A música que havia composto era um misto de sentimentos que nunca havia externalizado para o amigo de infância, todos os seus medos, arrependimentos e total devoção. Mafuyu era realmente um dos pilares mais sagrados que sustavam sua vida, nem ao menos imaginava viver sem o companheiro. Conseguiu manter a compostura durante toda a performance, e deveria ser por culpa da prática, uma vez que durante um bom tempo, não conseguia cantá-la sem se emocionar e precisar parar a cantoria. Se fosse capaz de transmitir tudo isso e mais um pouco, já estaria satisfeito.
Quando o loiro finalmente cruzou os olhares com os do outro, pôde notar um brilho vindo dos pares cor de salmão, sentiu até um arrepio inexplicável percorrer todo o corpo, prevendo o que aconteceria ao notá-lo se aproximando. Deslizou sua guitarra até tocar o chão, apoiando-a na mesa da escrivaninha sem ao menos certificar-se da posição. Levantou-se e o recebeu num abraço amoroso; um calor bastante familiar lhe atingindo o corpo infinitamente. Mafuyu era delicioso. Será que ele não se importava de sua boca permanecer com os resquícios da bebida alcoólica? Pela intensidade em que as línguas se entrelaçavam poderia supor que não. Sentia uma paixão imensa na carícia trocada, era como se as duas almas fossem feitas uma para a outra. Se encantava com os sons produzidos pelo ruivo, achando-o extremamente sensual. Yuki sorriu com as bochechas coradas, mirando os lábios recém afastados, ele era lindo demais… – “E-Eu também… Te amo muito.” – Fitou os olhos marejados, sentindo que havia tocado verdadeiramente o outro. Era sua intenção, não? Apertava a cintura do namorado contra o próprio corpo, como se não quisesse soltá-lo nunca mais. Os lábios do namorado eram tão macios que a vontade de lhe morder não o deixava em paz, ainda que o fizesse constantemente, nos lábios inferiores e superiores.
O garoto estava tão nervoso que sentiu as mãos começarem a esfriar de leve. Ficou imaginando como seria pedir o ruivo em casamento; só para entregá-lo o presente valioso já estava daquele jeito, imagina quando essa hora chegasse, seu coração parecia que iria fugir de seu peito tamanha aceleração. Separou gradualmente o beijo apaixonante, proferindo rente aos lábios do ruivo. – “M-Mafuyu~… Estamos a mais de sete meses juntos…” – Se distanciou um pouco mais, afrouxando o abraço contra sua vontade. Deslizou as mãos em ambos os braços do menor, segurando as mãos delicadas com certa ansiedade.
Soltou os dedos agradáveis pra enfim, pegar o presente dele que estava guardado na gaveta de sua escrivaninha. – “Então eu achei q-que– já estava mais do que na hora gente oficializar– nosso namoro.” – Estendeu o embrulho para o ruivo, totalmente envergonhado. Yuki sabia que Mafuyu não era de usar muitos acessórios, e mesmo assim insistiu em comprar-lhe um anel fino e dourado, que modéstia a parte, era tão gracioso como ele. Como uma alternativa, a funcionária da joalheria incentivou o garoto a comprar uma corrente mediana, que combinasse perfeitamente com a aliança sem pedraria.
Dentro da caixinha de grife de coloração preta e laço azul marinho continha apenas um anel e uma corrente, uma vez que a sua respectiva joia já estava sendo usada no pescoço. A blusa cinza de moletom escondia perfeitamente a surpresa. – “Eu deveria ter feito um pedido de namoro decente… M-Mas acho que posso me redimir com esse presente agora…” – Os lábios tremeram em receio, precisando arregaçar as mangas até os cotovelos na intenção de tentar se refrescar um pouco.
A vontade de beijá-lo e poder senti-lo era enorme a ponto de ignorar qualquer vestígio alcoólico que fora deixado na boca do parceiro. Não se importava, amava o gosto do namorado de qualquer jeito, apenas aproveitando as sensações prazerosas que o ato espalhava em seu corpo. O lábio inferior movia calorosamente conta o outro, na medida em que as línguas se envolviam em sincronia e perfeição, sendo de longe o melhor beijo que já dera em Yuki. Seu corpo era quente e se arrepiava momentamente com as mordidas que recebia, não conseguindo segurar pequenos gemidos em meio a ação, deixando que tudo fluísse de forma natural e espontânea.
Acompanhou a separação dos lábios de forma lenta e gradual, podendo notar pelas expressões do ruivo que o mesmo estava nervoso. Não compreendia o exato motivo, porém em nenhum momento o questionou, deixando que o mesmo se pronunciasse conforme sentia a vontade e necessidade. Quando o discurso começou, pode sentir uma sensação gélida no peito. ‘Sete meses...’ – o tempo parecia ter voado, era como se tivesse acontecido ontem. Lembrava perfeita da noite em que estava deitado no colo do amigo, as palavras saindo com dificuldade, anunciando que gostava do mesmo, tendo como resposta um beijo inexperiente acompanhado de um pedido informal e simples, porém, perfeito para a ocasião. Ficou chateado ao ter o corpo afastado, se dependesse de si, ficaria abraçado com ele o restante da noite, mais nada no mundo importava naquele momento, a não ser a presença do amor da sua vida.
Mafuyu acariciava os dedos alheios sutilmente, aguardando ansioso para o que estava por vir, as surpresas pareciam não acabar. Pegou a pequena caixinha com ambas as mãos, soltando o companheiro apenas neste momento. Os olhos, ainda marejados, miravam com curiosidade o tamanho peculiar do embrulho, demorando alguns segundos antes de puxar a pequena fita. – “Mas já não oficializamos antes?” – questionou incerto. Deixou que a fita caísse sobre o chão, preocupado apenas com interior do presente.
Assim que abriu, sentiu uma sensação nova, difícil de explicar, como se fosse banhado por toda a felicidade possível e existente no universo. O presente contava com uma pequena almofada preta, apenas para acomodar uma linda aliança fina e dourada, ausente de pedraria, junto a esta, uma corrente que combinava perfeitamente. Uma gota atingiu a superfície macia que sustentava o belíssimo anel, então outra atingiu o pequeno embrulho, com dúvida, o ruivo levou a mão esquerda até o rosto, tendo a certeza que estava chorando. Não se recordava quando foi a última vez que de fato chorara, normalmente as lágrimas não caiam, permaneciam estagnadas nas pálpebras, porém naquele momento elas cederam, caindo lentamente a medida que deslizavam sobre a pele macia e clara de seu rosto.
As palavras foram engolidas, não tendo um ponto de reação, ficando por longos dois minutos na mesma posição, processando todas as novas informações que eram digeridas aos poucos. Chorava em silêncio, um choro de felicidade, relevando um sorriso largo e encantado. Fungou trêmulo, à medida que a mão saia de seu rosto e diria desengonçada até a aliança, segurando-a delicadamente. –“Yu-Yuki...” – chamou baixinho. Antes de prosseguisse, afastou-se apenas para deixar o embrulho sobre a cama do amigo, levando consigo apenas o objeto redondo com a corrente pendurada. Em silêncio, pegou na mão direita do loiro e depositou a aliança em sua palma, a medida que abaixava a cabeça lentamente para que o parceiro colocasse o colar em si. – “Po-por favor...” – a voz era falha, porém sabia que o namorado iria entender suas intenções. As lagrimas aumentavam a intensidade de queda, ainda que fosse menor do que o choro de qualquer outra pessoa.