O nosso dia-a-dia é feito de partilhas. E ontem aconteceu-me uma outra coisa maravilhosa, um outro feedback, uma outra opinião acerca deste blog e da minha partilha com o Mundo, ou pelo menos com quem tenha pachorra para os ler...
A verdade é que não tenho muitos feedbacks relativamente ao que para aqui escrevo e quando os tenho enchem-me o coração. Sei que, uma vez por outra, toco o coração por quem já passou por este ou outro problema psicológico e é por vocês (e por mim) que vos escrevo.
Vou tentar contar-vos aquilo que se passa para que entendam que esta doença tão ligada a imagem corporal por vezes está intrinsecamente colada à imagem psicológica que temos de nós. O que vos tento passar é que por vezes pensamos tão pouco de nós que escrutinamos o nosso físico, mas isso é só o que os outros vêem, a verdadeira destruição vem de dentro.
Não me considero uma pessoa fútil, sim sempre liguei á imagem mas na realidade nunca foi algo que me preocupasse. Até porque nunca me achei bonita. Aliás tenho aquela ideia de mim, de ser aquela rapariga que passa despercebida no meio de meia dúzia de "gatos pingados". Não tenho nada que me distinga. Porque como tantas outras pessoas que conheço a beleza passa despercebida ao primeiro olhar, sendo preciso um olhar mais atento. Olhar para dentro. Sempre achei (e acho), sem qualquer ponta de ciúme ou inveja, que as minhas amigas era mais bonitas do que eu. E isso sempre me fez feliz, estar rodeada de beleza.
Tive uma infância complicada. Saí de casa aos 17 anos, ainda com poucos pêlos púbicos psicológicos, aprendi mal ou bem a safar-me sozinha, Tornei-me uma pessoa desapegada dela própria e de qualquer emoção mais pura que me pudesse fazer feliz mas ao mesmo tempo destruir. Achei e construí-me com base na minha inteligência. Nada mais importava, se era feia, gorda ou estúpida, Era inteligente, tinha um futuro brilhante á minha frente. Apoiei-me nisto como se fosse uma verdade absoluta. Não, mais do que isso, como se fosse a minha verdade absoluta. Nada mais poderia ser válido. Apenas isto.
Formei-me, dei o litro. Trabalhei 12 horas/dia, 6x por semana para ser Mestre. E quando finalmente acabei, não havia nada. O meu cérebro não me safou. A minha vida, o meu sustento emocional ruiu. Tudo aquilo que achava de mim, aquela única coisa que me susteve desapareceu. Senti-me nada, ninguém. O controlo, a organização que tinha nunca existiram mas aguentei-me assim durante a minha vida toda. Cresci sozinha, sem perceber ou alguém para me dizer que eu era (tão) mais do que isto.
Quis morrer. Quis desaparecer. o controlo que tinha pela comida dava-me algum alento, fictício, percebi eu meses depois quando aquela única coisa que controlava, tornou-se aquilo que me controla. A minha mente que tanto prezava e que tanto abusei, traiu-me. E deu lugar aquela amiga que sempre cá esteve, e que sempre deitava abaixo.
A minha anorexia nasceu da necessidade de controlo. Ter algo na minha mão que pudesse controlar. Estou a aprender que não há nada nesta vida que seja plenamente controlado por nós. Porque quando pensamos que esta merda só acontece aos outros, porque somos inteligentes, isto ou aquilo, quando temos o rei na barriga, haverá algo sempre que nos fode (falando o bom português).
Estou a aprender que sou mais do que brains. Que valho mais do que a merda dos cursos superiores que tenho. Que apesar de tudo, sou lutadora. E que tenho o que é preciso para ultrapassa isto e ajudar quem me quiser "ler" pelo caminho.