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Te esperei como quem espera um cometa: sem controle, sem garantias, apenas olhando o céu vezes demais. E eu me conheço: sei que em algum dos milhares de universos que existem dentro de mim, alguma parte minha continuará te esperando em silêncio. Mas aqui, nesta realidade, eu te encerro. Não por falta de amor, talvez justamente por ele existir, porque alguma parte minha te olhou um segundo a mais do que deveria e toda distância se reduziu a um
"vem cá".
m, tô buscando uma forma de te falar que fiz outras tatuagens nesse meio tempo. uma delas, entre agulhadas e caretas, me fez pensar em cada traço, no que merece permanecer quando todo o resto passa, no que a gente escolhe carregar mesmo sabendo que não volta a ser só memória. e, no meio disso, pensei em você. talvez você tenha sido um ponto de luz distante que quis alcançar, como ícaro. mas não voei até o seu sol. não por falta de vontade, talvez por lucidez. o que fiz, à minha maneira, foi mergulhar no egeu. não o mar dele, mas uma outra imensidão: aquela que cabia em um olhar meu atravessando milhares de fótons até chegar aos seus olhos. e, nesse percurso invisível, algo acontecia. não era toque. não era palavra. não era promessa. era frequência. como se, por um instante raro, a energia encontrasse a medida exata pra existir entre nós. nem mais, nem menos. o suficiente pra ser real e talvez exatamente por isso, impossível de sustentar. algo tão preciso quanto um número impossível de imaginar por inteiro: 6,626 × 10⁻³⁴. quase nada… e ainda assim, suficiente pra sustentar tudo. e talvez tenha sido aí que tudo começou a fazer sentido de um jeito estranho. porque não era sobre proximidade. nunca foi. era sobre esse espaço suspenso, esse campo silencioso onde algo vibrava sem precisar se concretizar. como se o próprio acontecimento estivesse na possibilidade e não na realização. você nunca foi inteira presença. mas também nunca foi ausência. e foi nesse intervalo que algo em mim se organizou… e se perdeu ao mesmo tempo. não em você, exatamente, mas na tentativa de entender o que em mim acendia quando você aparecia. porque você acendia. de um jeito silencioso, contido, quase irresponsável na sutileza. como uma luz que não invade, mas também não pede licença, só existe… e altera tudo ao redor. e eu percebia isso nas coisas pequenas: no tempo que desacelerava sem motivo, na forma como um pensamento voltava sem ser chamado, na sensação de que algo tinha mudado, mesmo quando nada, de fato, tinha acontecido. era como se o corpo reconhecesse antes da razão. como se existisse um saber anterior à explicação, um tipo de percepção que não pede lógica pra se legitimar. e talvez por isso eu tenha ficado. não por você, necessariamente, mas por esse estado que surgia quando você estava. existe um lugar muito específico entre se aproximar e se afastar. e foi exatamente ali que eu permaneci. sem avanço, sem ruptura. só permanência. como quem observa um fenômeno raro sem tentar capturá-lo. eu não cheguei perto o suficiente pra me queimar. mas também não fiquei longe o bastante pra esquecer. então fiquei ali, nesse ponto exato onde a física tenta explicar o que o corpo sente. onde energia e frequência se encontram na medida exata, onde tudo vibra o suficiente pra acontecer, mesmo que por um instante, e depois retorna ao silêncio como se nunca tivesse sido. e, ainda assim, foi. e talvez tenha sido isso. algo mínimo, quase inexistente, mas suficiente pra alterar o estado de tudo ao redor. como um valor tão pequeno que beira o irrelevante, mas que, uma vez inserido na equação certa, muda completamente o resultado. talvez você tenha sido isso. o valor mínimo necessário pra que algo em mim deixasse de ser potencial e virasse acontecimento. não durou. não se concretizou. não teve nome. mas teve energia. e energia, uma vez existente, não desaparece. se transforma, se desloca, se reorganiza, mas permanece, de algum modo. e talvez seja por isso que você ainda exista em mim. não como presença, não como ausência… mas como uma frequência específica que, de vez em quando, ainda ressoa. e, no fim, é isso que permanece.

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eu, que não sou tão emoção assim, às vezes me pegava demorando meio segundo a mais no que deveria ser simples. no seu olhar, no jeito como você falava, no silêncio que ficava depois. e eu fingia normalidade. sempre fingia. como se nada atravessasse, como se você não encostasse em lugar nenhum em mim. mas encostava. de um jeito discreto, quase invisível, mas suficiente pra bagunçar o que eu gosto de manter em ordem. não era sobre toque, nunca foi. era sobre presença. sobre essa forma estranha que você tinha de existir perto demais do que eu fingia não querer. eu dizia que era impressão, que era coisa da minha cabeça, que era só mais uma leitura exagerada minha. mas tinha algo que não encaixava nessa versão confortável. porque quando você aparecia, alguma coisa em mim prestava atenção demais. e eu odiava isso. odiava não conseguir ser indiferente, não conseguir tratar como qualquer outra coisa. eu continuava conversando, continuava olhando, continuava ali como se estivesse tudo sob controle. mas não estava. nunca estava quando era você. tinha um cuidado que eu fingia não ter, uma atenção que eu disfarçava, uma curiosidade que eu não nomeava. e talvez você nem percebesse. talvez percebesse e escolhesse não fazer nada com isso. e talvez fosse exatamente isso que sustentava tudo nesse lugar seguro e perigoso ao mesmo tempo. porque não aconteceu. e justamente por isso, permaneceu. eu não precisei te tocar pra saber que alguma coisa mudaria se isso acontecesse. talvez fosse intensidade demais, daquelas que marcam antes mesmo de acontecer, como se até o dna de um beijo que nunca aconteceu ainda assim encontrasse um jeito de ficar. e talvez tenha sido por isso que eu mantive a distância que pude. não por desinteresse, mas pelo contrário. porque tem coisas que, quando atravessam, não voltam a ser o que eram. e você tinha esse efeito estranho em mim. não chegava a ser evidente. não chegava a ser dito. mas também não passava. ficava ali, sustentando um tipo de presença que não ocupava espaço, mas também não liberava. e eu segui. segui fingindo que não era nada. que era só mais um encontro, só mais uma conversa, só mais um olhar qualquer. mas não era qualquer. nunca foi. e no fundo, eu sei. eu sei que se a gente tivesse atravessado esse limite, não teria volta pro lugar confortável onde tudo ainda podia ser negado. então eu fiquei ali, nesse quase. nesse lugar onde nada aconteceu de fato, mas tudo aconteceu o suficiente pra não ser esquecido.
m, sobre o que guardei e não disse.
quero que você saiba que tentei te evitar de todas as maneiras, com todas as armas possíveis: a indiferença, a arrogância, o “tô nem aí”. tentei fingir que não me afetava, que você não atravessava nada em mim. falhei. assim como falho sempre que o assunto é você. eu não sei ser indiferente, não sei disfarçar, não sei fingir. eu sinto. esse é o problema. quero dizer que passou, mas doeu. doeu como ser atropelada e levantar fingindo que está tudo bem. três pessoas miraram bem no meio da minha testa e atiraram: “tá sabendo?”. não, eu não estava. e nem queria. mas soube. e juntei forças de um lugar que nem sei onde fica pra fingir que não me atingiu. “é? e daí?”, eu disse. mentira. atingiu. atingiu a ponto de eu evitar o mesmo espaço, o mesmo ar, até o risco de um encontro de segundos. porque qualquer segundo perto de você fazia algo em mim lembrar como batia antes. e isso doeu em algum lugar que eu não sei nomear. eu só quis romper com a película que fazia o meu peito vibrar quando era você. e isso me assusta mais do que deveria. tentei falar sobre isso com você. mais de uma vez. mas antes mesmo de começar, aquela voz aparece: “pra quê?”. e eu travo. porque as pessoas não são cuidadosas com o que tocam. e eu aprendi a medir palavras como quem anda sobre vidro. “a vida é dela”, eu repito, e fujo. nem sempre por maturidade. às vezes me pergunto em que ponto se perdeu aquela versão em que você disse “a gente podia fazer mais isso”. onde isso ficou pelo caminho? porque, se eu for honesta, sinto falta. falta daquela meia hora roubada da rotina, de poucas palavras que não pareciam importantes, mas sustentavam o dia inteiro. sinto falta de algo simples demais pra explicar e grande demais pra ignorar. eu tentei me convencer de que era exagero. de que era só mais uma história inventada pra dar sentido ao caos. mas não era. porque quando penso em você, não penso em romance. penso em impacto. em colisão. em algo que não pede licença e deixa marcas que não aparecem no corpo, mas ficam ali, pulsando, lembrando que eu ainda sinto, mesmo quando finjo que não. o mais cruel é que eu não te quis no sentido comum da palavra. eu te quis no lugar perigoso. no lugar onde a gente perde alguma coisa ao entrar. onde o controle escapa, onde a razão não governa, onde tudo fica nu demais pra fingir que é só curiosidade. talvez por isso eu tenha tentado te apagar. não por falta de interesse, mas por excesso dele. e falhei. porque certas presenças não aceitam ser reduzidas ao silêncio. elas voltam no gesto involuntário, no pensamento que surge sem aviso, na memória que insiste quando a gente acha que já fechou a porta. você virou esse tipo de lembrança: não confortável, mas real demais pra ignorar. quando eu disse, ao telefone, “eu não gosto mais de você”, e você respondeu “me pergunto se um dia já gostou”, algo em mim rachou. não existe “se”. eu gosto de você. mais do que é confortável admitir. e talvez por isso eu tente tanto me afastar. porque gostar de você me tira do eixo. e eu detesto perder o eixo. mesmo assim, continuo voltando. contra o que seria mais seguro. você segue sendo esse “vem cá” silencioso que me puxa mesmo quando eu finjo que não ouvi. eu tentei te apagar. tentei te reduzir a uma lembrança mal resolvida, a um nome que não pesa. você não obedeceu. você nunca obedeceu. você ficou. do jeito mais indecente possível. eu disse que não gostava mais de você porque era a única frase que eu tinha pra me proteger. porque admitir o contrário exigiria assumir que você ainda me alcança. mesmo sem tocar. mesmo sem ficar. não escrevo esperando resposta. nem explicação. nem promessa. escrevo porque algumas verdades só existem quando são ditas.
mas se um dia você quiser me conhecer de novo, saiba: eu não sou mais a mesma.

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lisa troyanovskaya
A verdade é que você foi a última pessoa que vi nos meus últimos cinco minutos. E eu não tive coragem de usar esse tempo pra te dizer tchau com a mesma firmeza que tive com todo o resto. Você foi o tchau que eu não ensaiei. O que eu não quis dar.
Eu fui embora de muita coisa naquele dia. De alguns lugares sem olhar pra trás, de outros olhando só um pouco. Mas de você eu não fui. Tem uma parte minha que ainda ficou ali, parada naquele instante em que eu te vi e escolhi ir embora mesmo assim.
Tenho seguido, tentando me encaixar nessa vida nova, nesses caminhos que eu escolhi. Mas aqui dentro tem uma saudade sua. E é uma saudade que não faz barulho, não pede atenção, só fica. Como se sempre tivesse existido.
Penso no abraço que eu não te dei. Nos abraços que eu segurei. Eu queria ter te abraçado de verdade, daquele jeito que faz a gente fechar os olhos e respirar fundo, como se o mundo parasse um segundo só pra caber ali dentro. Acho que eu saí sem me despedir justamente porque sabia: se te abraçasse, eu não ia saber ir embora depois.
Tem umas confissões bobas que eu nunca disse. Tipo abrir sua conversa, digitar um “oi pessoa” e ficar olhando pro nada, imaginando que você tá online e vendo o “digitando” aparecer. Eu nunca mando. Mas às vezes fico ali, como se isso já fosse alguma forma de estar perto.
Sinto falta de você de um jeito simples. No meio do dia, do nada. Quando acontece alguma coisa e eu penso que queria te contar. Quando lembro de algum detalhe pequeno e me dá vontade de dividir com você como se ainda fosse natural.
E acho que o que mais pesa é saber que eu não consegui te dizer o quanto você era importante antes de sair. Ficou tudo guardado, quieto, mal resolvido dentro de mim.
Às vezes penso que te deixei num daqueles lugares sagrados que a gente visita uma vez e nunca esquece o caminho. Um lugar silencioso, onde ainda existe eco. Eu sigo vivendo, atravessando outras ruas, aprendendo outras rotinas, mas tem uma parte de mim que ainda se senta ali por dentro, só existindo.
Tem dias em que essa saudade vem leve, quase bonita. Como vento entrando pela casa e mexendo em coisas que eu nem lembrava que estavam ali. Em outros, ela vem mais cheia, puxando devagar, ocupando espaço no peito sem pedir licença.
É estranho perceber que algumas pessoas passam pela nossa vida como se sempre tivessem sido nossas. Sem esforço, sem explicação. Como se a alma reconhecesse antes da cabeça entender. Você foi assim pra mim. Uma familiaridade antiga, dessas que a gente não sabe de onde veio.
Talvez por isso a despedida tenha ficado atravessada. Não parecia uma despedida qualquer. Parecia interromper uma história que ainda estava sendo escrita.
Eu sigo. Eu realmente sigo. Mas levo comigo essa sensação de que, em algum ponto do caminho, nossas histórias ainda se encostam de novo. Nem que seja só por um instante, só pra eu finalmente te dar aquele abraço que ficou guardado.
Porque tem coisas que a gente não resolve indo embora.