Sobre o dia que eu fui embora
Você tem o sono tão pesado que nem percebeu quando eu coloquei meus pés no chão e caminhei em direção à porta. Às vezes você levantava fumar um cigarro e eu ficava na cama apenas memorizando seus gestos. Eu sempre tive o sono muito leve, do tipo que qualquer estalo fazia meus olhos escancararem. Então eu sempre acordava antes de você e ficava esperando você acordar. Não desta vez. Eu já não sentia mais minhas bochechas corarem quando ouvia sua voz e nem as borboletas no estômago quando tua pele tocava a minha. Eu só estava angustiada. Eu visualizei nós dois juntos em diversos momentos que estão por vir na minha vida. Eu coloquei você em todos. Mas você não sabia. Quando a nossa conversa já não fluía tão facilmente como antes eu percebi que era hora de partir. E foi aí que a angústia tomou conta do meu peito e ali tem feito casa desde então. Teu braço estava na minha cintura e eu não sabia como tirá-lo de lá mas o fiz mesmo assim. Levantei, peguei minhas roupas e fui saindo do quarto sem conseguir olhar pra você. Me vesti no corredor e minha cabeça estava borbulhando. Achei um bloquinho e numa folhinha escrevi apenas “você sabe” e um coração. Foi como começamos. Com um bilhete. E terminaríamos assim também. E você sabia disso. Você sentia isso também. Voltei e coloquei ele no lugar onde eu estava deitada e saí sem olhar para trás. Eu não sei se você não percebeu que isso estava por vir já que tento fazer isso há alguns dias – mas não sabia como. Não queria que doesse tirar você de mim e a angústia não sumiu totalmente desde que eu parti. É aquela briga entre a razão, saber que o que você fez foi o certo e que você fez o suficiente e o coração que, mesmo apertado, queria tentar um pouco mais. Eu só não podia deixar a casa mais bagunçada do que já está – porque é isso que você estava fazendo. Uma bagunça tão grande que eu não achava mais nada. Nem eu mesma. E eu não podia continuar assim. Eu preciso de calmaria agora. Você me entende, não? Eu preciso enxergar todos os caminhos à minha frente e escolher o certo mas com você ali eu não conseguiria. Eu preciso ter o controle de qualquer coisa na minha vida e com você eu não tenho controle de nada porque é sempre um jogo e isso me mata porque eu não sei jogar. Dizem que tornamos mais exigentes após passarmos tanto tempo solteiras dando de cara na porta por aí. Não sei se foi isso que aconteceu, mas eu não estava mais me contentando com as nossas conversas meia boca. E eu não digo sobre ficarmos falando o tempo todo, porque eu também sei apreciar o silêncio que envolve nossos olhares se encontrando. Somente nossos momentos – que por mais calorosos e intensos que fossem – já não me bastavam mais. Seus joguinhos, você ser desligado, o que quer que fosse, já se tornava previsível e eu não gostava mais. Eu sempre deixei claro isso para você. No momento que eu sentisse as coisas estagnadas e seus jogos me cansassem eu pularia desse precipício que era essa nossa relação. E eu pulei (e você não me segurou). (A.)















