.Por mais que estivesse nessa rotina corrida deveriam fazer mais ou menos uns dois anos e meio, que havia sido mais ou menos quando começara a se apresentar nas ruas em busca de complementar sua renda, todos as manhãs era a mesma coisa. Sua dificuldade em levantar da cama era tamanha que, além de ajustar vários despertadores seguidos Hei havia tirado as cortinas no quarto na esperança que a claridade o ajudasse a despertar. Como consequencia ele havia, como fazia em todas as manhãs, desligado todos os despertadores com um resmungo irritado, coberto o rosto com a coberta e voltado a dormir com um suspiro satisfeito. Como se apresentara mais uma vez na noite anterior estava como sempre exausto demais para pensar ou querer fazer alguma coisa no período da manhã.
No entanto, como isso ja havia se tornado rotina por ali Andrew ja esperava esse tipo de reação do asiático, mais uma vez revirando os olhos indignado, desviando seu olhar do projeto que estivera trabalhando a noite toda para a porta do quarto do moreno. Sabia que o outro dificilmente levantaria por conta própria. Aparentemente a Bela Adormecida, estava precisando de um pouco de incentivo para deixar a cama. Cantarolando contente consigo mesmo, sendo essa uma de suas horas prediletas do dia Andrew foi até o armário ao lado a porta do seu quarto, onde retirou uma arma de água. Como sempre estava carregada e pronta para ser usada. Dirigiu-se então ao quarto de Hei, que ficava na direção oposta. No final das contas, apesar da grande discussão entre os dois havia sido ele quem ficara com a suite master. Em grande parte por causa da cara de coitado que ele fizera, comentando que não tinha onde guardar seus instrumentos. Mas confessava que havia concordado por causa do tamanho; detestava ter que fazera limpeza. E como seu banheiro era de certo modo também usado pelas visitas ocasionalmente conseguia incluí-lo nas listas de limpeza que os dois tinham que organizar. Com cuidado para não o acordar antes da hora Andrew abriu a porta, caminhando silenciosamente até o lado da cama. Puxou as cobertas com força mirando no rosto do moreno.
Não se lembrava com o que estivera sonhando, apenas da sensação de conforto e paz. Que logo foram arruinadas por um jato gelado de água gelada em seu rosto. Não podia dizer que não esperava por isso. Tinha esperanças que pudesse descansar um pouco mais, no entanto sabia que tinha seus afazeres. Ciente que merecia, Hei apenas cobriu o rosto enquanto deixava que o outro aproveitasse uma das poucas horas que podia usar aquela arminha besta. E de qualquer forma, estava o ajudando a acordar um pouco. Passados alguns instantes e seu cabelo completamente encharcado, havia sido o bastante para ele se dar por satisfeito. — E Finalmente a Bela Adormecida desperta.— anunciou Andrew com uma pose igualmente dramática com sua arma; sabia que ele estava se sentindo como um dos personagens do jogo de tiro que ele jogava a madrugada inteira. Suspirando resignadamente Hei se dirigiu ao banheiro silenciosamente. — E de bom humor, pelo visto. — resmungou, como se estivesse magoado com a forma como fora ignorado. Dirigiu-se a sala, onde ficou encarando a cozinha com uma expressão pesarosa no rosto. Ocupado como estava com seu projeto não havia preparado o café da manhã, e sabia que se dependesse do Hei para algo assim estavam os dois perdidos.
Diferentemente do que havia presumido Andrew, Hei não estava mal humorado. Estava cansado demais para esboçar qualquer sentimento que não fosse se arrastar pelos cantos; se é que isso era um sentimento. Ainda resmungando coisas inteligíveis consigo mesmo Hei acabou entrando embaixo do chuveiro ainda vestindo o pijama. Ficou apenas parado por alguns instantes em algo entre uma reflexão e um lamento por não poder continuar na cama. Em algum momento se deu conta que naquela manhã deveriam fazer a apresentação da composição que fizeram como dever de casa. Com os ânimos subitamente elevados, Hei tratou de se apressar quase tropeçando diversas vezes enquanto corria de um lado para o outro.
Mais desperto Hei correu para a sala, onde largou sua bolsa ja pronta e então foi para a cozinha. Não sabia de onde ainda tirava a ilusão que Andrew cozinharia alguma coisa, pensou evidentemente revoltado ao encarar o balcão vazio, como que demandando alguma comida. — Aquela sua amiga não vai vir trazer o café não? — perguntou Andrew, irritantemente despreocupado do sofa, onde ja ligara o notebook e estava jogando mais uma partida daquele jogo irritante. Ou pelo menos era irritante naquele momento, no qual ele precisava do café da manhã pronto e ele nem ao menos estava prestando atenção em sua indignação. — A Zoe tem nome e hoje ela tem apresentação na faculdade, então foi mais cedo. — começou completamente revoltado, concluindo depremido enquanto encarava as coisas na geladeira. — Eu também tenho, só pra você saber. Ao invés de fazer o café estava ai no jogo. — resmungou separando ingredientes para fritar algumas panquecas, a receita mais simples que pensou. — Estava fazendo trabalho, e você? Dormindo? — replicou Andrew provocativo, o que evidentemente não era justo. Ao contrário dele, estivera trabalhando a noite toda. Ele tinha um emprego de meio período em uma empresa ali perto. Ignorando-o deliberadamente Hei voltou a quebrar os ovos para a panqueca; havia pensado seriamente na possibilidade de os arremessar na cabeça de Andrew, mas como hoje não podia se atrasar se limitou a colocar na receita de panqueca mesmo.
A panqueca saiu com pedaços de casca de ovo, parcialmente queimadas e com gosto de manteiga, mas havia sido o que conseguira fazer. Olhando rapidamente o horário constatou que estavam ainda adiantados para a faculdade, mas decidiram ir andando com calma. — Sério, porque teve que escolher música? Podia ter feito faculdade de culinária. — continuou resmungando Andrew conforme saíam do apartamento, seguindo em direção ao elevador. — 'Pera.. Não disse que tinha apresentação de música hoje? Vai fazer beatbox? — perguntou Andrew, apontando que Hei havia esquecido o violão. Instantes mais tarde Hei tornou a o encontrar na frente do elevador, direcionando ao mesmo um olhar curioso. — Não estava te esperando. Só não queria dividir o elevador com a peidorreira da Charlote. — explicou desviando o olhar constrangido. — Ja disse pra não chamar ela assim. — repreendeu-o enquanto entravam no elevador apenas para dar de cara com a própria. — Bom dia, senhora Manson. — cumprimentaram, tentando agir com naturalidade. Pensaram por um instante se inventavam uma desculpa ou não antes de entrar no elevador. Era um longo caminho até o terreo. Andrew se aproximou de Hei "sussurrando" """discretamente""". — Acha que ela escutou que eu chamei ela de peidorreira? — no elevador estava silencioso o bastante para que a voz dele ecoasse no ambiente. Hei podia jurar que a mulher fuzilou os dois com o olhar. — Andrew cala a boca. — sussurrou em resposta. E foi nesse instante que o cheiro atingiu eles em cheio; se havia sido de birra não sabia , mas era horrível. Depois do que pareceu ser uma eternidade estavam finalmente no terreo, no entanto Charlote aparentemente não deixaria barato. — Não queria comentar sobre isso, até porque acho terrivelmente deselegante, mas sou obrigada. — estava evidentemente irritada, mas seu tom era tão lento. — Meu marido vai ficar sabendo dessa ofensa, e vai tomar as devidas providências. — e então aumentou o volume para se fazer ser ouvida para todos os passantes. — Eu moro nesse prédio a mais de vinte anos. Durante todos esses anos nunca, nunca me faltaram com respeito. — Não tinham muitas pessoas no saguão no momento, mas se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Que mulher dramática , e ia fazer ele se atrasar. Porque justamente hoje? E porque o Andrew? Foi então que ele pensou, tudo isso era culpa do Andrew. Ele quem aguentasse os discursos dela. Além disso nem parecia aborrecido com a possibilidade de se atrasar na faculdade. Ignorando o discurso dela Hei começou a se afastar discretamente. — Aonde pensa que vai mocinho? Você e seu amigo me ofenderam, agora vai simplesmente virar as coisas para o que eu falo? Seus pais não te ensinaram a ter educação? Pensei que vocês japoneses fossem bem mais educados.
Andrew suspeitava que ela nem ao menos soubesse mais do que estava falando; havia conseguido a plateia para seu show estava despejando seu monólogo sem fim. Obviamente não tinha mais o que fazer pelo restante do dia; esperava que ela se cansasse logo para poderem seguir com seu caminho. Foi então que Hei aparentemente perdeu a paciência se afastando, o que apenas aborreceu a velha. Pensou em ajudar o amigo, e amenizar a situação. Conhecia o gênio do colega de apartamento, mas ao escutar a resposta da mulher sabia que não tinha muito o que fazer. Essa era uma das coisas que aborreciam o colega, talvez pela frequência com que esse tipo de situação acontecesse. Quer dizer, ele achava que ficaria aborrecido se alguém insistisse em o chamar de francês sem nem ao menos o conhecer. Tudo por que ele tinha feições asiáticas. — La vamos nós... — sussurrou, refletindo se não deveria ao menos segurar o colega. Se ele fosse fazer alguma idiotice o seguraria, pensou solenemente apesar da obvia diferença de força entre os dois.
A hipocrisia alheia havia o irritado tanto, que por uns instantes ele se esqueceu completamente da apresentação que teria. — Então pensou errado. O simples fato de encontrar uma pessoa com feições asiáticas não faz dela um chinês ou japonês e presumir e apontar isso é preconceito sim. — começou irritado, preparado para argumentar com a mulher. Que por sinal estava mais do que feliz com a reação alheia, mas vendo a felicidade do olhar alheio aparentemente ele desistiu avançando em cima da mulher. Andrew pulou na frente tentando o segurar. — Acha isso engraçado, piranha dos infernos? — rosnou Hei esmurrando Andrew na cabeça algumas vezes. Talvez com força demais pois ele podia jurar ter visto faíscas roxas saindo dos dedos alheios. De repente o restante das pessoas pareceram despertar de uma espécie de transe ajudando a apartar a briga.
Obvio que os três acabaram por receber uma multa pela bagunça em areas comuns, juntamente com a fama de barraqueiro. Hei permaneceu em silêncio pelo restante do trajeto até a escola. Parecia frustrado consigo mesmo; e sabia bem porque. — Boa apresentação, depois a gente cuida da multa. Não pensa nisso. — berrou quando se separaram no corredor.
Com os pensamentos voltados para a apresentação Hei não se sentiu mais calmo com isso, mas chegar no horário havia sido reconfortante o bastante. Todos haviam composto melodias complexas, isso o intimidou um pouco a principio. Mas como sabia que não se tratava de uma competição buscou não pensar muito nisso. Sua apresentação havia sido bem melhor do que imaginara, e apesar do nervosismo tão reconfortante. Sua experiência em bares certamente o havia ajudado na hora. Continuaram por mais algumas horas e Hei particularmente quis ensaiar depois do horario da escola. Não estava com cabeça para apresentações naquela tarde, apesar que sabia que precisava mais do que nunca. Havia perdido a cabeça e agora tinham uma multa a pagar. Ficou tocando o restante da tarde sozinho, tentando levar isso como uma pratica. Amanhã apresentaria mais algumas horas no período da tarde para compensar.
Quando saiu da escola ja era bem tarde. Na verdade havia sido convidado a se retirar pelo zelador da escola. Mesmo não querendo se encontrar com aquela megera, que agora concordava em chamar de peidorreira e nomes ainda piores, não tinha alternativas se não voltar para o apartamento. Assim que abriu a porta um cheiro bom, de comida sendo preparada o atingiu em cheio. Justamente ele que nem havia almoçado de tão aborrecido que havia ficado. — Bem vindo. — cumprimentou-o uma voz doce da sala. Franziu ligeiramente o cenho confuso com a presença de Zoe. Não havia a chamado, a não ser que... — Fiquei sabendo que chamou a senhora Manson de... o que era mesmo Andrew? — perguntou ao próprio que se encontrava jogando na mesa de estudos. — Piranha dos infernos. — replicou com a voz de zumbi que usava sempre que estava ocupado. — Foi épico.— depois pressionou as teclas de maneira frenética tentando matar alguma coisa.
Hei simplesmente suspirou ignorando-o deliberadamente. — Não. Não deveria ter descontrolado daquele jeito. Por mais idiota que ela seja. Eu poderia ter machucado ela seriamente, ela é uma senhora de idade Andrew. — repreendeu tanto ele quanto ele mesmo. — Além disso isso nos rendeu uma multa bem salgada. Como se ja não tivéssemos coisas o bastante para pagar. Preciso de um banho. — suspirou seguindo para o próprio quarto. Um banho o ajudou a clarear os pensamentos, mas não resolveu seus problemas. Quando retornou estavam os dois servindo os pratos na pequena mesa entre a sala e a cozinha. — Ja liguei, meu pai disse que resolve esse assunto com a multa. — comentou Andrew, sua expressão e tom de voz estranhos. — Vem se servir Hei, quer que eu coloque pra você? — ofereceu Zoe próxima do fogão. — Por favor. O que ..? Porque ligou pro seu pai? — perguntou Hei bastante confuso. Sabia o bastante do mais velho para entender que era alguém importante e bem severo com certas coisas. — Não importa. Ja resolvi. Agora vamos só comer okay? — replicou Andrew, ainda adotando aquele tom estranho encerrando o assunto. — Aqui. Como foi a apresentarão Hei? — perguntou Zoe, claramente tentando conciliar a situação. — Boa, espero. Pelo menos cheguei no horário, e alguns colegas elogiaram meu arranjo. — respondeu aliviado em mudar o assunto. Andrew permaneceu quieto o restante do jantar. — Soube que se apresentou hoje também. Como foi? — Um pequeno sorriso surgiu na face alheia diante da pergunta, seguido de uma narrativa extensa dos seus passos e reações da plateia.
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— Deixa que eu lavo. Vocês dois podem ir deitar. — assegurou Zoe indo para a pia lavar a bagunça que fizeram. — Quer dizer que vai passar a noite aqui? — perguntou Hei começando a se sentir sonolento depois de comer finalmente uma comida boa que não era delivery. — No sofa. Andrew quem convidou. — respondeu, apontando para o vazio. Andrew ja tinha ido se deitar aparentemente. — Ah. Me pergunto que tipo de coisa o pai dele pode ter dito. — sussurrou preocupada, mas como sabiam ele estaria melhor pela manhã. — Tchau, Hei. — acrescentou risonha percebendo que o mesmo parecia estar dormindo em pé. — Sim, tchau Zoe. — concordou constrangido se afastando apressadamente. Mesmo estando cansado Hei abriu as portas que ligavam seu quarto com a sacada pegando seu violão dedilhando uma melodia que veio a sua cabeça. Podia observar Zoe se arrumando no sofá cama na sala do outro lado, e podia apenas imaginar como Andrew estaria. Duas pessoas com quem convivia e não faziam ideia de quem ele era. Esse pensamento o entristeceu um pouco, então trazendo o violão consigo Hei entrou e tornou a fechar a porta. Praticamente se jogou na cama adormecendo logo em seguida.