Eu tenho sido uma fonte imensa de decepção pra mim mesma nos últimos tempos. Construí uma enorme alcova pras minhas mais genuínas características e enterrei tudo lá, o mais fundo que pude. Passei anos e mais anos fingindo ser o que eu não era. O que eu não queria ser. E principalmente o que eu não podia ser. Quantas horas gastei na frente do espelho me dizendo, olhando nos olhos, o quanto eu era insuficiente, o quanto eu só tinha defeitos. Não me esqueço das vezes em que catei amor por todas as brechas dos paralelepípedos das ruas por onde passava, migalha por migalha, pra ver se quando a sacola enchesse eu conseguiria suprir a minha falta de amor por mim mesma. Idealizei um príncipe encantado e um anti-herói, qualquer cara que viesse e eu pudesse amar, e o mais importante me entregar, não no sentido literal da frase, nem no romântico muito menos, isso seria só a consequência da eu que ansiava por me jogar fora de mim, como lixo que me considerava, e desesperadamente dizer pra essa pessoa. - Me ama, porque eu não consigo me amar. Me cuida, porque eu não sei mais me cuidar. Me enxerga, por que tudo o que vejo é nada em mim. Um enorme nada. Nada sobrou quando esvaziei o que eu era pra fingir ser o que eu não sou. Ontem de noite, eu presenciei uma agressão doméstica no meu bairro. O meu vizinho, um cara que mora no quintal da minha casa, colocou a faca no pescoço da companheira dele. Eu ouvi ela gritar, pedindo pra parar e eu não fiz nada. Passou por minha cabeça todos os pensamentos clichês que "justificam" não "meter a colher" no relacionamento de outras pessoas. Quando eu percebi o que tava fazendo eu peguei o celular e disquei 180, eu queria ligar mas, meu pai disse que quem tinha que ligar e denunciar era ela, eu ouvi calada motivos pelos quais a agressão havia acontecido e nenhum desses motivos colocava o homem como culpado. Ouvi ele repetir o discurso que a mulher era muito "atrevida", se relacionava com "essas pessoas", ouvi também que a nossa locatária alugava casa pra "todo tipo de gente", e eu, adivinhem eu não denunciei. Eu deveria pelo menos conhecer a minha vizinha, ir oferecer apoio, um café? Ela tava lá com o filho sozinha em casa e eu não fiz nada. No fim eu me vi apenas como mais uma pessoa, dessas que levam a vida morna de sempre, repetindo drogas de discursos feministas e politizados pra parecer que se importa, mas não faz nada. No fim eu só fui uma estudante de Direito que se continuar assim inerte, vai ser só mais uma profissional que leva o trabalho com a barriga, porque o salário vale a pena. Vou conversar sobre política e dizer que tal candidato é mixógeno, homofóbico, racista, machista, e todos os istas e quando chegar na minha casa, aquela que eu queria tanto do pinterest, vou deitar a cabeça no travesseiro e sentir que falta alguma coisa. Talvez seja as coisas que eu joguei na alcova lá atrás. A eu de verdade não ficaria parada vendo uma faca no pescoço de alguém, não ficaria estática e inerte diante das minhas notas despencando na faculdade. Não colocaria toda a minha energia em passado, nem em relacionamentos superficiais. Eu esqueci por muito tempo, um tempo precioso onde muita coisa incrível poderia ter acontecido, quem eu era. Mas a partir de hoje. Literalmente hoje. Eu vou fazer questão de passar cada minuto da minha vida construindo quem eu quero ser. E quem eu quero ser, ligou 180 mais cedo e denunciou a agressão. Quem eu quero ser, vai mostrar pra ela mesma que pode, ser muito mais que uma pessoa meio bosta, fazendo peso sobre o chão.
PS:
DENUNCIE TODO TIPO DE AGRESSÃO E META A COLHER SEMPRE QUE ISSO POSSA SALVAR UMA PESSOA.