i don't wanna talk about it â flashback
Esperou alguma reação do garoto, que demorou a vir. Cruzou os braços e estava pronta para perguntar novamente quando ele começou a se mexer. Foi uma surpresa para a Dutton perceber os machucados no rosto do outro. Aquele era o Ășltimo motivo que imaginaria para King estar ali. O rosto inteiro do garoto possuĂa uma coloração vermelha, nĂŁo sĂł por causa do sangue, grande parte seco, que estava ali. Conseguiu reconhecer um corte no canto da boca, outro um pouco maior na regiĂŁo do supercĂlio e os dois olhos extremamente vermelhos, provavelmente resultado de uma pancada forte.Â
Percebeu tambĂ©m as mĂŁos trĂȘmulas, o que a fez ficar ainda mais confusa. Começou a se arrepender de ter sido tĂŁo grossa com ele. Mas, em parte, estava certa. Tinha o direito de estar assustada por ele ter invadido sua casa, certo? Ouviu o que ele tinha a dizer, assentindo brevemente. Que ele precisava de um curativo era Ăłbvio. O que Autumn estava desesperada para saber era o que tinha causado aqueles machucados. Mas nĂŁo perguntaria naquele momento. Viu a posição dele mudar para o posto arrogante que estava acostumada a ver e revirou os olhos. Entendia que King sentia-se humilhado, mas achava que ele nĂŁo deveria. NĂŁo estava ali para julgĂĄ-lo, estava ali para ensinĂĄ-lo a deixar-se ser ajudado.Â
âSenta aĂ.â Ordenou, apontando para a cama. Foi atĂ© o banheiro e lavou as mĂŁos, como a mĂŁe sempre lhe ensinara. Ser filha de uma enfermeira finalmente tinha alguma utilidade. Voltou ao quarto e sentou-se de frente para ele, puxando a mesinha de centro para perto e depositando todo o conteĂșdo da mochila ali. Arregaçou as mangas da blusa que usava e segurou o rosto do garoto pelo queixo, virando-o para os dois lados, para que pudesse analisar a situação por inteiro. NĂŁo se importava com o fato de talvez nĂŁo ter intimidade o suficiente para fazer aquilo. Era uma necessidade. Percebeu alguns arranhĂ”es leves, que nĂŁo tinham sangue seco como os outros machucados. Balançou a cabeça e soltou o rosto dele.Â
âImagino que nĂŁo tenha escalado a janela de primeira, nĂŁo Ă©?â Indagou, enquanto preparava o antissĂ©ptico e molhava um algodĂŁo com o remĂ©dio. Decidiu que cuidaria primeiro do corte mais grave, no supercĂlio. E o primeiro passo era limpĂĄ-lo e desinfetĂĄ-lo. âVai doer. Muito, mas vou tentar ser rĂĄpida.â Avisou, encostando o algodĂŁo delicadamente no corte e limpando o sangue. Sem o mesmo, o corte era muito menor do que parecia. Descartou o algodĂŁo e começou a preparar outro. âEsse aqui nĂŁo foi culpa da minha janela.â
âSim, senhora.â Retrucou, em um tom de zombaria. Tomou um lugar na cama, olhando ao redor enquanto a esperava, analisando, principalmente, a tranca da janela. NĂŁo sabia quando poderia precisar da ajuda de Autumn novamente, entĂŁo era melhor ter uma carta na manga. Na prĂłxima vez â se houvesse uma prĂłxima vez â teria uma âaterrissagemâ mais bonita no lado de dentro do quarto.
Quando ela voltou e começou a organizar os materiais, passou a acompanhar os movimentos das mĂŁos habilidosas, tentando fixĂĄ-los na mente, mas seu rosto foi subitamente puxado. Fechou os olhos por um momento e resistiu ao impulso de se encolher, sentindo o coração martelar a caixa torĂĄcica pelos momentos seguintes. Autumn nĂŁo era seu pai, e nĂŁo faria nada de ruim consigo, mas era algo instintivo, que fora obrigado a aprender apĂłs anos de violĂȘncia. Encolher o corpo deixava menos partes do corpo Ă mostra, o que significava menos ferimentos. TambĂ©m fazia com que apenas as partes do corpo que poderiam ser escondidas fossem atingidas.
âNĂŁo. Eu nĂŁo sou acostumado com exercĂcio fĂsico.â Fez uma careta, como se a palavra provocasse um gosto ruim em sua boca. E provocava mesmo. King costumava dizer que era alĂ©rgico a qualquer atividade fĂsica, e mal se importava com todo o colesterol que ganhava comendo porcarias diariamente. Seu coração poderia se danar, ele nĂŁo estava nem aĂ para as artĂ©rias entupidas. âEstou acostumado. SĂł faça.â Comprimiu os lĂĄbios ao sentir o algodĂŁo na pele, contendo qualquer som provavelmente humilhante que os deixaria se nĂŁo o tivesse feito.
O Ășltimo comentĂĄrio o fez ficar calado por um longo e torturante momento. Entreabriu os lĂĄbios e respirou pela boca enquanto brigava mentalmente consigo mesmo. Autumn estava lhe ajudando e merecia saber alguma coisa, certo? Mas ele nĂŁo podia colocar o pai em apuros, porque era parte de sua famĂlia, uma parte importante. Suspirou profundamente quando finalmente tomou coragem para dizer alguma coisa, querendo contar a histĂłria real de todos aqueles machucados, mas no Ășltimo momento perdeu toda a coragem que reunira nos Ășltimos segundos. Apertou os punhos enquanto falava. âEu sĂł... CaĂ. Muito, muito feio. Um lance de escadas, acabei... Torcendo o tornozelo.â
King era um bom mentiroso, mas perdia o talento depois da surra que lhe deixou meio grogue. Era acostumado a contar mentiras para as enfermeiras e médicos que cuidavam de seus ferimentos quando pequeno, e sempre mentia para o pai sobre os lugares que frequentava. Também mentia para a mãe sobre os machucados. E eles sempre acreditavam nas histórias bem articuladas. Se Autumn acreditaria ou não? Ele não sabia, e não se importava. A maioria das pessoas aceitava ouvir algo que, claramente, era uma mentira, ao encarar a verdade cruel. Esperava que ela fosse uma dessas pessoas.













