A voz hostil de uma autoridade que te repreende sem justiça lá fora funciona como um gatilho maldito que arromba as portas do passado e traz de volta o eco dos gritos de um padrasto na infância fazendo a mente fragmentar e o peito desabar em choro num quarto escuro onde o sono parece ser a única anestesia possível para a alma. Mas a beleza dolorosa do processo Border não está na queda inevitável no abismo da memória mas sim na capacidade brutal e poética de recolher os próprios pedaços no chão e colar cada caco com o ouro da filosofia e a lucidez do só por hoje. O menino assustado visitou o seu presente ontem mas ele não tem mais morada aqui porque você acordou de cabeça erguida governando o seu templo e usando os livros como escudo contra a ignorância alheia. O veneno do outro só te adoece se você engolir e a sua dignidade é valiosa demais para ser negociada pelo mau humor ou pela covardia de quem está acima de você na hierarquia do mundo. Só por hoje entenda que chorar faz parte da limpeza mas levantar-se com a mente blindada é o que te faz incriável então sacuda a poeira e faça da sua cicatriz a poesia mais inovadora que esse domingo vai ver.














