You make me more, you make me Super-Human || POV
Mildred havia acordado cedo, muito cedo, tipo duas horas depois que dormiu. Para uma criança de quatro anos, isso deveria ser impossível, impensável e inimaginável, com todas as redundâncias que merecia. Mas ela estava de pé, a primeira coisa que viu foi a caixa em cima de sua escrivaninha com um boneco ao lado. A jovem francesa caminhou curiosamente até o "brinquedo". Alphonse não era do tipo de pessoa que compraria para ela um robô e uma caixa de ferramentas em uma manhã triste como aquela. Era a primeira manhã sem a mãe e a pequena queria chorar a cada segundo. Mas a curiosidade a fez se aproximar até as coisas misteriosas e as levar até a própria cama.
A caixa de ferramentas foi primeiro, quando ela voltou para pegar o brinquedo, e seus dedinhos entraram em contato com o material incrivelmente morno, o robô começou a se mexer por conta própria. O robô derrubou a lata com gizes de cera e começou a escrever em coreano, "falando" com ela.
"Mildred-nim. Olá. Eu sou seu novo assistente e guardião. Seu pai me enviou. Ele quer que você sorria mais a partir de hoje. Entendido?"
A Hwang sorriu, ainda com os olhos marejados pelas lágrimas. Talvez, se ela fosse mais velha, o choque teria sido muito maior. Mas ali, ela só concordou com a cabeça, sem saber o que dizer.
— Você consegue me ouvir?
"Claro! Só não posso falar... Você pode me fazer falar, se quiser alguém para conversar. Ou me fazer maior, mas isso não seria agradável", o robô estremeceu, esperando alguns segundos antes de voltar a escrever. "Você vai ficar bem, entendido? Eu estou aqui para cuidar da Mildred-nim."
Ela estranhava que alguém a chamasse daquela forma, mesmo que fosse um robô que nem deveria se mover. Ser chamada como se ela fosse uma deusa, isso a deixou ainda mais confusa do que antes. O corpo pequeno se jogou de volta na cama, observando a criatura andar de um lado para o outro da escrivaninha.
— Não encontrado? — Ela piscou diversas vezes até entender. — Ah! Então... Vai ser Beaut. Eu gosto de Beau... Você é bonito. E é um robô. Vai ser Beaut. Eu... — Mildred suspirou pesadamente, voltando a pensar no homem que dormia algumas paredes de distância. — Eu preciso fazer algo para deixar o Alphonse feliz, Beaut.
"Meus arquivos dizem que humanos gostam de comer."
Daquela vez Mildred riu alto, pegando o robô nos braços antes de sair de seu quarto. A francesa fez o melhor café da manhã que podia, ou melhor, Beaut fez um dos melhores cafés da manhã que Mildred podia encomendar. Quando Alphonse chegou na cozinha, com os olhos vermelhos e o roupão azul surrado por cima da camisa branca e o calção da mesma cor, os dois estavam perto da janela e a mesa coberta com panquecas, geléias, waffles, bacon, ovos, sucos e margaridas.
O homem parecia que poderia começar a chorar outra vez quando pegou Mildred nos braços e a apertou.
— Eu vou cuidar de você melhor, ok? Prometo.
A Hwang bateu nele sem força com o punho fechado.
— Eu sei. Nom ser tão durro com você mesmo. Não tem que ser super forte sozinho só porque eu sou criança. — Ela começou a falar em inglês, o idioma natal dele, mas acabou desistindo e voltando ao francês.
Aquele foi o primeiro café da manhã de muitos. Mildred começou a aprender a fazer doces franceses com Beaut. Ela sempre ficava maravilhada com quantas coisas o pequeno robô era capaz de fazer. Foi esse amigo que começou a prepará-la para toda a explosão de coisas de semideus que viriam muitos anos depois.
Beaut sempre foi o perfeito guardião que a francesa precisava, mas ainda havia Alphonse, que era o melhor. Quando ainda moravam na França até depois que precisaram começar a mudar de um lado para o outro no país natal dele, o homem sempre se esforçava ao máximo para cuidar de Mildred. Ele não era muito bom na parte de ser "pai", mas só o esforço já fazia a garota feliz. Porque ele não tinha nenhuma obrigação, desde o início.
Alphonse nunca foi obrigado a se casar de repente com Hwasook só para ficar com a guarda de uma garotinha, e ainda ter gastos com ela, precisar sustentá-la. Mas Alphonse quis fazer aquilo; e muito mais. Ele penteava os cabelos de Mildred, comprava roupas com ela, aguentava ligações de reclamação das professoras dela, ficava acordado a noite inteira quando ela estava doente mesmo precisando sair para trabalhar cedo na manhã seguinte só para cuidar dela... Ele amava Hwasook, até Stella sabia disso, ele a amava e aceitou a dor de casar com ela em seu leito de morte só para poder cuidar de uma criança problemática como Inkyung.
— Desculpe. — Mildred quase gritou, encarando os próprios sapatos enquanto balançava os pés. Por um segundo desejou que o barulho do impacto com os trilhos pudesse ter coberto sua voz.
Mas ela havia realmente quase gritado, era impossível que ele não houvesse escutado. Alphonse encarou Mildred, como se esperasse que ela continuasse. E ela não continuou, então o homem voltou o olhar para frente, esperando que ela tomasse coragem outra vez.
— Desculpe te dar tanto trabalho e sempre te fazer gastar um monte de coisa e te dar preocupações e ser tão irritante e ficar sempre te zoando e fazendo piada de tudo e até mesmo bater nas outras crianças e te fazer sair do trabalho mais cedo pra ir em reuniões estúpidas de escolares e ouvir tudo o que sempre tem que ouvir sobre como eu sou irritante desculpa por tudo isso e por tudo mais que eu sei que nunca vou realmente conseguir agradecer de verdade então desculpa pai... — o corpo pequeno estava tenso quando todas as palavras saíram em um fôlego só. Ela não conseguia olhar para ele, e sabia que ele também estava encarando um ponto aleatório dos bancos vazios a frente.
— Dar trabalho? Você não me dá trabalho... — Ele fez uma pausa longa demais para respirar e pensar em como reagir ao tsunami de emoções da criança de sete anos sentada ao seu lado. — Você me ajuda, não entende? Acha que eu teria sobrevivido até hoje se não fosse você e o seu robô? Não, não teria. Eu estaria morando embaixo da ponte, respirando ou não. Nós somos um time bem equilibrado, Stella e...
Alphonse nunca falava do Beaut, fazia parte de seu código de atitude ignorar o fato que sua "filha" guardava um robô e uma tesoura gigante numa caixa de ferramentas mágica e tinha capacidade mental para fazer várias outras. E ainda havia aquele maldito skate que ela terminara e ele vivia andando pela casa sozinho e dando sustos nele. Mas a inteligência de Mildred para os robôs e Inteligências Artificiais não era o ponto. Era como ela havia sido um ponto de apoio quando ele só queria chorar a morte da única mulher que amou e se matar em seguida. Mildred jamais poderia imaginar quanto ela havia o ajudado. O homem pegou a criança em seus braços, a abraçando e a mantendo perto de si por um bom tempo até ter coragem de falar alguma coisa. A francesa era tímida com as palavras, e ele deveria ter a obrigação de não ser e romper barreiras. Mas não, Alphonse e Mildred se entendiam muito bem por adivinhação e frases curtas. Ele era o pai substituto dela, no final das contas. Seus pulmões se encheram de ar e de coragem e ele sussurrou: — You make me more... You make me super-human.