Na avenida do coração, silêncio
Entre serpentinas e confetes mil, meu coração se alegrava mesmo era por ti. Não sei se algum dia tu chegou a ter realmente a exata noção disso, mas tu sempre foi o meu bloco preferido, o único no qual eu sentia prazer de estar participando. Eu sei que a analogia é falha, porque o nosso relacionamento foi bem mais curto do que o prazo de duração pra um bloco de carnaval. Mas tu sabe como é, eu não consigo sentir pela metade, e a minha intensidade talvez tenha sido o princípio do fim de tudo o que poderia ter existido entre a gente.
Naquele dia, chovia. De alguma forma, o céu já sabia do final dessa história, e antecipava as lágrimas amargas que mais tarde eu derramaria. Nós estávamos distantes. E eu não digo isso apenas pelos quilômetros que nos separavam fisicamente, mas pelas milhas que te afastavam do meu coração naquele exato momento. Já acostumado a finais trágicos, meu cérebro processava tuas palavras de forma paranoica e cheia de defesas estratégicas, mas o coração, numa eterna fantasia de boco da corte, não conseguia levar nenhuma daquelas previsões mirabolantes a sério. Ao mesmo tempo, aquela chama quase extinta de esperança reluzia diante dos meus olhos, e voltava um pouquinho maior a cada resposta. Toda a frieza que tuas palavras carregavam, no entanto, matou-a pausada e irreversivelmente.
Em determinado ponto da conversa, não havia mais tempo para enganos. E eu também não consegui mais fingir que tudo estava lindamente tranquilo, que tudo era festa, que a música que nos embalara até ali continuava tocando em algum lugar no fundo da minha mente e que importava apenas o fato de tu ainda estar, de alguma maneira, ali. Porque tu simplesmente já havia decidido ir. E eu, tola e cheia de reservas, estava com medo de confirmar isso.
Acho que já conversamos milhões de vezes sobre todas as feridas que meu coração já ganhou e todos os risos que ele já proporcionou com os martírios cruéis que infringe a si mesmo, lembro que tu prometeu não ser igual a todos os outros. E no final, não consigo encontrar forma de te culpar por ter ido embora. Se as tuas palavras doeram naquele momento? Elas ainda doem, dengo. Mas eu, no auge da insanidade, tento compreendê-las. E, por mais incrível ou doentio que pareça, elas fazem sentido.
Tu disse que precisava se curar, disse que, antes de mim, precisava pensar em ti mesmo. E tu tá certo, em cada vírgula. Não posso te contrariar. O que eu não entendo, de jeito nenhum, mesmo pensando nisso durante todas as madrugadas desde que tu definitivamente se foi, é a tua última frase. Me diz, explica: como eu faço pra permanecer na tua vida, como tu afirmou querer, se tudo o que tu fez até agora foi me tirar delas, aos pouquinhos?
Nessas alturas, depois de tanto remoer todos os indícios e pistas que eu recolhi nas horas gastas em processar essas poucas palavras que causaram um estrago tão grande, cheguei a duas conclusões, e não gostei de nenhuma delas. Se tu me disse isso como forma de me prender a ti de alguma maneira, sem nenhuma intenção de corresponder a isso em algum momento da vida, tu foi frio e cruel, tudo que tu disse que não seria. Por outro lado (confesso que desse eu gosto um pouco mais, porque meu coração, como bom bobo da corte, se enche de esperança com essa opção), teimo em pensar que tu talvez esteja apenas confuso, e não saiba exatamente o que fazer com esse turbilhão de emoções latentes chamado eu.
Eu já escrevi milhares de tentativas de mensagens não enviadas pedindo alguma luz sobre o assunto nós, se é que ele algum dia fez parte do teu repertório nessa festa bizarra e temporária que eu fui pra ti. Nenhuma delas chegou perto de tudo que eu tô escrevendo aqui, e que provavelmente nunca chegará as tuas mãos. Porque é exatamente essa a intenção desse texto: nunca ser lido. Assim como tu nunca quis se aprofundar em mim, prefiro acreditar que as minhas loucuras transcritas pra essa folha em branco que está diante de mim neste momento também não serão tema dos teus mais sinceros interesses.
Por isso eu te poupo do trabalho. De me conhecer. De me aprender. De seguir em frente apesar dos meus pesares, que não são poucos. Eu reconheço todas as falhas, traumas e abismos que existem em mim, e eu adoraria que tu trafegasse em cada um deles, como um trem elétrico, transpirando luz e sonho, fechando cada brecha, cada ferida, cada machucado. Eu não posso, porém, te obrigar a isso. Nem tenho a pretensão de mudar tua opinião a respeito desse trajeto árduo e complicado. Por isso a verdadeira intenção deste texto é nunca sair de dentro da gaveta fechada da minha cômoda, onde ele ficará trancado pelo resto da vida útil que lhe restar, antes de eu rasgá-lo em pedacinhos em algumas das minhas faxinas rotineiras e pregar pela centésima vez a mim mesma que eu preciso deixar as bagagens extras pelo caminho se quiser andar de cabeça erguida.
É estranho que o primeiro texto que eu escreva endereçado a ti seja já uma despedida, mas isso é, de alguma forma, previsível. Meus carnavais não costumam durar muito tempo, e eu já me habituei à rapidez com que os foliões (em todos os sentidos possíveis do termo) vão embora, levando um pedaço de mim consigo. Quem sabe a intensidade que tanto assusta, e com a qual eu vivo cada instante, tenha origem exatamente no estranho e idiota intento de aproveitar cada segundo antes que a música acabe, a ressaca apareça e eu fique mais uma vez resignada ao meu bloco do eu sozinho. Na verdade, o que eu quero é a mesma coisa que tu quer, que todos querem, na maior parte da sua vida: me curar. Me salvar de mim mesma, talvez. Me tirar desse poço que parece não ter mais fim e voltar a, enfim, respirar por conta própria.
Eu me odeio por sempre depositar expectativas de felicidade em pessoas que nem sempre estarão dispostas a atendê-las, ou estarão preparadas para lidar com elas. Mas dentro desse estranho ser que habita em mim, lá no fundo, está a certeza de que, enquanto eu não conseguir aceitar que esse é o meu jeito único e torto de amar, aquele carnaval eterno que dizem ser o amor nunca chegará até meu peito. E eu sigo, então, tateando no escuro em busca do ideal de mim que eu ainda não sei exatamente se consigo alcançar. E, por conta dessa mania esquisita e suicida de querer me adaptar a tudo e todos é que tu foi embora. Por conta dessa mania é que os pandeiros continuam parados dentro do meu coração, a avenida continua interditada, as fantasias ainda estão inutilizadas, e as serpentinas e confetes não mais giram no ar daquela maneira bonita, que hipnotiza e encanta ao mesmo tempo. Acho que, se algum dia tudo sair do controle, e esse texto for parar nas tuas mãos, tu vai chegar à mesma conclusão que eu: sou meu pior inimigo.