Sobre um homem pálido e suas asas silenciosas
“Lembro-me como se não tivessem se passado mais do que alguns dias, embora sejam anos que me separam de nosso primeiro encontro... Naquele tempo mal sabia eu como pronunciar de forma rápida meu próprio nome. Minha mãe havia me acordado naquele dia acariciando meus cabelos, ainda dourados à época, e quando abri os olhos me deparei com uma cena de cortar o coração:
— Meu filho — dizia ela com uma voz suave e trêmula — você precisa ser forte! Sua amada vovó virou um anjo...
Embora sua voz fosse calma e serena, em seu olhar havia a mais genuína tristeza e desamparo, e lágrimas copiosas escorriam pelo seu rosto. Com a mesma ingenuidade e petulância juvenil que o pobre animalzinho que agora carrego apresentou, eu apenas ri, sem de fato compreender o que acontecia, e na simplicidade de uma criança corri até o quarto da minha avó para mostrar que ela estava apenas a alguns passos de distância, não havia porquê chorar. E antes que minha mãe conseguisse me conter adentrei ao quarto e vi uma cena que me marcaria para sempre.
Ali, naquele quarto estava meu pai, e pela primeira vez o vi chorando, e em suas lágrimas escoavam a desilusão, como quem se recusa a aceitar algo do mais concreto no mundo, junto dele estavam minha irmã e meus primos mais velhos e todos mostravam a mesma tristeza arrebatadora de meu pai. Minha vó por outro lado parecia destoar desse contexto de dor e sofrimento, deitada em sua cama seu semblante era da mais profunda paz, como eu nunca antes havia visto em seu rosto, e foi ali, na janela de seu quarto que o vi pela primeira vez, um corvo diferente de todos os que já havia visto antes, branco em sua totalidade, e seus olhos de verde brilhante como a mais bela das esmeraldas, e ao coçar meus olhos para ter certeza do que enxergava, pois nem ao menos o escutei pousar, já não havia mais corvo algum. Em seu lugar vi um homem, que se aproximava lentamente de minha avó, era alto, de pele pálida, mas não de forma doentia, um pálido como se a luz ao mesmo tempo atravessasse e refletisse em seu corpo, seus cabelos eram ruivos e intensos, como as chamas que aquecem uma noite fria, trajava uma armadura cintilante, e dependendo da iluminação ou de seu movimento ela podia ser tão alva como a mais pura prata e tão negra quanto a mais afiada obsidiana. Eram seus olhos porém que chamavam a atenção, um era verde como os campos no verão, e trazia em si um conforto e ao mesmo tempo uma ferocidade implacável, o outro era cinza-prateado, e cheio de uma paz e uma tristeza solidária. O homem então chegou até minha amada avó, e em seu porte havia um ar de realeza inquestionável, e apesar de estar plácido e ter em seus lábios um sorriso convidativo parecia que de todos ali presentes era ele quem sentia a mais profunda dor, colocando sua mão sobre a mão de minha avó que repousava sobre o peito, ele disse alguma coisa, e pareceu que a boca de minha vó se abriu e dela saiu o que eu entenderia depois por seu último suspiro, o resto de vida que ela ainda tinha em si, e sua expressão naquele momento pareceu ainda mais plácida e satisfeita do que antes. Tudo isso durou não mais que alguns segundos, e logo já não havia mais ninguém ali além de meus familiares, e então eu tomava conhecimento da situação e era minha vez de sentir a dor e a perda, de forma que a presença daquele homem pálido se esvaiu da minha mente por completo, e só voltei a recordar disso tudo no momento do nosso segundo encontro...”
















