Acabo de me servir de um copo de uísque. Estava no piso superior da minha casa, deixando Mozart ecoar.
Do segundo andar, tenho uma boa vista de Los Angeles. Ela é sempre elogiada. Elogios de pessoas que vieram pela casa, pela bebida, e pelas atrações.
Eu não posso ser o único na cidade que sente vontade de acordar um dos funcionários de vez em quando pelo simples prazer da companhia. Não faço isso, é claro.
Se chamasse Orlando, por exemplo, por mais descontraído que eu fosse, não conseguiria penetrar seu profissionalismo. Ele manteria a fachada subserviente. E quando finalmente o sono vencesse, eu iria para o quarto com a sensação de que não tive a companhia de um igual. Desejaria boa noite pela primeira vez na vida a um empregado, que se deitaria com mais pena de mim do que num dia comum.
Numa dessas madrugadas, liguei para Jonathan. Acordou com o telefonema. Insisti que deveríamos sair da rotina e fazer algo juntos. Jogar xadrez, que fosse.
“Você está bêbado, Mike. Vá dormir.” Mas eu não estava.
Jonathan é a única pessoa que considero meu amigo. Trabalhamos juntos há vinte e três anos. Mas hoje é tudo o que fazemos. Trabalhar.
Sempre que você escuta “Este é meu amigo” numa festa, está conhecendo um parceiro de negócios. Tempo é dinheiro, e dinheiro se gasta com coisas, não com pessoas.
Meu Deus... Eu soo como um adolescente. Acorde, Mike. Você é esse velho de Armani no espelho. Um velho de Armani. Um velho.
Uma vida trabalhando para comprar o Sonho Americano, que, um dia, envolvia uma bela mulher e dois filhos, e agora envolve ocasionais mulheres pagas e nenhum filho. Comprei tudo e não divido com ninguém. E não é nem porque eu não queira. É porque o idealismo de todo mundo morre com a chegada dos cabelos brancos. E o que tornava um adolescente interessante nos anos 1960 é o que faz gente da minha idade parecer absurda. É elegante ser cético. É patético acreditar em mais do que essa casa, essa vista e esse uísque.
Talvez eu ligue de novo para Jonathan logo mais. Ou talvez eu fique apenas observando as luzes de LA outra vez. Como ontem. Como anteontem. É impressão minha ou eu tenho passado todas as noites do último mês olhando a paisagem sozinho no silêncio?