que acorda todo dia cinco da manhã pra pegar dois metros e um ônibus para ir a um trabalho que o sobrecarregam. ele acorda para a morte e ressuscita todo anoitecer no caminho de volta, para chegar e dar um sorriso pra sua filhinha de dois anos.
esse texto é sobre maria, esposa de francisco, que acorda quatro e meia da matina para preparar o café e o almoço do marido. ela não dormiu bem essa noite. a velhice começa aparecer nas suas olheiras e rugas. seu olhar de sonhadora perdeu o brilho. pensa em fugir e deixar o marido com a filha. “egoísmo? e quem pensará em mim?”.
esse texto é sobre a cidade grande. é sobre passos apressados. é sobre o tempo que dura um pouco menos a cada dia. sobre o suor que lava as calçadas e rega os sonhos. sobre as conversas no telefone. sobre a secretária que dá pro seu chefe na esperança de um aumento. esse texto é sobre menino que se vende na esquina da paulista porque sua mãe é uma alcoólatra e seu pai morreu quando tinha três anos. marcam seu corpo e ele arranha sua alma.
esse texto é sobre a morte que de alguma maneira sempre sai ganhando. ela já me ganhou. e me ganha toda vez que me afogo no papel e choro pelos dedos. porque você se foi, meu amor. e todo dia é esse precipício.
mas o anoitecer tá chegando. ressuscitaremos. todo nós. descansaremos pra morrer pela manhã.
convergido.















