Certa noite, como agora, eu me meti com alguns versos de fernanda young quando a mesma assim escreveu que "saudade deveria sempre render um verso, perfeito, visto que para nada serve."
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Certa noite, como agora, eu me meti com alguns versos de fernanda young quando a mesma assim escreveu que "saudade deveria sempre render um verso, perfeito, visto que para nada serve."

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SerĂĄ que, ainda hoje, Ă© possĂvel sentar-se no chĂŁo de algum lugar da sua prĂłpria casa e teatralizar cenĂĄrios de um futuro acometido na certeza da sua existĂȘncia, porque, esse sim, Ă© de que temos certeza. Mas o futuro, esse, Ă© quanto tempo depois do que eu sinto agora?
Yorimil Um homem atento Ă direção. Latino-americano, com certeza. ApĂłs buscar o passageiro â neste caso, eu â embarcamos. Destino: vinte e trĂȘs minutos contados. Do trabalho Ă casa, Yorimil me conduz. Percebo o cuidado no gesto. Ele sobe os vidros, repentinamente, quando o carro deixa o asfalto e cai na terra batida. Pensei: vai ligar o ar-condicionado. NĂŁo. Ao retornar ao asfalto, Yorimil baixa os vidros e deixa o ar encontrar os cabelos dele e os meus. Eu percebo: um trevo de quatro folhas pendurado no retrovisor. A decoração â a bandeira dos Estados Unidos da AmĂ©rica. Um latino discriminado ajoelhado aos pĂ©s de uma nação, buscando no sĂmbolo a sorte, encontrando-o em outra pĂĄtria. Brasileira. Se essa for a questĂŁo: por quĂȘ, Yorimil? Percebo o cuidado no gesto. Novamente. Outra estrada de chĂŁo. Vidros sobem. Mas a rua Ă© disforme â e ele nĂŁo vĂȘ problema nisso. O carro Ă© confortĂĄvel. Tenho vontade de iniciar uma pesquisa na ĂĄrea da linguĂstica. Nunca tive perfil. Coisa de aquariana? Signo Ă© uma besteira. Mas e se for isso? LinguĂstica? SociolinguĂstica? Tenho vontade de ligar para Yorimil, mesmo que, no percurso, nĂŁo tenhamos trocado mais que: âboa tardeâ, âcom licençaâ, âobrigadoâ. Tenho vontade de perguntar se ele responderia a uma pesquisa â para ajudar meus alunos estrangeiros. O Brasil tem potencial. As crianças no Brasil podem brilhar Ă sua maneira, com suas particularidades, com a salvaguarda de sua prĂłpria origem e cultura. Yorimil, podemos costurar nossas diferenças e construir um tecido maior. Que perguntas eu ousaria fazer? Transformar a corrida em campo de pesquisa â Ă© possĂvel? Que perguntas poderiam nascer no banco de trĂĄs? Seria possĂvel colher respostas entre um semĂĄforo e outro? Uberização â o conhecimento em trĂąnsito.
Mas facilitar renda â isso eu nĂŁo sei se facilita. Yorimil, a corrida acabou. Mas o que vocĂȘ me trouxe de volta, nĂŁo pode mais ser desembarcado de mim.
Entre costuras - I. Espartilho (on Wattpad) https://www.wattpad.com/1614023918-entre-costuras-i-espartilho?utm_source=web&utm_medium=tumblr&utm_content=share_reading&wp_uname=helowisa Quando uma cliente misteriosa entra na pequena loja de tecidos da Sra. Elena, o que deveria ser apenas mais uma venda se transformara em um encontro estranho e fascinante. Entre tules, espartilhos e silĂȘncios longos demais, surgira uma conversa inesperada sobre histĂłria, desejo, liberdade e as formas sutis como o mundo molda o corpo das mulheres. Mas algumas presenças deixam marcas. Depois que ela vai embora, Elena percebe que aquele encontro aparentemente comum despertou memĂłrias que estavam guardadas hĂĄ muito tempo - lembranças ligadas a um passado que ela raramente revisita, a um chaveiro que nunca conseguiu abandonar, e a perguntas que talvez seja perigoso demais fazer agora. Ăs vezes, tudo começa com algo simples. Uma visita. Um olhar demorado. Ou um pedaço de tule cor mogno. Algumas histĂłrias começam muito antes de percebermos que estamos dentro delas.
CAP. 1) "Um passo apĂłs o outro, num claqueado que ecoava pelo chĂŁo construĂdo nas sobras de diferentes tipos de granito, ela vinha. Eu podia vĂȘ-la pela vitrine. NĂŁo havia quem nĂŁo olhasse para ela, ainda mais durante a chuva torrencial que desaguava o cĂ©u inteiro porta afora.
Com uma exĂmia delicadeza, a porta se abriu para ela e fechou.
â Boa tarde â ela disse calmamente, tocando os tecidos com a ponta dos dedos da mĂŁo esquerda, devagar, como se ponderando sobre alguma coisa â A senhorita teria... como Ă© mesmo o nome disso? Para colocar sobre uma peça do tipo saia colada ao corpo... â Ela deslizou atĂ© o balcĂŁo e se encostou devagar, os olhos passeando por ele antes de se fixarem em meu rosto.
â Eu⊠eu acredito que⊠quer dizer⊠talvez vocĂȘ esteja se referindo Ă .... acho que tenho aqui... Ă©... se vocĂȘ se refere Ă parte superior... se entendi corretamente... vocĂȘ fala de... um espartilho?
A mulher sorriu, assentindo devagar com a cabeça, os olhos firmes e fixados em algumas itens e botĂ”es atrĂĄs de mim. Corria lentamente os olhos por algumas das inĂșmeras opçÔes que pudessem ser utilizadas para criar e recriar um infinito de modelos.
Depois de longos minutos, de uma torturante espera, ela suspirou passando a mĂŁo de dedos longos pela lateral de seu proprio busto e peito com uma expressĂŁo imaginativa como quem prova das suas ideias em si mesma.
â VocĂȘ sabe... â recomeçou â de onde surgiram os espartilhos? â Encarou-me novamente pelo que foram, talvez, 20 segundores inteiros. â e sorriu.
Eu não fui capaz de dizer coisa alguma, e seu sorriso lento, quase um desafio silencioso, também satisfeito como quem jå previa minha reação, voltou a falar iniciando sua explicação.
â Historicamente, o espartilho tem sido uma das peças de vestuĂĄrio mais controversas e significativas, representando um abismo entre o patriarcado e o feminismo â ela parou abruptamente para olhar alguns tecidos de tule coloridos â esses tecidos sĂŁo tĂŁo, tĂŁo bonitos... â suspirou.
â VocĂȘ menciona algo entre controverso e significativo... o que vocĂȘ quer dizer com isso? â questiono-a realmente interessada na conversa.
â Falar sobre o espartilho, Ă© pensar que, se pensarmos no papel da mulher na sociedade, uma Ășnica peça de roupa pode ter tanto beneficiado quanto limitado as mulheres. Quanto Ă s limitaçÔes... veja... foi como um sĂmbolo de repressĂŁo patriarcal, mas... se pensarmos no benefĂcio foi como uma forma de expressĂŁo estĂ©tica ou empoderamento. â novamente passa a sorrir. Um sorriso indecifrĂĄvel, impossĂvel de ler.
O telefone em seu bolso, começa a tocar. Ela o alcança, encara a tela, olha para o chão, batuca os dedos no balcão, olha novamente para os tules, para a tela do celular, mas não o atende, espera que a ligação pare. Digita algo concentrada. Eu a interrompo.
â A senhora gostaria de levar algum item? â pergunto ansiosa.
â Apenas um pedaço desse tule marrom mogno, se puder. â pede e vira as costas para continuar em suas mensagens.
Eu corto o pedaço, coloco na sacola. Ela retira ansiosa o valor correspondente da carteira, em dinheiro. Coisa que nĂŁo se vĂȘ.
â Preciso ir, obrigada. Daqui uns dias voltarei â responde a sorrir baixo, seu olhar firme, dĂĄ as costas e caminha firme para fora.
O ambiente fica silencioso novamente, pronto para que eu volte a ouvir a chuva a desmanchar o cĂ©u lĂĄ fora. Olho as vitrines, os moldes, os tecidos, as rĂ©guas, os botĂ”es, os laços, os enfeites, e todos os outros itens infinitos. E imagino essa mulher novamente. Imagino uma madrugada inteira de mĂșsicas e recortes, costuras, moldes, sorrisos, linhas, fios, toques fĂsicos, sedas, tules...
â Eu devia imaginar que isso Ă© simplesmente uma invenção maluca da minha cabeça em seus cinquenta e seis anos de existĂȘncia. Isso Ă© uma loja, e ela sĂł veio comprar. â falo alto para mim mesma.
EntĂŁo o telefone toca. "
JAGANNATHAN, Shreya; DAS, Anaisha.The history behind corsets: how a piece of clothing sparked controversy, criticism and empowerment. The Wildcat Tribune, 1 fev. 2022. DisponĂvel em: https://thewildcattribune.com/13604/ae/the-history-behind-corsets-how-a-piece-of-clothing-sparked-controversy-criticism-and-empowerment/. Acesso em: 28 de fevereiro, 2026.

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Costureira, alfaiate, modista, bordadeira, estilista, modelista, aprendiz, cliente, fornecedor, figurinista, passadeira, agulha, alfinete, dedal, tesoura, carretel, bobina, bastidor, fita, fita-mĂ©trica, giz, rĂ©gua, molde, papel, ferro, tĂĄbua, manequim, mĂĄquina, overloque, galoneira, cortador, linha, zĂper, botĂŁo, colchete, velcro, elĂĄstico, renda, entretela, forro, ombreira, paetĂȘ, miçanga, aplicação, viĂ©s, algodĂŁo, linho, seda, cetim, veludo, jeans, tule, chiffon, crepe, malha, tricoline, organza, tafetĂĄ, lĂŁ, gabardine, sarja, musseline, costura, alinhavo, bainha, barra, franzido, bordado, chuleado, arremate, ajuste, reforma, remendo, modelagem, corte, medida, busto, cintura, quadril, ombro, manga, punho, gola, colarinho, decote, corpete, saia, pala, prega, fenda, recorte, ateliĂȘ, vitrine, arara, provador, espelho, balcĂŁo, mostruĂĄrio, rolo, retalho, gaveta, aviamentos, mesa, luminĂĄria, pedal, tecido, prova, acabamento, detalhe, criação, coleção, encomenda, vestido, blusa, camisa, calça, paletĂł, terno, saia-lĂĄpis, vestido-de-noiva, fantasia, uniforme, bolso, botĂŁo-de-pressĂŁo, caseado, franzir, desmanchar, pregar, cortar, medir, marcar, passar, costurar, ajustar, reforçar, customizar, estilizar, drapear, plissar, engomar, tingir, bordar, alinhavar, provar.
Um passo apĂłs o outro, num claqueado que ecoava pelo chĂŁo construĂdo nas sobras de diferentes tipos de granito, ela vinha. Eu podia vĂȘ-la pela vitrine. NĂŁo havia quem nĂŁo olhasse para ela, ainda mais durante a torrencial chuva que desabava loja afora. (continua)
Mark Horst, American artist. oil on canvas
O perĂodo do dia normalmente Ă© dividido em trĂȘs: manhĂŁ, tarde e noite. HaverĂĄ ainda, quem diga que existam sub-perĂodos, isto Ă© o mesmo que "fui ao mercado essa manhĂŁzinha" que significa "fui cedo, mas antes das 09 horas. SerĂŁo entĂŁo, na realidade, subperĂodos? Veja, digo isso por uma grande razĂŁo de observação, inquietude e curiosidade. Veja bem, ouça o que direi. HĂĄ quem diga que o entardecer começa Ă s 18 horas. Sentei-me na cadeira a fim de pensar sobre isso. Das 17 Ă s 18 horas, eu vi o cĂ©u mudar. De raios de sol, ao barulho calmo do piar dos pĂĄssaros, as folhas remexendo no ar de todos os sentidos, do vento Ă levar embora o dia. Lembro de sentir o piar acelerar, e uma ventania acelerar no rĂ©u rasgado de tons finos de azul e cinza. Eu me pego pensando que, normalmente, nĂŁo tenho tempo para analisar esses instantes. Quem poderia? Talvez o marimbundo, o instrutor de trilha, o professor de biologia. E indĂgenas. O profissional amante da floresta. Sempre penso em sua existĂȘncia quando penso em resguardar o que me Ă© de mais humano. Para restaurar a vida, Ă© preciso olhar para ela. As vezes penso que indigenas podem conceber uma divisĂŁo de mais periodos em um dia. Pois a cada hora, o dia vai deixando de ser dia. A gente vai deixando de ser vida. O que resta nesse fato? Ă que o dia vai sim, voltar a nascer.
!!!!!!!!!!!!!

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O dia terminou. Em uma conversa informal com um motorista de aplicativo, de volta Ă casa. Aos tropeços, abriu o portĂŁo e deixou cair o molho de chaves junto de alguns papĂ©is. A cabeça ecoava todos os gritos, murmĂșrios, muchochos e conversas que se espalharam pelos corredores da escola â e enfim, o retorno. No meio do caminho, a ideia: e por que nĂŁo um traguinho, entĂŁo? O corpo relaxava, a cabeça produzia barulho mais devagar. Durante o aquecer da xĂcara, do cafĂ© que ansiava beber desmedidamente, deixou-se cair no sofĂĄ, as pernas escorregando pelo couro amarelo, gasto e antigo. O livro, intocado desde a compra, brilhava sobre o braço da poltrona. Decidi que seria bom dar continuidade. JĂĄ no entorpecer da maconha fresca, veio a vontade de ouvir a canção recĂ©m-lançada Parachute. E logo dançava no meio da sala rodeada de plantas, os braços chacoalhando, o quadril aquecido pelo movimento sensĂvel do corpo humano. Uma dança milagrosa, pulsando sentidos e memĂłrias dos instantes mais singelos da vida. Uma dança tĂŁo lenta que o coração parecia desacelerar para acertar o compasso. Uma dança tĂŁo frenĂ©tica e estonteante quanto o susto que, horas antes, havia paralisado o corpo. Ao ouvir o ronco de um motor de carro. O mesmo ronco do motor dos pais ao voltar sem aviso. Perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar adivinhar o que acontece atrĂĄs de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. Justo no dia em que ouvi vocĂȘ dizer: âsim, vocĂȘ era assim mesmoâ â e ver a mĂĄscara cair naquela cozinha de paredes ensebadas, o Ăłleo do tempo grudado como o tempo gasto para moldar esse trauma. Trauma de reconhecer-se tambĂ©m em suas maldades, em suas outras faces. No meio da divagação, lembrei da ausĂȘncia de cortinas em minha casa. E da janela aberta demais para os olhos alheios, fechada demais para o meu sossego. Com o corpo ainda paralisado, ouvi de novo: o ronco. o motor. numa Ășnica direção. Pensei: que louco seria permanecer dançando quando chegassem? O carro estacionado, vocĂȘs acenando repetidas vezes, na ponta dos pĂ©s, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, o sorriso se abrindo na face de quem experimenta. Daria de cara com vocĂȘs. E deixaria-me chacoalhar pela sala, o corpo deliciando-se nas alamedas diversas dos sentidos. VocĂȘs, a gritar para que eu ouvisse. E, da janela transparente para dentro, dançava o corpo faminto de expressĂŁo, de libertar o ego, de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos. Daria de cara com vocĂȘs. Os gritos ao meu nome, as batidas na lataria, o portĂŁo a ranger em alarde. VocĂȘs, agarrados ao ferro, em ĂȘxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portĂŁo para fora quando o assunto Ă© a minha liberdade. LĂ©sbica. ExĂłtica.
O dia terminou. Em uma conversa informal, com um motorista de aplicativo, de volta Ă casa. Aos tropeços abriu o portĂŁo, e ante a entrada a derrubar o molho de chaves e alguns papĂ©is. A cabeça ecoando todos os gritos, murmuros, muchochos, e conversas de todo tipo que tinham acontecido pelos corredores da escola, e enfim, de volta Ă casa. E no meio do caminho, a ideia⊠ e por quĂȘ nĂŁo um traguinho, entĂŁo? Relaxando os mĂșsculos, a cabeça Ă produzir barulho mais lentamente. Durante o esquentar da xĂcara, do cafĂ© que ansiava desmedidamente beber, depois de deixar-se cair no sofĂĄ, as pernas escorregando pelo couro amarelo gasto antigo. O livro que, intocĂĄvel desde sua compra, pairava brilhante sobre o braço. Decidi que seria bom dar continuidade. JĂĄ no entorpecer da maconha fresca. Ă que entĂŁo, logo entĂŁo, a tomar-se de si pela vontade de ouvir a canção recĂ©m lançada âparachuteâ, vagou uma dança no meio da sala rodeada de plantas verdes, com os braços a chacoalhar como o quadril que se esquentava nas curvas produzidas pelas açÔes sensĂveis do corpo humano. Numa dança milagrosa, a pulsar sentidos e memĂłrias dos pequenos instantes mais singelos da vida. Numa dança tĂŁo lerda, de fazer o coração desacelerar para acertar as batidas corporais Ă sintonia dessa obra de arte que os ouvidos foram capazes de sintetizar. Numa dança tĂŁo frenĂ©tica e estonteante. Que horas antes havia paralizado o corpo de uma Ășnica e seca vez. Ao ouvir o ronco de um motor de carros. Igual ao ronco do motor dos pais apĂłs o retorno sem aviso. De na verdade, estar perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar ver o que acontece por trĂĄs de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. E interditadas bem no dia em que ouvi vocĂȘ dizer que âsim, vocĂȘ era assim mesmo.â, e ver a sua mĂĄscara cair naquela cozinha de paredes ensebadas com Ăłleo do tempo, que Ă© o mesmo tempo que precisaram para desenvolver esse trauma. Trauma de reconhecer-se tambĂ©m em suas maldades, em suas outras facetas. No meio da divagação, lembrei que me aflige a ausĂȘncia de cortinas em minha casa. E que me desespera a janela com acesso direto Ă rua, aberta demais para os olhos alheios e fechada demais para o meu prĂłprio sossego. E com o corpo ainda paralisado Ă© o que novamente ouço. Ă o que ouço. O ronco. E o motor. Numa Ășnica direção. Penso:  que louco seria, permanecer dançando quando chegarem? O carro estacionado, vocĂȘs acenando repetidas vezes, na ponta dos pĂ©s, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, com um sorriso abrindo a face de quem experimenta. E eu daria de cara com vocĂȘs. E deixaria-me a chacoalhar pela sala, o corpo deliciando-se nas alamedas mais diversas dos sentidos. E vocĂȘs, a gritar para que o ouvissem. E claro, da janela transparente a dentro, dançava o corpo faminto pelo momento de maior expressĂŁo humana, da libertação de seus egos, da vontade de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos, de experimentar verdadeiramente das maiores situaçÔes que se possa viver. E daria de cara com vocĂȘs. Os gritos ao meu nome, a batidas na lataria do carro, o portĂŁo a ranger em alarde. VocĂȘs, agarrados ao ferro, em ĂȘxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portĂŁo para fora quando o assunto Ă© a minha liberdade. LĂ©sbica. ExĂłtica.
#terceiro
O dia terminou. Em uma conversa informal, com um motorista de aplicativo, de volta Ă casa. Aos tropeços abriu o portĂŁo, e ante a entrada a derrubar o molho de chaves e alguns papĂ©is. A cabeça ecoando todos os gritos, murmuros, muchochos, e conversas de todo tipo pelos corredores da escola, enfim, de volta Ă casa. E no meio do caminho, a ideia... e por quĂȘ nĂŁo um traguinho, entĂŁo? Relaxando os mĂșsculos, a cabeça Ă produzir barulho mais lentamente. Durante o esquentar da xĂcara, do cafĂ© que ansiava desmedidamente beber, depois de deixar-se cair no sofĂĄ, as pernas escorregando pelo couro amarelo gasto antigo. O livro que, intocĂĄvel desde sua compra, pairava brilhante sobre o braço. Decidi que seria bom dar continuidade. JĂĄ no entorpecer da maconha fresca. Ă que entĂŁo, logo entĂŁo, a tomar-se de si pela vontade de ouvir a canção recĂ©m lançada "parachute", vagou uma dança no meio da sala rodeada de plantas verdes, com os braços a chacoalhar como o quadril que se esquentava nas curvas produzidas pelas açÔes sensĂveis do corpo humano. Numa dança milagrosa, a pulsar sentidos e memĂłrias dos pequenos instantes mais singelos da vida. Numa dança tĂŁo lerda, de fazer o coração desacelerar. As batidas do corpo buscavam a sintonia dessa obra de arte que os ouvidos eram capazes de sintetizar. Numa dança tĂŁo frenĂ©tica, estonteante. Mas horas antes o corpo havia paralisado de sĂșbito. O ronco do motor. Igual ao ronco dos pais, quando voltavam sem aviso. Perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar ver o que acontece por trĂĄs de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. E foi bem no dia em que ouvi sua mĂĄscara cair naquela cozinha de Ăłleos grudados e memĂłrias congeladas. No meio da divagação, lembrei da ausĂȘncia de cortinas. A janela escancarada, aberta Ă rua. O medo do sĂșbito. E de novo: o ronco, o motor, sempre numa Ășnica direção. Penso: que louco seria permanecer dançando quando chegassem? O carro estacionado, vocĂȘs acenando repetidas vezes, na ponta dos pĂ©s, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, com um sorriso abrindo a face de quem experimenta. E daria de cara com vocĂȘs. Os gritos do meu nome, a batida nas latarias do carro, o portĂŁo a ranger em alarde. VocĂȘs, agarrados ao ferro, em ĂȘxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portĂŁo para fora quando o assunto Ă© a minha liberdade. LĂ©sbica. ExĂłtica.
#segundo
O dia terminou. Em uma conversa informal, com um motorista de aplicativo, de volta Ă casa. Aos tropeços abriu o portĂŁo, e ante a entrada a derrubar o molho de chaves e alguns papĂ©is. A cabeça ecoando todos os gritos, murmuros, muchochos, e conversas de todo tipo pelos corredores da escola, enfim, de volta Ă casa. E no meio do caminho, a ideia... e por quĂȘ nĂŁo um traguinho, entĂŁo? Relaxando os mĂșsculos, a cabeça Ă produzir barulho mais lentamente. Durante o esquentar da xĂcara, do cafĂ© que ansiava desmedidamente beber, depois de deixar-se cair no sofĂĄ, as pernas escorregando pelo couro amarelo gasto antigo. O livro que, intocĂĄvel desde sua compra, pairava brilhante sobre o braço. Decidi que seria bom dar continuidade. JĂĄ no entorpecer da maconha fresca. Ă que entĂŁo, logo entĂŁo, a tomar-se de si pela vontade de ouvir a canção recĂ©m lançada "parachute", vagou uma dança no meio da sala rodeada de plantas verdes, com os braços a chacoalhar como o quadril que se esquentava nas curvas produzidas pelas açÔes sensĂveis do corpo humano. Numa dança milagrosa, a pulsar sentidos e memĂłrias dos pequenos instantes mais singelos da vida. Numa dança tĂŁo lerda, de fazer o coração desacelarar para acertar as batidas corporais Ă sintonia dessa obra de arte que os ouvidos foram capazes de sintetizar. Numa dança tĂŁo frenĂ©tica e estonteante. Que horas antes havia paralizado o corpo de uma unica e seca vez. Ao ouvir o ronco do motor. Igual ao ronco do motor dos pais apĂłs o retorno sem aviso. De na verdade estar perto o suficiente para chegar de supetĂŁo e esgueirar os olhos para dentro da casa e para tentar ver o que acontece por trĂĄs de uma realidade que eles nĂŁo sabem qual Ă©. Pois nĂŁo lhe sobraram acessos, todas as portas foram interditadas. Bem no dia em que ouvi a sua mĂĄscara cair naquela cozinha com Ăłleos grudando momentos congelados do passado. No meio da divagação, lembrei que me aflige a ausĂȘncia de cortinas, e me desespera a janela com acesso direto Ă rua. O chegar de sĂșbito. E Ă© o que ouço. O ronco. E o motor. Numa Ășnica direção. Penso, que louco seria, permanecer dançando quando chegarem? E ao estacionar do carro, ficariam a acenar repetidas vezes, e atĂ© ficariam na ponta do pĂ©, com o corpo a chacoalhar-se. E a dança no seguir de seu fluxo, se intensificando agora com um sorriso a surgir na fase de quem a experiencia. E eu daria de cara com vocĂȘs. Chacoalhando-se ainda mais, começando atĂ© a suscitar um ou dois gritos de meu nome. E claro, da janela transparente a dentro, dançava o corpo faminto pelo momento de maior expressĂŁo humana, da libertação de seus egos, da vontade de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos, de experimentar verdadeiramente das maiores situaçÔes que se possa viver. E eu continuaria a dar de cara com vocĂȘs. Agora a gritarem desesperados portĂŁo a fora, de baterem nas latarias do carro para que o barulho pudesse fazĂȘ-los de alarde para o convite de entrarem. E deixaram-se loucamente, a agarrar o portĂŁo e, em ĂȘxtase frenĂ©tico, fazĂȘ-lo grunhir e riar com estrondosos e dissonantes barulhos. Meus pais. Do portĂŁo para fora quando o assunto em questĂŁo for a minha liberdade. LĂ©sbica. ExĂłtica.
#primeiro
The Hαnged Man
Commissioned illustration for a tarot card deck.
Prints here!

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De todas as coisas que demorei a entender na vida, essa foi uma. Nada Ă© maior do que nossos desejos.
Se tua voz paira em mim... porque Ă© a Ășnica possibilidade que eu tenho para olhar em seus olhos. Ă quando fala para mim. E eu te olho profundamente, mas nem sempre aos olhos. Porque sĂŁo perigosos. Se miro em teus olhos, olho por um segundo. RĂĄpido, gĂ©lido. E alterno entre os ombros, a roupa, a parede, o ambiente. Olho e nĂŁo olho. Tenho medo de te olhar, e nĂŁo te conheço. SĂł sei que disse ser bruxa. TerĂĄs feito alguma bruxaria a cair sobre mim? Dize-me: foste tu que me enredaste ou fui eu que me ofereci ao feitiço dos teus olhos?