Para o batedor, Hogwarts estava insustentável. Albus já estava farto de todos aqueles olhares que lhe eram lançados pelos corredores. Estava acostumado a eles-primeiro porque era um Potter e, segundo porque sabia que, embora não fosse dado a diálogos dóceis, era um deleite aos olhos- mas tudo havia mudado com a morte de Harry. O misto de pena, consternação e desconfiança agora pairava sobre os olhares, lançados a ele de soslaio, como se ele fosse um tolo e não fosse notar. Vinha passando boa parte dos dias no dormitório sonserino, sob as sombras ululantes do lago negro, mas estava começando a se sentir fraco e covarde por isso, sem falar que sua melancolia causava certo desconforto nos colegas de casa, não que este último ponto fosse um problema seu. Já tinha muitos para lidar.
Além de estar alerta por si mesmo, ainda sentia a necessidade de estar alerta por seus irmãos, primos, por seus amigos. Todos estavam imersos num estado de torpor que ele também parecia estar, mas algum deles já tinha despertado para o fato de que o mundo que eles conheciam estava a um passo de ruir?
Pensou que, talvez, fosse bom voltar para a casa. Mas era natal e, desta vez, a costumeira sensação de aconchego que a data trazia não havia dado sinais que participaria das festividades da família. O silencio que pairava pela Toca era ensurdecedor. Quantas vezes Albus já desejara um minuto de tranquilidade na casa dos avós, em meio a toda a algazarra dos primos e irmãos? Muitas, mesmo que na maioria das vezes ele acabasse se rendendo às brincadeiras e se tornando parte da bagunça. Mas, daquela vez, não havia algazarra ou brincadeiras. Não se ouviam as gargalhadas e brigas afetadas. Ele umedeceu os lábios quando o pensamento o açoitou.
Estava se mantendo aparentemente bem. Já bastavam as crises de choro de Lily e a postura impassível de James (que Albus, bem conhecendo o irmão, sabia não passar de uma fantasia de filho perfeito e o grande homem da casa). De uma forma ou de outra, os Potter tentavam se reerguer e, no processo, dar suporte à mãe.
Os olhos pousaram sobre James, absorvendo seu comentário. Se sentia da mesma maneira em relação à Toca, mas não se daria ao trabalho de contar isso a todo mundo que estava por ali. Em vez disso, cruzou os braços se jogando no sofá puído.
“Não acho que a vovó vai gostar da ideia do menino de ouro morando no sofá.”- resmungou, a voz carregada de sarcasmo e as sobrancelhas pondo-se em riste por um momento. – “Vai por você para desgnomizar o jardim assim que acabar o peru”.