Texto 69 - Depois do Desejo
Todo mundo sabe como dois corpos se encontram.
Mas quase ninguém fala sobre o dia em que eles deixam de ser apenas corpos.
É um acontecimento silencioso.
Não faz barulho.
Não tem data.
Não avisa.
Acontece entre um beijo e outro, quando alguém fecha os olhos não para sentir mais prazer, mas porque, pela primeira vez, encontrou descanso.
No começo, a pele tem pressa.
Ela quer descobrir.
Percorrer.
Decifrar.
Existe uma fome bonita em querer conhecer o outro
com as mãos.
O desejo chega assim.
Incendeia.
Pede.
Chama.
Mas o tempo faz uma coisa curiosa.
Ele ensina que o corpo é apenas a porta.
Porque chega um instante em que as mãos já sabem o caminho, os lábios já conhecem o sabor, os corações decoraram o ritmo um do outro.
E, ainda assim, ninguém quer ir embora.
É aí que tudo muda.
O desejo deixa de perguntar:
"Como posso ter você?"
E começa a dizer:
"Como posso cuidar de você?"
O encontro muda de nome.
Já não é sobre vencer a saudade do corpo.
É sobre encontrar um lugar onde a alma não precise mais sentir saudade.
As mãos deixam de procurar a novidade e passam a procurar conforto.
Já não percorrem um corpo como quem deseja descobrir um território desconhecido.
Percorrem como quem volta para casa.
Sem pressa.
Sem urgência.
Porque já não existe a ansiedade de conhecer.
Existe a paz de reconhecer.
Há uma delicadeza que só o amor conhece.
Ela mora no instante em que alguém percebe que, naquela noite, o abraço era mais necessário do que qualquer toque.
Mora na pergunta feita sem motivo:
"Está tudo bem?"
Mora na resposta que não precisa ser dita, porque já foi compreendida antes das palavras.
Existe uma intimidade que nunca pertenceu ao quarto.
Ela pertence à confiança.
À liberdade de ser imperfeito.
À coragem de despir não apenas a roupa, mas os medos, as inseguranças, os silêncios, as partes que passamos a vida inteira escondendo do mundo.
Talvez seja isso que transforme um gesto comum em um ato de amor.
Porque fazer amor deixa de ser a procura pelo próprio prazer.
Vira cuidado.
Vira presença.
Vira conversa sem palavras.
Vira uma oração que dois corações fazem através de dois corpos.
E então entendemos que existem encontros que terminam quando o desejo adormece.
E existem encontros que continuam respirando muito depois que o silêncio volta ao quarto.
Porque o corpo pode aproximar duas pessoas.
Mas só o amor é capaz de fazer com que uma encontre, na presença da outra, o lugar onde finalmente pode descansar.
Talvez seja por isso que alguns encontros nos atravessam para sempre.
Não porque duas pessoas dividiram um instante.
Mas porque, naquele instante, o desejo deixou de querer possuir e o amor encontrou, enfim, um jeito de existir.










