...esses dias que eu não posso imaginar o que é viver desejando ser algo diferente do que eu sou, deve doer muito, e por isso o mundo está doente.
Percebo que, quando não amamos o que somos, exigimos dos outros que sejam aquilo que gostaríamos de ser, o nosso eu utópico. E essa ingratidão ao que é intrínseco nos intoxica, nos impossibilita de atingir qualquer coisa próxima da felicidade e, além de nos sobrecarregar com frustrações, nos faz depositá-las por via de regra em pessoas que vivem o oposto. É pela hipocrisia de quem deseja, talvez, ser exatamente como nós em essência, que somos convencidos o tempo todo a desejar outra vida, outro corpo, outra voz.
Canso de ver gente postando "obrigado vida", enquanto deseja ter a vida do outro, ou um upgrade na vida que tem.
Ser grato é amar-se do jeito que é, com as coisas que gosta, e o cheiro que tem. Amar-se, ao contrário do que muita gente pensa, não é sentir-se melhor em qualquer aspecto do que outra pessoa, ou todo mundo. Amar-se é ter a certeza de que é o melhor que pode dentro das suas crenças e virtudes, e saber que cada outro tem as suas. Ser grato não é necessariamente expressar a sua gratidão à Deus ou aos seus amigos com a palavra "obrigado" o tempo todo, mas saber reconhecer quando o universo nos dá a oportunidade de retribuir quem nos estende a mão ou divide o ombro. Amar-se é respeitar as trocas que viver nos proporciona e ser involuntariamente tão bom para o outro quanto você gostaria que fosse para você, entendendo que é um ciclo, que vai e volta. Amar-se é se divertir onde quer que seja, na companhia de quem quer que seja. Amar-se então é ser feliz. Ser feliz consigo, mas não sozinho. Só ama a si, quem ama o outro.