“Pálido Ponto Azul”/”The Pale Blue Dot”
“Sou atormentado por um desejo constante pelo que é remoto. Gosto de navegar mares proibidos...”. Moby Dick
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anachronism
/əˈnækrəˌnɪzəm/
n.
1640s, "an error in computing time or finding dates" from Latinanachronismus, from Greek anakhronismos, from anakhronizein "refer towrong time", from ana- "against" + khronos "time”. Meaning "something out of harmony with the present" firstrecorded 1816.
from dictionary.com
One more dimension of dust explosion!
“Pó” performance. Sala Ilustrada/Ateliê Catarina Gushiken. Tela ao fundo de Vinícius Campos.
15/04/2015
Freedrawing of Yuko Kaseki’s picture. Face study. Lines defining body’s form.
What defines form/format?... Movement?
Fig.1 (Axel Vervoordt) Bastet Cat Egypt Late Period, XXVI Dynasty, c. 664 - 525 B.C. Bronze with exceptional patina H 40 cm x W 87 cm x D 23 cm. From pinterest.com
Fig.2 Grafitti on paper. My freedrawing. 13/04/2015.

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“Talvez o pó seja o próprio tempo, suporte da consciência. Talvez o corpúsculo material se confunda com o instante.” Alfonso Reyes
Fotografia: Ulisses Candal Sato sobre o solo “Pó” de Adriana Omoto.
PALINÓDIA DO PÓ - Alfonso Reyes
“É esta a região mais transparente do ar? Que fizeste, então, de meu alto vale metafísico? Por que se embaça, por que amarelece? Deslizam sobre ele como fogos-fátuos os pequenos remoinhos da terra.
Caem sobre ele mantos de sépia, que roubam profundidade à paisagem e precipitam num só plano espectral distâncias e proximidades, dando a seus traços e cores a irrealidade de uma decalcomania grotesca, de uma velha estampa artificial, de uma folha prematuramente murcha.
Mordemos com nojo o areísco. E o pó gruda na garganta, abafa-nos a respiração com as mãos. Quer nos asfixiar e quer nos estrangular. Gritos subterrâneos chegam encobertos na nuvem de pó, que mata o rei debaixo de sua manta. Chegam disparos invisíveis, ataque traiçoeiro e sem defesa; lenta dinamite microbiana; átomos rebelados e que obstam toda forma organizada; a energia supranumerária da criação ressentida por se saber inútil; vingança e vingança do pó, o mais velho do mundo. Último estado da matéria, que nasceu entre a bênção das águas e - através da viscosidade da vida - primeiro se reduz à estatutária mineral, para afinal explodir nesta desagregação diminuta de tudo o que existe. Microscopia das coisas, a caminho do nada; aniquilamento sem glória; desmoronamento de inércias, entropia; vingança e vingança do pó, o mais rasteiro do mundo.
Oh, dessecadores de lagos, cortadores de bosques! Cerceadores de pulmões, quebradores de espelhos mágicos! E quando as montanhas de andesina vierem abaixo, no desmoronamento paulatino do circo que nos protege e ampara, vereis como, sorvido no negro funil giratório, tromba de lixo, nosso próprio vale desaparece. O deserto cansado da injúria das cidades; cansado do protesto humano, que urbaniza por onde passa, o pó calcado contra o solo; cansado de esperar por séculos e séculos, e então: arremete contra as graciosas flores de pedra, contra as moradas e as ruas, contra os jardins e as torres, as nefastas cavalarias de Átila, a ligeira tropa selvagem de cinzentos e amarelos cascos. Vingança e vingança do pó. Planeta condenado ao deserto, a onda muçulmana do redemoinho de pó se prepara para varrer teus rastros.
E quando já formos formigas - o Estado perfeito -, trilharemos as avenidas de cones feitos de fiapos e de bolas de pó, orgulhosos de acumular os tristes resíduos e novelos de poeira; ineptos para a unidade, parcelas órfãs da soma; ineptos para o indivíduo, ineptos para a arte e o espírito - que só se concretizaram entre as repúblicas mais atrevidas, Grécia e a Itália Renascentista -, repetindo, talvez, com o romântico, cuja voz mal se escuta, que a glória é um cansaço tecido de pó e de sol.
Futuro minguado! Pó e sopor! Não te enganes, gente que assenta as bases sobre um subsolo fofo, onde as casas afundam, as paredes racham e as fachadas descansam. Rendem-se um por um teus monumentos. Teu vate, tornado pó, não poderá soar seu clarim. Tuas igrejas, barcos na ressaca, perdido o prumo, mostram as cruzes inclinadas. Oh, vale, és mar de parcimonioso vaivém! A medida de tua onda escapa às gerações. Oh, figura dos castigos bíblicos, afundas e te varres! ‘Cem povos apedrejaram este vale’, diz o poeta Carlos Pellicer em ‘Retórica del pasaje’.
Entrem e comprem: tudo está cuidadosamente envolto em pó. Espera-se a catástrofe geológica brincando: origem da arte, que é um ficar de caçoadas com a morte. Nápoles e México: sujeira e canção, dizia Caruso. Terras de desagregação vulcânica, filhas do fogo, mães das cinzas. O cachimbo de lava é o compêndio. Um Odisseu terreno, sulcado de cicatrizes, fuma nele sua filosofia dissolvente. Stevenson reconhece um dia, horrorizado, que toda matéria produz contaminação poeirenta, que tudo se liga pela sujeira. Qual seria, ó Ruskin, a verdadeira ‘ética do pó’? No pó se nasce, nele se morre. O pó é o alfa e o ômega. E se fosse o verdadeiro deus?
Talvez o pó seja o próprio tempo, suporte da consciência. Talvez o corpúsculo material se confunda com o instante. Daí as aporias de Zenão, que acaba negando o movimento, engano do móvel montado numa trajetória, Aquiles de alígeros pés que ofega atrás da tartaruga. Daí a exasperação de Fausto, o pulsar da felicidade lhe escorrendo entre os dedos: ‘Para. Eras Tão belo!’. Pó de instantâneos que a mente tece numa ilusão de continuidade, como a que trama o cinematógrafo. Pela lei do menor esforço - a conservação da energia de Fermat -, o ser percebe por unidades, criando para si aquela ‘aritmética biológica’ de que fala Charles Henry, aquela noção dos números cardinais em que repousa a própria teologia de São Tomás. O borrão de pontos estáticos sucessivos deposita, nos sedimentos da alma, a ilusão do fluir bergsoniano. As mônadas irredutíveis de Leibniz encadeiam-se como átomos ganchudos. A filosofia natural debate-se no conflito do contínuo e do descontínuo, da física ondulatória, apaixonada por seu éter-cavalo, e da física corpuscular ou radiante, atenta apenas ao átomo-cavaleiro. O pó cavalga na onda ou é a onda?
O cálculo infinitesimal mede o jorro do tempo, o cálculo dos quanta crava suas tachas imóveis. A síntese? A continuidade, diz Einstein, é uma estrutura do espaço, é um ‘campo’ a la Faraday. A unidade é foco energético, fenômeno, átomo, grão, talvez, de poeira. Heráclito, mestre do fluxo, deixa-se medir palmo a palmo por Demócrito, o captador de areias. O rio, diria Gôngora, resolve-se num rosário de contas.
Por que não imaginar Demócrito, àquela hora da manhã, quando as Musas falam, segundo pretendiam os poetas, debruçado nos estudos, a fronte apoiada na mão, transitoriamente absorto, num daqueles bocejos da atenção que o estro aproveita para espicaçar a consciência com partículas da realidade circundante, rajada do pó do mundo, ferimento cósmico que talvez alimente as ideias? Um raio de sol, ainda morno do amanhecer, atravessa a estância como uma bandeira e luz, como a vela fantasmática de um navio. Rede vibratória que capta, em seu curso, a vida invisível do espaço. Deixa ver, aos olhos do filósofo atônito, todo esse enxame de rede da luz. O filósofo mergulha a mão no sol, agita-a levemente e organiza torvelinhos de pó. A intuição explode: nasce em sua mente a figura do átomo material, que não existiria sem o pó. O átomo é o último termo da divisibilidade na matéria. Ao menos na intenção, porque admite divisores cada vez mais íntimos. Sem o átomo, a matéria seria dispersável e não divisível. Todo conjunto é uma soma, um acordo de unidades. De onde unidade e átomo e pó voltam a ser a mesma coisa.
Em seus quadros provisionais, a ciência ainda não concedeu a dignidade que cabe ao estado poeirento, ao lado do gasoso, do líquido e do sólido. Tem, sem dúvida, propriedades características, como sua aptidão para os sistemas dispersos ou coloidais - onde nasce, quem sabe, a vida -, bem como - talvez por desdobramento de superfície - sua disposição para a catálise, essa misteriosa influência da matéria que já se parece tanto com a guarda vigilante de um espírito ordenador. Será que o pó pretende, além do mais, ser espírito? E se fosse o verdadeiro deus?
México, 1940
Tradução de Josely Vianna Baptista
(extraído do livro “In a Given Situation” - Francis Alys)
From the book “In a Given Situation” - Francis Alys
“Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett, Worstward Ho, 1983.
TEMPO: A PARTE DE FORA DA IMAGEM (extraído de “A Gênese de Um Corpo Desconhecido”- Kuniichi Uno)
“Leroi-Gourhan, em Le geste et la parole [O gesto e a palavra], chama a atenção para o processo através do qual a mão se livra da função motora e a boca daquela de colher e morder o alimento. Desta maneira, a mão começa a desenhar e a escrever, a boca começa a falar, temos, então, a grafia e a fonia. Realiza-se um encontro maravilhoso entre a letra e a voz, o ser e a palavra, o olho e a mão, a mão e a boca... a lista de disjunções é inesgotável.
Uma vez que somos tão sensíveis a todo tipo de disjunções e deiscências, o cinema, com todas as suas operações de montagem e ligação entre os planos, entre as imagens e o som, pode-nos colocar, em níveis diferentes, toda uma série de problemáticas das sínteses orgânicas e das disjunções.
Em A imagem-tempo, Gilles Deleuze revela uma dimensão do cinema em que as ‘situações ópticas e sonoras puras’ se acentuam cada vez mais ao abandonarem uma outra dimensão, aquela da imagem-movimento que, a partir das situações sensório-motoras, articulava o tempo como quantidade ou medida do movimento. O tempo parte, finalmente, para fora do movimento através das situações sonoras e visuais puras, é o novo realismo italiano que esboçaria todos os signos da imagem-tempo. Nesse segundo volume sobre cinema, Deleuze acentua cada vez mais as disjunções entre a imagem visual e a imagem sonora, entre aquilo que vemos e aquilo que ouvimos, e tudo que sai do interstício entre os dois. Todo tipo de figuras do tempo aparece entre a imagem e o som.
(...)
Com uma série de criações cinematográficas, o cinema faz aparecer toda a disjunção que atravessa as imagens sonoras, visuais e a montagem. Algo sai dos enquadramentos, para fora do gonzo. Essa saída é a descoberta de um certo tipo de tempo, uma inversão fundamental das relações entre o tempo e o movimento, o tempo e o espaço. O tempo é, então, a figura dessa saída, dessa parte de fora.
O tempo é, antes de tudo, uma figura de repetição, do retorno à mesma coisa, mas que produz, a cada vez e infinitamente, aquilo que é diferente, que se diferencia, que se disjunta. O tempo é uma forma de repetição, mas o tempo vivido é uma realidade de diferenças infinitas. Diante desse tempo que se diferencia indefinidamente, o eu idêntico, o sujeito e os objetos são absolutamente indeterminados, o tempo está fora de tudo isso. O tempo, ele mesmo, é o fora, ‘o pensamento do fora’.”