Os porta-retratos estavam todos virados de lado ou para baixo. O moreno havia ajustado a posição dos objetos para evitar olhar para as faces felizes de Henrique e Gwen. Pouco tempo havia se passado desde a morte do casal e ainda estavam de luto. Tinha evitado voltar na casa desde a cerimĂ´nia de velĂłrio. Ele tinha o seu prĂłprio lugar e como Jane tambĂ©m possuĂa. Era estranho estar ali e nĂŁo escutar as vozes do casal, ou entĂŁo o barulho que a pequena Maeve fazia. Com apenas meses, quase completando um ano de idade, a pequena garotinha havia perdido ambos pais. Richard estava preocupado o que seria de sua irmĂŁ, assim como tambĂ©m acreditava que Jane estaria.Â
Desde que terminaram seu relacionamento amoroso devido ao casamento de seu pai com a mĂŁe dela, os dois haviam encontrado muitas intrigas pelo caminho. NĂŁo conseguiam ficar no mesmo cĂ´modo sozinhos sem que entrassem numa briga. Conviviam pacificamente apenas por amor aos seus pais e a nova membro da famĂlia Rowle-Urquart. Sem a presença dos mais velhos e de Maeve, ambos estavam angustiados em cĂ´modos separados. Richard acreditava que Jane estava na cozinha enquanto ele estava na sala se contendo para nĂŁo pegar uma das firewhiskeys de seu pai. Seria mal visto diante de uma assistente social vĂŞ-lo tĂŁo cedo tomando bebida alcoĂłlica. Apenas estavam juntos sob o mesmo teto por Maeve.Â
Desde a morte do casal, a pequena havia sido entregue ao serviço de assistência social e ela viria conversar com eles para decidir o futuro de Maeve. A campainha tocou e Richard virou sua cabeça de supetão. Seu olhar cruzou com Jane no hall da casa. Ela foi mais rápida para abrir a porta e pegar Maeve no colo, os olhos da pequena se iluminando por reconhecer os irmãos. Um sorriso surgiu no rosto de Richard, pegando na mão gorducha da bebê. Recepcionou a assistente apenas com um aceno de cabeça totalmente imerso em Maeve que não a via por dias. Levaram a bruxa até a sala de estar para se sentarem e poderem conversar seriamente. “Posso?” Perguntou a Jane, pois queria segurar Maeve um pouco em seus braços.
Os eventos dos Ăşltimos dias pegaram Jane completamente desprevenida. Em uma tarde a jovem havia deixado o plantĂŁo no St. Mungus para encontrar a mĂŁe e a irmĂŁ mais nova. Havia conversado sobre coisas que nunca antes Gwen havia sequer deixado Jane mencionar. Parando para repensar era quase como se a mĂŁe já soubesse o que estava por vir e quisesse colocar os pingos nos is com a filha enquanto ainda havia tempo para fazĂŞ-los. No dia seguinte veio a notĂcia de que nĂŁo sĂł Gwen, mas Henrique estavam mortos. Fora um choque e tanto para Jane, mesmo nĂŁo tendo convivido por muito tempo com o homem ela o respeitava e sabia que ele fazia sua mĂŁe feliz. E depois de tudo que já havia passado na vida Gwen merecia a felicidade de estar ao lado de um homem que a amava. A impressĂŁo da loira era que a qualquer momento a mĂŁe entraria pela porta da casa, gritando para que Jane a ajudasse a fazer o jantar para a famĂlia. Mas aquilo nĂŁo aconteceria nunca mais. Toda a casa parecia ter morrido junto de Gwen, o silencio reinava por ali e o ambiente parecia ter ficado cinco graus mais frio.Â
Jane havia deixado a casa há pouco mais de cinco anos. E a razĂŁo que a fizera ir embora era a Ăşnica pessoa que estava ali com ela naquele momento. A relação de Richard Urquart e Jane Rowle era, no mĂnimo, complicada demais. Mesmo frequentando Hogwarts ao mesmo tempo, apenas conheceram-se de fato por intermĂ©dio dos pais em uma festa – festa essa da qual os adolescentes fugiram juntos, acabando em uma boate que Jane nem ao menos sabia onde era. Tudo acontecera rápido demais, fora quase como uma conexĂŁo instantânea. Mas quando voltaram para casa na manhĂŁ seguinte e encontraram os pais desesperados para saber onde haviam passado a noite, Richard e Jane descobriram que passariam a viver sob o mesmo teto já que Gwen e Henrique se casariam dentro de alguns meses. No começo Jane cortou toda e qualquer relação com o garoto, queria respeitar a decisĂŁo de sua mĂŁe, mas era difĂcil demais resistir, principalmente quando estavam longe dos olhos dos pais. Entretanto, nĂŁo era algo que eles pudessem assumir. E a espera que Richard sempre impunha a Jane foi tornando tudo mais insuportável ainda para ela. AtĂ© o momento em que Urquart a encontrou com outro. Aquele dia foi o Ăşltimo de Jane sob o mesmo teto que Richard e a famĂlia feliz que Gwen e Henrique formavam agora ao lado de Maeve, a filha mais nova deles.
Felizmente Maeve não estava com Gwen e Henrique no momento do acidente. E como irmãos da pequena, Richard e Jane ainda estavam na casa à espera da assistente social que traria Maeve de volta para casa. Naquela tarde seria tomada a decisão de com quem a irmã ficaria, Jane já havia deixado claro para Richard que não se importava de ser a responsável legal de Maeve, ela queria aquilo. Quando ouviu a campainha soar, Jane levantou-se e trocou um olhar com Richard antes de correr para a porta e atende-la, revelando a assistente social com Maeve. Num impulso Jane tomou a irmã nos braços, a abraçando forte. “I’m here now, my princess. Sis is here.” Beijou o topo da cabeça da criança. Acenou e sorriu para Richard quando ele perguntou se podia segurar Maeve também, Jane não negaria aquilo para ele. Passou a irmã para o colo do rapaz e limpando algumas das lágrimas que escorriam por seu rosto seguiu com a assistente até a sala, indicando para que ela se sentasse em um dos sofás. “Quais são os termos, Stefanie? Ela vai poder ficar com a gente?” Jane perguntou, dando espaço para que Richard sentasse ao seu lado.