Não era possível que tu não me amasse como se ama uma queda? Que me quisesse como o deserto anseia por ventos amenos? Você me ajuda a construir armadilhas nas quais cairemos juntos. Era preciso tanto que você me amasse por aquilo que escrevi. Era preciso que demorasse os olhos nos meus abismos. Não que me jogasse lá de cima, sobre teus barrancos escorregadios, altíssimos de mais pras minhas vontades de escalada. Não percebe que as coisas entre nós foram ficando cada vez mais assoberbadas por uma violência contida? Como eu poderia ser salvo ou te salvar se, em cada beijo, me sentia com uma mão limpando teu vômito e com a outra te ajudando me afogar a cara na privada? Sinto por ti vontades tão violentas como se me fossem arrancados os olhos: sabendo que me era negado a vista, eu sempre sentiria falta daquilo que deveria ser meu. Serei sempre uma velha cega tateando sua vida, no escuro. Fracas tentativas receosas de tropeço. Não amar você foi o jeito que encontrei de me violentar menos nesse jogo de ruínas. - Michael Letto























