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Mesmo não tendo restado sequer um pedaço de mim, continuo de pé ou pelo menos ajoelhado, o que importa não é o corpo, são as minhas mãos que seguram aquele caderno preto de anotações, o caderno onde eu escrevo, o caderno onde eu me desfaço ao som dessa música de fundo, a música que me leva às lágrimas internas, já chorou sem derramar lágrimas? Às vezes me ocorre uns problemas assim, às vezes me completa algo assim, eu me faço transbordar de dor, é bom sentir algo, para diferenciar da minha total apatia. A verdade é que não sou apático, não mesmo, cada parte de mim sente uma vontade louca e desesperada de sentir algo, por você ou por alguém, por todos ou mesmo por ninguém, quer sentir, ser e estar, quer apenas fazer parte, o que se passa verdadeiramente é que ponho meus sentimentos numa linha e como não sei lidar com nenhum deles, acabo por negligenciá-los, não os uso comigo, mas também não dou para ninguém, apenas assopro quando uma flor pousa em minha mão, eu assopro e ela vai bem longe. Muito mais longe do que eu tenho certeza que irei um dia. Me dói, dói sim pois não sei ao certo como deveria respirar, como me preparar para esse tipo de aventura? Como eu deveria estar pronto para enfrentar meus fantasmas de frente? Nunca fui muito bom com coisas sobrenaturais e cada vez que me orgulho de fugir das palavras ácidas, elas me encontram, eu apenas varro meus problemas para debaixo do tapete, em algum momento terei que os juntar com um apanhador, mas eu sempre prefiro não, é que na realidade é mesmo difícil se ver livre, se ver livre das preocupações e do desespero, a felicidade é mais difícil de aceitar do que a dor, a dor é apenas engolida como um remédio ruim que desce com um ou dois goles de água, a felicidade precisa ser digerida e isso dá muito trabalho. Eu sempre pareço estar ocupado demais para ser feliz. Hoje, enquanto admirava o silêncio e a escuridão pela terceira ou quarta vez em menos de uma semana, me peguei pensando o que há de tão caloroso no escuro, acho que no claro podemos enxergar a nossa solidão, no escuro nós apenas aproveitamos o silêncio, não é agradável se sentir solitário, mas é muito bom estar sozinho, eu estou cansado disso para ser sincero, estou cansado de sentir a insuficiência me descer a garganta como um gole grande de um remédio amargo. Estou cansado de dançar valsa com essa necessidade inacreditável de ser útil, eu poderia aceitar a inutilidade, ela é fiel e está sempre presente, mas por que não consigo aceitar ser eu? Porque não é agradável ser quem não se almeja, eu desejo ser melhor, mesmo que não saiba como, desejo. Eu só preciso de uma luz. Eu tento ser minha própria luz vez ou outra, tento tirar a venda de meus olhos, tomo um pouco de ar e sigo em frente, é melhor quando não temos um destino, se não soubermos para onde ir, qualquer lugar será nossa linha de chegada, qualquer lugar será para onde temos que ir. Volta e meia eu faço isso, tento me encontrar num lugar qualquer, tento ser alguém melhor com poucas coisas, vez ou outra construo algo de mim que sei que não vai se realizar, traço planos que tenho certeza de que tão cedo não irei seguir, mas o importante é estar disposto a programar coisas, enquanto eu puder pensar no que fazer, em algum momento farei de todo o jeito. E mesmo que todo texto tenha um predicado, acho que esse é o meu primeiro que não tem. Sou apenas eu lidando comigo mesmo, com o azedo, a dor e a indiferença, minha mania do inalcançável, do impossível e de estar sempre insatisfeito com tudo, preciso me satisfazer com minha presença, mas eu não sou muita coisa, pois não? Eu sou o que o tempo me ensinou a ser, sou o que as palavras doces que escrevo vez ou outra me fizeram ser, a verdade é que eu sou realmente cheio de sentimentos, eu transbordo, mas eles flutuam, são palavras soltas, desejos inacabados, eles são eu e eu sou tudo isso, uma bagunça, não é um belo caos, não é muita coisa. Na verdade, é coisa demais e eu não sei como lidar, só não quero ter de dizer aos alheios que preciso de ajuda, eu não sei qual o problema, por isso não sei gritar, eu sei tentar me procurar constantemente, é uma aventura, eu vou em frente o tempo inteiro, eu vivo e vejo, eu não sou, mas tento, eu tento ter algo, eu tento construir algo mais do que palavras, eu tento fazer da tinta uma aliada fiel, afinal de contas, eu só tenho as minhas palavras. Já experimentou ser limitado? Eu só sei fazer as pessoas felizes e isso não me basta o tempo inteiro, na maior parte do tempo eu quero saber mais sobre mim, quero ser mais eu, porém não sei quem sou, eu não sei o que é ser quem não sei quem é, ou o que é ou como ser, eu só não tenho tato para me encontrar nesse mundo imenso. Minhas descobertas são todas sobre a beleza que o ser humano possui, são todas sobre o quanto do mundo pode ser captado pela lente da câmera, a ponta do lápis e as notas de um rap qualquer, de resto, eu vivo construindo uma casa de cartas, empilho meus problemas para os resolver depois, mas não faço a mínima ideia do que fazer em seguida. Já se olhou e se pensou ser um labirinto muito difícil de encontrar a saída? Minha mente é uma bagunça e todas as vezes em que desejo ver um arco-íris só me lembro que em meu peito há uma tempestade. Eu chovo todo santo dia, mas nunca pareço ter um mísero guarda-chuva. A chuva às vezes destrói tudo, por dentro e por fora.
House of me.

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Hit me, I want to feel something.
BTS lyrics These words live in my heart
Estava no café onde eu geralmente passava minhas tardes, pensando no quanto a vida é clichê e no quanto sempre acabamos num café em algum momento. Eu sempre começo, no caso, estar sentado ao ar livre e poder experimentar qualquer coisa com o mínimo toque de morango, faz com que as coisas pareçam mais corretas, afinal, todos temos algo que faz com que todo o resto do mundo pareça Eu perdi a vontade de que essa coisa fosse uma pessoa há muito tempo, por nada em especial, é que procurar alguém é muito mais difícil do que parece, nós juramos que não estamos procurando por alguém perfeito, mas no fundo isso está tão dentro de nós que já nem percebemos, quanto mais tentamos encontrar alguém, mais frustrados nos tornamos por nunca achar alguém perfeito. O problema são os parâmetros, exigimos muito de alguém, ela precisa rir de pelo menos duas das nossas piadas sem graça de domingo, precisa acordar e não nos negar um beijo, mesmo que seja anti-higiênico beijar sem escovar os dentes. Precisa ter pelo menos uma música em comum e saber o nome de cor da lua, o ascendente e o sol de seu signo, para entrar na fila de pré-requisitos, no fundo demoramos de encontrar pessoas porque esperamos muito delas, coisas que não encontramos nem mesmo em nós. Acho que esse é o problema, tentar encontrar nos outros o que falta em nós. Eu sei que sou mandão, sei que vivo tentando preencher um vazio que não compreendo, tentando encontrar um lugar no mundo em que toda a poesia que me encontro imerso, seja aceita e não repudiada como palavras soltas e amargas, às vezes os sentimentos são amargos, sabe? Nem sempre sentir é algo assim tão doce. Eu compreendo perfeitamente que tenho uma instabilidade emocional frequente e que estou sempre me sabotando quando alguém cogita se aproximar; afinal de contas, não acho que alguém mereça lidar com as minhas variações de humor. Apesar de tudo, sinto como se todos devessem me conhecer, porque eu tenho muito a mostrar, coisas demais a oferecer, e isso nem é uma auto propaganda, talvez seja eu tentando me convencer de que de todas as coisas doces no mundo, o amor próprio devia ser a fruta que eu deveria morder primeiro. Quem não quer sentir o doce arranhando a garganta e pela primeira vez, não sentir repulsa do que toca o estômago? No fim é uma dualidade absurda, eu sei das coisas ruins e me odeio por isso, mas também sei das coisas boas, e ao mesmo tempo que preferia que não me conhecessem, desejo imensamente que eles desejem me conhecer. O que faço com isso? Tenho noção das minhas dificuldades, minhas limitações e aquelas coisas escondidas às quais ninguém conheceu, e tenho certeza que não vai, pois eu não quero. Talvez eu tenha medo que elas me cumprimentem com um "adeus", é comum para mim ver as chegadas e me acostumar com as partidas. No entanto, enquanto estou aqui sentado tomando café, observo o sol se pôr e admiro o gosto doce que o seu rosáceo me traz, isso é normal? Sentir o gosto do céu enquanto o observa? Talvez eu tenha me acostumado ao café e tenha adoçado minha vida com meus próprios pensamentos, mas não é bom quando condicionamos a beleza a pensamentos que vem de nós? Enquanto observo o mesmo sol se pôr, filhotes de mico, pequenos macacos, correm pelo fio de alta tensão, eles não temem o choque? Não temem o perigo? É uma graça pois há um macaco esperando-os do outro lado e eles se arriscam, talvez até tenham medo de altura, quem sabe? Mesmo assim esquecem suas limitações, por saber que há alguém ali, esperando sua presença. Novamente volto ao amor e percebo que no fim, ele me puxa pelo pé. Sou um romântico incurável, tenho total noção de que o amor não salva, mas ele edifica, algumas pessoas acreditam em lendas e outras no amor, cada um adoça a vida com um tipo de açúcar, outros superficiais, em sua maioria, profundos. Ninguém gosta de sentimentos rasos. Ah, quando me sento aqui a mente vaga tão longe que de repente já não digo mais muitas coisas coerentes e concretas, eu gosto das pessoas assim, que não fazem sentido, que falam o que lhe vem à mente, que admiram e precisam compartilhar, assim como eu tiro foto do sol se pondo, pois ainda não descobri algo que me inspire e pareça mais comigo. É que estou sempre próximo de me pôr, e apesar de parecer que me vou para sempre, reapareço em outro lugar ou ilumino alguém, que acaba me iluminando também. O mundo me inspira e eu tento lhe fazer o mesmo, eu escrevo tantas coisas e elas são levadas com o vento, assim, quando respiro fundo posso sentir o doce de minhas palavras balançarem meus cabelos, quando a poesia se mistura com o vento, eu nunca pareço estar vazio, tudo está cheio, cheio de mim, cheio de sentimento, cheio de tudo o que sou quando paro dois segundos para admirar as coisas ao meu redor. Eu sou um homem muito simples, o que não significa nada para as pessoas, na maior parte do tempo significa muito para mim, pequenas caixas às vezes guardam valiosos presentes. Eu por outro lado sou bem grande, dizem que sou proporcional, troncos e membros inferiores, mas o que é ser proporcional? A beleza como um todo é questão de ponto de vista, mas quando eu sorrio, enquanto minhas covinhas podem absorver tudo de belo que existe no mundo, como um buraco negro, sei que estou indo. Sei que estou fazendo bem. Enquanto escrevo isso tenho que parar para tomar um gole de café, café esse que desce quente e gostoso, aquece meu peito e meu corpo descansa na cadeira, acho que o único medo que tenho é de não me encontrar, de sentir que não faço parte de mim e que não posso conquistar o mundo. Cada pessoa tem sua forma única de conquistar o mundo, eu sou como O Contador do pequeno príncipe, eu escrevo sobre o mundo e na minha mente, ele é meu, não posso tê-lo em minhas mãos, é verdade, no entanto posso escrever as belezas que vejo, posso passar meu sentimento para esse papel amarelado que vive sempre dobrado em meu bolso esquerdo, para o caso de ter lapsos momentâneos como esses. Eu capturo o mundo com as palavras, enquanto puder escrever, o mundo habita em mim. É engraçado que estava em casa e senti a necessidade desesperada de escrever algo, as palavras são assim, sufocantes de seu próprio jeito, quando não sou capaz de possuí-las, me encerro, e não é minha intenção. Fiz um pedido ao céu rosado com nuances de azul, pedi que o dia se encerrasse sempre do mesmo jeito, meu pensamento alto e o coração aquecido de amor. Há os que acreditam num amor materno único, ele é o único ao qual todos pertencem, eu, por outro lado, estou sempre coberto dessas palavras, transbordam dessas poesias baratas, troco o uísque por uma cerveja ou, mais constantemente, um sorvete bem gelado. Gosto do doce, já disse. Tento parecer imparcial em meus textos, mas eu sinto muito a vida, sinto muito suas partes, estou sempre com a casquinha da ferida prestes a se abrir novamente, pois nunca paro de me aventurar. É tudo tão belo e há tanto que ainda não vi! O avião da minha imaginação nunca cai no deserto, e se cai, fico feliz por saber que há um poço em algum lugar. O pequeno príncipe é o meu livro favorito, nem isso consigo deixar de transbordar. O café acabou e eu me levantei para pedir outro para viagem, tenho apenas mais alguns poucos minutos antes de me despedir daquele belo lugar, pelo menos até o dia que eu me senti solitário e voltar. Se sentir solitário é bom e ruim ao mesmo tempo, é bom porque você pode se conhecer, conhecer seus limites, meu limite de solidão é até quando tiver palavras para descrever a sensação, quando não mais puder escrever, a solidão me sufocará e eu irei perder a briga. A parte boa eu ainda não conheci. É bom estar sozinho às vezes, para se conhecer, mas não o tempo inteiro. Talvez eu esteja me contradizendo sobre a não necessidade de alguém, mas quem se importa? Estou sempre me contradizendo sobre algo, estarei vivo e são enquanto puder me contradizer e questionar o mundo ao meu redor. Por que o céu é dessa cor e por que sou quem sou? O café chegou e eu fico feliz que o garçom pegue o dinheiro dentro do envelope de couro depois. Eu estou sempre a um passo de fazer algo que quero muito, mas que me faz transbordar de vergonha apenas a menção da cena em minha mente, que dança, vai e vem como uma valsa, sempre que fecho os olhos posso sentir o estômago revirar. É bom, não é? Sentir que está vivo. Peguei o café e escrevi algo no canto dessa folha em que escrevo, fiz questão de rasgar a mesma folha que estava escrevendo, para quando reabrir o caderno me lembrar disso, deixei junto com o dinheiro, levantei e saí. O som do sino que fez quando eu saí, se repetiu segundos depois com uma frase vindo dos lábios rosados. "Ei, o senhor esqueceu um...". O silêncio que se seguiu fez com que uma briga interna surgisse. “Por favor se vire, se vire e veja como ele sorri, pela primeira vez será por você.” Olhei para trás e ele estava sorrindo para o papel, minhas covinhas apareceram para ele e eu queria que elas sugassem algo mais do que sentimentos, pela primeira vez. "Você foi a coisa mais bonita que eu vi hoje." Os cabelos negros estavam caindo sobre seus olhos e ele os tirou com a mão direita. Já observou alguém por tanto tempo que tem certeza que nunca viu alguém tão lindo quanto? Seus olhos não desviam, acho que a beleza alheia é como uma hipnose, meus olhos sempre corriam por entre a cafeteria enquanto ele ia de mesa em mesa, os cabelos finos e negros escondidos na touca de algodão branco enquanto ele estava na cozinha, a mão fina e de dedos longos, a pele pálida e aquele detalhe debaixo dos olhos, seus detalhes eram as entrelinhas da maioria das minhas poesias, nunca vi alguém tão belo, ou talvez meus olhos não prestem tanta atenção assim, talvez a vida não me traga o desejo de achar mais pessoas belas do que geralmente eu encontro quando estou distraído. Tenho vontade de desenhá-lo, mas como poderia reproduzir fielmente algo que povoa minha imaginação? Ele é como um sonho, e agora que o vi sorrir, sonharei com ele até a próxima vez que meus pés flutuarem em sua direção, tenho certeza que será tão belo quanto na primeira vez, o garoto de ombros largos está sempre descobrindo um jeito, em silêncio, de aparecer entre meus escritos íntimos. Não é só de meus escritos que ele faz parte, enquanto segura a bandeja e entrega os pedidos, percebi que o mesmo cheira profundamente os copos de Americano, talvez seja o seu sabor favorito, ou apenas algo que ele sempre quis experimentar, mas nunca teve coragem de tocar os lábios. Ronda e deseja, mas nunca se aproxima. Como eu faço com ele há tempo demais. O que sei é que, diferente dele, eu experimentei o americano uma vez e desde então sempre levo um copo de americano para a viagem, para no caminho poder me lembrar da forma como seus enormes olhos negros se fecham e o nariz pequeno funga a fumaça que sai por entre a abertura do copo, para sentir o aroma, sorrindo. Eu levo um americano para lembrar-me dele enquanto estiver distante. Talvez ele seja o personagem principal dessa poesia sem remetente, mas quem sabe? Para ambas a situações, eu nem sei o seu nome.

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Eu já não tinha mais muitas palavra para doar a ele, acho que gastamos muito ao longo da jornada. Dá para se ter certeza do que vai precisar para uma aventura, no meu caso eu sempre soco umas palavras a mais na mochila, para o caso de acontecerem imprevistos, esses imprevistos são normais e recorrentes, por isso eu já não tinha mais muito o que dizer quando chegou ao fim. Eu estava sentado na varanda esperando ele me dizer algo sobre nós que eu já não soubesse, minha mente girava em tantas direções diferentes, eu preferia estar escorregando nos anéis de Saturno, mas me sentia cada vez mais distante deles a cada palavra que falava. Será que aquilo era uma boa notícia? É estranho quando nos acostumamos aos ventos de 1800 km/h, o que era frio para os outros, passa a ser quente para nós. Continuei sentado, lendo tudo o que tinha a dizer, essa era geralmente a minha função, eu me sentava e o ouvia falar sobre as estrelas e o mundo, sobre bolos e aulas e textos, eu ria e o coração apertava algumas vezes, eu sentia um formigamento em cada parte do corpo, era até uma sensação agradável, acho que nos felicitamos com muito pouco quando estamos acostumados a não sentir coisa alguma. Com ele eu sentia coisa demais. Senti coisas demais. Essas coisas foram se acumulando, por isso explodiram no final de forma tão desastrosa. Não era desastroso o esforço, tentar fazer ele sorrir todos os dias não era desastroso, não consumia nem um por cento da minha energia, eu gostava, era gratificante vê-lo sorrindo à toa, e quando ele estava mal eu o dava espaço ou dava a mim, eu dava o que ele queria, eu só tentava fazer ele encontrar a suficiência, mas ele não me dizia o que era o suficiente. Eu não era o suficiente, por mais que ele dissesse que eu era, se eu fosse, não estaria aqui agora. Temo que ele, como qualquer outra pessoa, aprendeu a viver uma vida de faltas, nós preenchemos aquele espaço, aí falta, aí preenchemos e falta em outro lugar, nunca parecemos preenchidos o suficiente, talvez eu só não tenha sido grande o suficiente para todos os seus buracos abertos, mas eu tentei. Eu tentei tanto. Confesso que quando ele disse que não ia dar, me doeu um pouco. Foi um baque, aquele tipo de susto estranho quando não estamos esperando, eu esperava não ser bom o suficiente, uma vez que eu nunca tinha sido suficiente para ninguém, eu até mesmo conhecia a sensação do vazio, quando ninguém parecia disposto a se encaixar em mim. Eu me encaixava nele, mas talvez esse tenha sido o erro, tentar me encaixar, a vida não é um quebra-cabeças, não devemos nos encaixamos em alguém para podermos ser feliz. Quando ele virou as costas e disse que talvez fosse o melhor para nós dois, eu quis perguntar o que é melhor e o que é pior, porque no caso, temo que ambos sejam um ponto de vista, entre duas pessoas podemos ter um copo, meio cheio ou meio vazio, muito colorido ou completamente preto e branco. Eu queria que ele não tivesse me dito adeus, queria que ele não tivesse pensado tanto, acho que o que faz as coisas darem errado é o nosso pensamento acumulado, algumas loucuras às vezes não muito boas, a gente tenta seguir regras, mas quebrar elas é sempre muito bom. Eu gosto de quebrar regras, acho que é o certo a se fazer. Enfim, ele se foi. Mas não é como se tivesse sido culpa de ninguém, não foi culpa minha e nem dele, algumas coisas acontecem sem querer, são coisas de momento ou são acidentais, ou só não era o momento certo. Já experimentou a sensação de encontrar alguém um milhão de anos depois e as coisas parecerem fluir diferente de quando você a conheceu pela primeira vez? Temo que algumas pessoas se conheçam no momento errado, e que sempre haja um momento certo. Talvez eu não o tenha encontrado no momento ideal, talvez não tenha sido uma despedida real, um adeus não foi, tenho certeza, sinto como se o fosse encontrar na primeira esquina que chegasse a cruzar, sinto como se ele estivesse em todos os lugares para onde eu olho, comecei esse texto querendo dizer adeus, mas não dá para dizer adeus a uma parte de você. Ele vai, mas fica, aqui dentro, em algum canto, me esperando. Ele vai, mas fica, porque eu fico, porque eu espero. Eu te espero, te beijo, te cuido e te amo. É a lei.
Um (quase) adeus, H.
Eu o quero tanto. O amo tanto. Não consigo me despedir realmente, não consigo acreditar num adeus entre nós, não consigo criar um muro, uma barreira. Consigo apenas tentar seguir em frente, da melhor forma que sei. Mas quando ele me beija, sei que é ele. Eu sei que é seu corpo, suas mãos, meu coração achando abrigo em seu peito. Não sei quanto de mim vai aguentar esse cabo de guerra, temo que ele não mais me queira, no entanto fico na corda bamba do não saber. Não consigo me despedir, sou capaz apenas de derreter. Por você, eu só derreto. Batatinha quando nasce.
(Quase) Adeus, H.