you know me like no other, see me like no other (and i think i like your point of view) | noble storm
@herecomesthestormi
Zeki tinha 83,4% de certeza que o time de Cedrico estava ganhando, o que era bom, certo? A verdade é que ele não entendia bulhufas de futebol e só se esforçava porque sabia que era importante pro irmão e também pro seu pai - e também porque sua mãe sempre falava que Zeki ficava bonito com a camisa do time de Cedrico. E ele estava entediado, normal, mas pelo menos sua família estava feliz, especialmente Henry que não parava de gritar perto de seu ouvido. Tirou os olhos do campo por uns instantes e foi justamente ai que viu Gregg, o inominável. Zeki apertou os olhos, pois era daltônico, mas não cego e muito menos doido e realmente, aquele era Gregg, o namorado feio, porém mais alto e mais forte do que Zeki, de Stormi.
E estaria tudo bem de ver Gregg, quer dizer, seus olhos sofriam um pouco, mas beleza... só que, parando pra pensar, Gregg não deveria estar no negócio de hipismo de Stormi? E como se tivesse tomado um choque, Zeki levantou num pulo, jogando sua pipoca pra todo lado e assustando Henry no processo - bem feito. "Ou família, tenho que ir! Falem pro Dricão que fico devendo uma pra ele! Amo vocês!" E saiu correndo, voltando poucos segundos depois e pegando a chave do carro de Cedrico do bolso do pai. "Falem pro Dricão que to devendo duas pra ele! Falou meus bons."
E minutos depois Zeki estava em pé em outra arquibancada, gritando o nome de Stormi e fingindo que não via o olhar feio de uma senhora do seu lado - se ninguém gritava por cavalos era problema deles, Zeki gritava por praticamente tudo na vida.
Tudo estava dando errado e tudo o que Stormi conseguia pensar era que aquele sofrimento era opcional e ainda sim ela optara, por livre e espontânea vontade a estar ali. Seus pais não poderiam estar presentes por estarem uma viagem a trabalho, Evie tinha uma apresentação de seminário no mesmo horário, Wolfie um trabalho a ser entregue do outro lado da cidade em um horário muito próximo e provavelmente não chegaria a tempo, Theo estava em um jogo de futebol,- o que não fazia muito sentido em sua cabeça. Para todos eles Stormi fez questão de afirmar de que estava tudo bem, já que seu namorado estaria lá. Era só uma apresentação de seu hobby número mil e quinhentos, e ninguém tinha a obrigação de ter sempre o tempo livre para acompanhar a caçula em sua incansável e interminável busca de se encontrar no mundo. Mas agora a mensagem no visor do celular dizia que nem Gregg poderia ir até lá, deixando-a somente com sua própria companhia.
Arrumava seu capacete um pouco nervosa, sentindo a palma da mão um tanto escorregadia. Pensava que talvez tivesse sido melhor se tivesse remarcado a apresentação ou só pegasse suas coisas e fosse para casa. Seus pés estavam agitados, decidindo seu caminho de volta para casa até que ouviu a voz masculina sobressaindo aos barulhos externos do estabulo. "Zeki?" Pensou alto, dando meia volta e correndo até a abertura da arena onde poderia ver o amigo berrando na arquibancada. "VOCÊ VEIO?" Gritou de volta, sentindo os olhos brilharem e algo se remexer em seu peito.
Zeki abriu um sorriso imenso ao ver Stormi, ignorando completamente os resmungos das pessoas ao seu lado e descendo apressado pela arquibancada até ficar o mais próximo dela possível. "Ah, você sabe como é. O Cedrico tem tipo, três jogos por semana, não é como se ele fosse morrer se eu não tivesse em um deles." Fez um gesto com as mãos como se não fosse nada demais. Não era grande coisa, mesmo, mas Zeki também não queria falar que tinha visto Gregg e por isso estava ali. "Ainda não chegou sua vez, certo?" Questionou, se aproximando um pouco para ajeitar o capacete de Stormi, apertando um pouco para que deixasse de ficar frouxo. "Acho que agora tá melhor." Sorriu, fazendo um joinha com sua mão. "Eu não sei se você já andou de cavalo, mas vou te dar uma dica que meu padrinho sempre me fala: se você prometer uma maçã pra ele vai dar tudo certo! E dá um beijinho nele antes de você subir, beleza? Vou tá aqui torcendo por você, até achei um lugar daora!"
"Eu espero que não mesmo." Sentiu seus olhos começarem a marejar, mas seu sorriso era impossivelmente largo, expandindo tanto em seu rosto que mal deixou espaço para que qualquer lágrima, ainda que fosse alegria, tomasse espaço. "Eu sou a última, tem mais três crianças na minha frente ainda." Ainda estava meio atônita pela surpresa do amigo, observando seus dedos ajeitarem seu capacete. "Vou oferecer duas, só pra prevenir." Ainda o olhava enquanto dava passos para trás, sentindo uma sensação um tanto curiosa se espalhar por todo o seu peito, algo parecido como fogos de artificio explodindo no céu. "Te vejo mais tarde?"
"Ele não vai nem perceber que eu não tô lá, confia." Talvez tivesse sido impressão, especialmente porque estavam próximos, mas Zeki podia jurar ter visto os olhos de Stormi marejarem e foi esse o motivo que o fez passar a ponta de seu dedão pelo local, esperando ajudar. "Você vai se sair bem! E vai passar super rápido, tu vai ver! Aqui," tateou seus bolsos até achar o que procurava: uma peça velha de lego azul (óbvio) que logo colocou na mão da amiga, um sorriso brilhante em seu rosto. "Geralmente me dá sorte! Acho que pode ajudar você também." Deu duas últimas batidas suaves contra o capacete de Stormi, a vendo se afastar e mostrando suas duas mãos fechadas em sinal de apoio. "Sure thing! I'll be here all day, babe!" E poucos segundos depois fez uma pequena careta ao perceber o que tinha dito, mas fingiu normalidade.
“Prometo te devolver em boas condições.” Guardou a peça no fundo do bolso, exibindo um sorriso largo antes de se afastar rapidamente, com medo de se atrasar. Não teve certeza do que ouvira e parou de repente no meio do caminho. Olhou por cima do ombro com uma careta confusa, tentando decifrar se aquela voz vinda da arquibancada era mesmo dele ou apenas um engano entre tantas outras ecoando pela pequena arena. Balançou a cabeça, determinada a não pensar demais sobre aquilo. Quando voltou à estalagem, o professor logo a encaminhou para a orientação da sua pequena rodada com o cavalo. O coração ainda batia fora do compasso, mas ela tentava focar no que sabia fazer — não era muito, é verdade, mas era algo, e vinha treinando há bastante tempo. Já montada sobre o cavalo de pelagem marrom, sentia a pressão sutil do lego em seu bolso, como se fosse um lembrete discreto de que Zeki estava lá, por ela. Antes de iniciar o percurso, permitiu-se olhar uma última vez para a arquibancada e encontrou o amigo de longe, firme, atento. Então tudo aconteceu rápido demais — o percurso foi tão breve quanto intenso, e quando Stormi percebeu já estava de volta à estalagem, com o coração disparado pela adrenalina. Mal conseguiu conter a euforia, pegou suas coisas e correu até onde Zeki estava. “Demorei?” perguntou, sorrindo, ainda ofegante. Tirou a peça do bolso e a devolveu ao amigo com cuidado. “O lego realmente tem propriedades mágicas.” Seu olhar era grato e suave quando completou: “Obrigada, pelo lego… e por ter vindo.”
Stormi era magnética. Dourada. Zeki, com sua mente de músico e seu coração de poeta, só conseguia pensar no quanto os pais dela tinham acertado em cheio ao escolher seu nome. Era irônico, pois a maioria das tempestades conseguiam ser previstas e qualquer um era capaz de se preparar para os estragos. Stormi, no entanto, de nome quase homônimo, mas de impacto implacavelmente superior, tinha se instalado na vida de Zeki sem qualquer aviso prévio. Chegando de mansinho, como uma garoa, permitiu que Zeki se molhasse aos poucos, sem nem perceber o que ocorria. Foi aumentando de forma gradual, suas nuvens escurecendo e alguns trovões ressoando há um distância segura. Se fosse mais esperto, se fosse menos romântico, se não usasse o coração nas mangas de suas camisas dobradas por sua mãe, talvez Zeki tivesse conseguido sair antes, ir na direção contrária daquela chuva. De onde estava hoje, no entanto, era impossível. E ainda que sua visão fosse boa, nada teria o preparado para aquilo. E agora os trovões eram altos, os raios lançando clarões prateados no céu, a chuva tão forte que era impossível ver qualquer coisa além dela. Stormi, Stormi, Stormi, Stormi. Se sentia no olho da tempestade, no centro do furacão. Tinha sido engolido, não tinha mais o que fazer. Observando a menina naquele cavalo e depois ela correndo em sua direção com o maior dos sorrisos, Zeki, que era lento pra tantas coisas, finalmente percebeu o que o cercava. "Não, tá suave." Respondeu sincero, embora seu coração agora expandisse no peito no mesmo ritmo de um trovão. Olhando para a mão de Stormi, Zeki esticou a sua o suficiente para fechar a mão da menina sobre a peça, um sorriso em seu rosto. "Acho que você devia ficar com ela." O que era um lego pra quem entregava o coração de bandeja? "E não precisa agradecer. Sempre às ordens."
O toque de Zeki em sua mão era morno, acolhedor; e assim poderia resumir como era sua relação com o jovem Diggory desde que o conheceu. Havia algo valioso no amigo, uma parceria e conexão que parecia ser exclusiva dos dois. O zelo, carinho, divertimento e o acolhimento que sentia por Zeki parecia tomar uma forma muito mais intensa do que ela poderia imaginar. Percebia que tudo o que sentia pelo amigo, era o que deveria sentir por Gregg. Mas como as coisas não são como deveriam ser, tudo havia se tornado uma bagunça inocente e complexa, onde Stormi não sabia mais onde se encaixava nessa história. Zeki estava ali, Gregg não. Zeki a fazia rir com frequência e se mostrava atencioso quando Stormi lhe contava banalidades, Gregg frequentemente mexia no celular distraído enquanto a namorada praticamente implorava por sua atenção. Havia uma grande porção de coisas onde Zeki se fazia mais presente do que Gregg, fazendo com quem Stormi desejasse que o namorado pudesse ser pelo menos um pouco mais parecido com o amigo. “É sério. Obrigada por ter vindo.” Ofereceu um sorriso caloroso antes de olhar a saída por cima do ombro. “Voce vai fazer algo hoje? Pensei em comer algo saindo daqui. Gregg está doente e não pode vir e meus pais estão viajando. Talvez meus irmãos nos encontrem lá mais tarde. Ou se você quiser, podemos voltar no jogo do seu irmão, encontrar sua família.”
Zeki não sabia mais o que falar, então agradeceu mentalmente Stormi ter mudado de assunto. "Nah, tô livre. O jogo do Cedrico tava chato e não é como se eu tivesse muito o que fazer. A Stella tá sendo melosa com a Hui em algum lugar e eu estava me preparando para passar o resto do meu dia jogando vídeo game ou algo assim. Onde você quer comer? Eu levo você, tô com o carro do meu irmão, mas ele não sabe. Depois que eu vi o Gregg lá com uma menina eu meio que sai correndo e tive que pegar as chaves com meu pai, mas acho que o Dico não vai ligar. O carro é meio velho, mas isso você já sabe, né? A gente entrou nele quando fui te ensinar a dirigir lá no sítio. Você acha que seus irmãos vão mesmo? Eu vi um deles lá no jogo também, talvez a Evie esteja com o Hayden, ouvi a Stella falar sobre isso porque a Ash tava reclamando, você acha que eles voltaram? Desde que o Hayden voltou ele ta todo diferente, eu meio que sempre tive medo dele, mas agora parece pior, não sei. Será que é problema de homem loiro? Se bem que o tio Gio é loiro, mas ele não intimida ninguém e é super gente boa, mas eu também não conheço outros homens loiros..." Voltou a atenção depois de um tempo, oferecendo um sorriso para Stormi. "Enfim, onde você quer ir comer?"
O céu se exibia em um degradê que misturava tons de azul, rosa e roxo, coroando aquele fim de tarde. Stormi olhou para o céu que mais parecia uma pintura por alguns instantes, sentindo uma briza de calmaria bagunçar seus cabelos. Tudo parecia tão perfeito que Stormi encarava Zeki com um sorriso tranquilo por longos segundos até digerir o que de fato tinha escutado o amigo falar na enxurrada de informações que ele lhe acometeu. “An?” Com sua expressão mudando da água para o vinho, Stormi sentiu a cabeça doer. “Você viu o Gregg onde? Com QUEM?” Questionou o encarando, enquanto seu cérebro fazia todas as sinapses possíveis e automaticamente respondia suas próprias perguntas. “Such a liar!” Apertou a ponte nasal, respirando fundo algumas vezes. “Quer saber? Zeki, você pode me levar em um lugar antes? Tem algo que preciso resolver.”
Demorou alguns segundos até Zeki entender a confusão e depois a chateação de Stormi. "Ah..." coçou a cabeça, desviando o olhar mesmo sabendo que a raiva da amiga nada tinha a ver consigo. "É, então, sobre isso ai... eu tava lá no jogo do Cedrico, sem entender nada e meio entediado com a Henry jogando pipoca em mim ai quando olhei pra outro lugar eu vi o 3G com uma menina. Eu não sei quem era ela, mas eu tenho tipo, 98,6% de certeza que era ele. E eu achei que ele ia tá com você, se liga? Ai me toquei que você tava sozinha e devia tá nervosa e vim correndo." Limpou a garganta ao terminar de falar. "Sim, claro. Onde você quiser. Vem, meu carro tá pra lá." Pegou as coisas de Stormi e colocou a mochila dela no ombro, apontando na direção do carro do irmão.
O dia parecia não ter fim e o cansaço sobre seus ombros não dava trégua. Pressionou a ponte nasal e fechou os olhos com força, tentando controlar o sentimentos nada bonitos que borbulhavam em seu peito. Stormi não era necessariamente alguém de personalidade incisiva e muito menos alguém que carregasse aquela aura naturalmente audaciosa; mas o que Gregg havia feito mexia em um ponto muito sensível dentro de si, a quebra de confiança e a sensação de estar sendo passada para trás em uma ocasião que se quer sabia que precisava tomar uma posição a frente. "Tudo bem." Disse com a voz rouca, respirando fundo. Caminhou com Zeki até o carro, em silêncio, organizando o que sentia e o que pensava. "Você pode me levar até a casa do Gregg?" Arrumou o cinto de segurança. "Na verdade, não. Nem sei se ele está lá." Pegou o celular e ligou para o atual-ex-namorado. "Gregg?" Disse ao ouvir o alô receoso do garoto do outro lado da linha. "Listen... No, listen! I'm done. Please stay away from me. Yes, Gregg. I'm dead serious! Please stay away from me and never ever talked to me again."
Zeki somente assistiu tudo de dentro do carro. Era meio bizarro que as coisas se desenrolassem daquela forma — talvez não tanto, dado o fato de Gregg estar com outra menina ser o motivo de Zeki ter ido até Stormi para começo de conversa. Não conseguia entender as razões de Gregg, não quando o rapaz tinha feito um esforço enorme pra conseguir conquistar Stormi. Não que Zeki entendesse tantas coisas e não que fosse inocente na história toda; o pensamento o incomodava tanto que precisou desviar o olhar para fora da janela, permitindo o mínimo de privacidade para que a amiga desse fim no relacionamento. Tentou se manter em silêncio, quieto, mas estava nervoso e se viu batucando os dedos contra o volante do carro de Cedrico.
Talvez houvesse uma explicação astrológica para Stormi sentir tudo tão intensamente. Em seu âmago, tudo parecia adquirir uma nova camada de conhecimento enquanto as coisas se incendiavam dentro de sua cabeça. “Bom,” disse em um suspiro, mal contendo uma lágrima ou outra que escorria por sua bochecha. Dramática e intensa, era impossível que Stormi não se rendesse tão facilmente ao choro. Ainda que não fosse por tristeza, havia algo em seu peito que variava entre o aborrecimento e a vergonha. “Acabou,” fungou, olhando para a tela desligada do celular. “Mas é melhor assim, né?”
















