Da janela do meu quarto alguns anos atrás ouvia-se o samba até de manhã do batuque, a gritaria os retratos da vida alheia fragmentados na rotina das janelas dos vizinhos a dois metros das minhas Reclamei e praguejei dos malditos barulhos que não cessavam escrevi muitas crônicas e não sabia muito sobre poesia pensei odiar a dinâmica e talvez até odiasse mas a vida é fluida e eu gosto do movimento Da janela do meu quarto via-se o Cristo Redentor mas só nos dias de céu limpo do outro lado da Baía a lateral traseira da estátua o que era muito melhor que a fronte porque dava espaço à imaginação Imaginei a fronte de Cristo ele me olhava com os olhos fixos e eu o olhava de volta com olhos de súplica para que me tirasse de lá As janelas da minha casa permaneciam sempre fechadas e eu me fechava pro mundo só falava por papel e chorava todos os dias Me mudei para outro apartamento procurei um pouco de sossego hoje tenho outra janela que encara uma árvore grande e bonita e que quando florece cobre a calçada com um tapete vermelho como em uma cerimônia importante enche os olhos de vivacidade vibra com o enorme sol ao céu e é quando eu menos escrevo Da minha nova janela, o ar parece mais leve tentam trazer a natureza pra perto e as plantas são bonitas mas elas não dão frutos as pessoas não sorriem para estranhos sinto uma falta desassossegada Olho pela janela e já não há outra janela a visão é bonita, mas não é entrecortada tenho um sono silencioso, obrigado mas já não vejo Cristo ao longe ainda que de costas pra mim.

















