O sintético e o orgânico no trabalho de Anelena Toku
Trabalho parte da série ‘Aflor’: projeto de arranjos florais feitos com plantas colhidas em trilhas. Foto: Danilo Rosa Carneiro
Anelena Toku procura o equilíbrio entre ser e máquina, visual e sonoro, orgânico e sintético. A artista, que começou nas artes plásticas e gráficas (sempre contando com a música como um lugar de refúgio) tem por característica dominante nesses trabalhos uma gama de elementos naturais: plantas, flores, céus, paisagens.
Atuando há quase uma década organizando exposições na capital paulista e produzindo trabalhos visuais, Ana começou a se dedicar mais às atividades sonoras com o nascimento, em 2015, do Fronte Violeta, que divide com Carla Boregas. O projeto foi o pontapé inicial para que o Gruta, aventura solo de Anelena, tomasse forma para além das demos que ela gravava e escondia numa conta do Soundcloud.
A trajetória de Ana trouxe alguns elementos interessantes para as duas instâncias do seu trabalho. Um deles é a tentativa de humanizar o som eletrônico do Fronte e Gruta com camadas e camadas de voz e gravações de campo. Outro é o refúgio e a busca da liberdade pelo uso da abstração. Por fim, Anelena rearranja a relação entre som e imagem em seus projetos e nas exposições que organiza, encarando-a como mais uma maneira de procurar a paridade entre os elementos sintéticos e orgânicos que incorpora nesses trabalhos.
Abaixo, Ana fala um pouco sobre alguns deles e as ideias que os conectam e lança no filhas do fogo um vídeo inédito da apresentação do projeto Gruta no festival Vela Preta em Curitiba, chamado Ruínas.
A natureza, o ser e a máquina: Fronte Violeta
O Fronte Violeta foi a entrada de Anelena e Carla Boregas no universo eletrônico e sua concepção funciona num sentido livre da palavra “experimental”. Travessias, o primeiro álbum do duo, traz uma mistura de batidas de pista com notas sustentadas por longos intervalos de tempo, guitarras, cantos e gravações de campo – qualquer sonoridade ou tema que despertasse um interesse na dupla. Ana explica como o projeto tomou forma e quais serão seus próximos passos.
TRAVESSIAS by FRONTE VIOLETA
“Eu estava com muita dificuldade de produzir coisas gráficas porque, como trabalhava com isso, sentia que estava muito viciada. Já tinha uma linguagem e estava presa naquilo. Aí veio essa coisa do som, com o Fronte. O som, pra mim, é algo bem menos viciado. O nosso ouvido talvez seja menos viciado que o nosso olhar. A gente é muito formatado. O som, mesmo que a pessoa não goste ela ainda fica intrigada. E eu curto essa sensação. Desde que eu comecei a trabalhar com arte, esse vício visual sempre me incomodou. Por isso que eu não queria fazer um quadro e pendurar na parede – eu fiz isso, foi a primeira coisa que eu fiz, e eu vi que não queria. Então fui pra esses trabalhos manuais, do bordado, tricô, foto, coisas que saíssem da parede. Porque, pra mim, a nossa percepção visual já foi esgotada.
Eu sempre toquei; gravava umas coisas bem toscas no computador, muito freestyle, da maneira mais absurda. Aí eu fui morar com a Carla e a gente sempre estava juntas. Participamos da exposição Fio juntas, porque nós duas fazíamos trabalhos manuais – eu tinha o bordado e ela fazia crochê. Aí a gente pensou em fazer um lance de som pra tocar na exposição e começamos a ensaiar.
A Carla tem o Rakta, então ela tinha muito equipamento eletrônico e queria começar a se jogar, mas não tinha muito tempo de explorar. Também era uma coisa que eu curtia e nunca tinha parado pra mexer, então foi um começo de estudar um pouco isso de sintetizadores e beats. Na época a gente ensaiava no estúdio de uns amigos e era como estar em casa, então a gente ficava horas só tocando e preparou esse rolê pra exposição. Aí foi meio quando começou o Fronte e quando eu comecei a pensar: vou me apresentar ao vivo.
Quando a começamos a produzir essa parte mais eletrônica de sintetizador, ondas e tal, foi também quando eu percebi que o som conseguia expressar essa coisa mais abstrata, menos viciada, que eu buscava e no gráfico não estava mais conseguindo. Abriu uma porta de tudo. Tudo pode ser no som, o som é muito infinito. Ainda mais esse mundo dos sintetizadores. A gente começou comigo tocando guitarra e a Carla tocando baixo, além dos eletrônicos, e era muito absurdo e megalomaníaco. Chegou uma hora que a desencanamos e decidimos focar nos eletrônicos porque já é um universo muito gigantesco. Desde então estamos trabalhando só com equipamentos eletrônicos, e ainda estamos aprendendo muito. É muito lindo produzir esse som e registrar, gravar, tocar ao vivo, porque é uma exploração total e experimental desses equipamentos e da gente tentando trazer esses outros elementos pra dentro de tudo isso.
Fronte Violeta no A Onda Errada, na Plana. Foto: Ivi Maiga Bugrimenko
Eu sempre estou bem imersa em tentar trazer elementos da natureza para o meu trabalho porque acho que são os respiros de todo o resto; da cidade, que eu vivo desde sempre. Nasci aqui, tô aqui, não consigo sair daqui. Então acho que esses lugares são os lugares de respiro aos quais eu quero me conectar quando vou produzir. E também um pouco como um contraponto do som eletrônico, que é muito máquina, total sintético. Bem duro. No Fronte, a gente tenta desconstruir isso e trazer elementos de fora, muita gravação de coisa orgânica. Eu acho que isso é um interesse muito comum meu e da Carla com o Fronte. A gente tem muita coisa de voz, que acho que também é uma tentativa de trazer outras ondas. Mas visualmente é onde a gente consegue fazer isso mais claramente.
Desde que a gente começou o Fronte, a ideia era sempre ter projeções. A gente fez vários vídeos com motivos de plantas e natureza, mas é algo que ainda nem deu tempo de entrar. Som e imagem são coisas que se agregam muito. Mesmo no show a gente gostaria de trazer essa camada a mais – não como algo decorativo, mas como algo que some, porque tem muito potencial. Me incomodava muito isso de tocar os eletrônicos porque a gente tem que ficar muito ali focada, e que saco é um show que você tem que olhar pra baixo e girar botão. Não vejo sentido. Então a imagem seria uma coisa pra você desconectar de ficar vendo a pessoa ali, porque é difícil uma performance com esse tipo de som.”
O eu e o outro: Gruta
Gruta começou como faixas de voz e violão gravadas em casa que Anelena postava numa conta no Soundcloud. Com o empurrão dado pela experiência vivida com o Fronte Violeta, ela passou a apresentar tais faixas ao vivo e planeja gravar material do projeto, que agora também brinca com sonoridades eletrônicas, em breve. Ana fala sobre a gravação do vídeo de Ruínas e como a relação da arte com seu espectador muda o artista.
“A interação com o outro traz também uma força pra você manter a coisa girando. Eu tocava sozinha e ficava num julgamento eterno do meu próprio trabalho, e quando existe o outro você tem um diálogo muito rico. Vai somando pra coisa ir pra frente. Foi muito louco agora recentemente que eu comecei a tocar sozinha – muito recentemente mesmo, a primeira vez que eu toquei Gruta sozinha foi agora no Vela Preta [festival organizado pelo selo Meia-Vida em Curitiba], em abril. Era algo que eu tinha muita dificuldade em aceitar – eu nunca acho que está bom, fico nessas dúvidas eternas. No Vela Preta eles me chamaram e eu achei que tinha algumas coisas que seria bom ouvir ao vivo, então aceitei. Pra mim tocar lá com eles é tocar em casa, é muito um ambiente de amigos e da galera que tá sempre junta, então é um lugar mais tranquilo.
Tocar ao vivo pra mim já era uma super questão porque é uma coisa mega mirabolante; você está criando em um ambiente com muita gente, então envolve muita coisa. Primeiro era aterrorizante, mas quando eu enfrentei, foi. É uma experiência ainda recente mas eu vi o quão importante é esse domínio de você ouvir o som e ter que lidar com o tempo de tocar sozinha. Em dupla você está sempre meio num diálogo, é uma dança. E sozinha você está lá, solo. Pra mim foi muito importante pra perceber que eu era quem dava o ritmo da coisa. É uma dança com você mesmo.
Depois de duas, três apresentações, me veio uma tranquilidade de perceber que isso é um treino pra sentir esse fluir, e como a gente tem o poder de deixar essa tensão de lado e falar, bom, agora que eu estou aqui, eu só vou deixar ir. Foi de algo super tenso pra algo de aceitação. Acho que voltar a tocar com a Carla, com o Fronte, depois disso, vai ser diferente. Acho que é uma coisa de experiência, de amadurecimento. O projeto agora tem muito vocal, eu canto muito, que é uma coisa que no Fronte é só mais uma das camadas. É bom que você vai estudando e trazendo de volta. A Carla também tem o solo dela, ela também experimenta lá e vai trazendo.
Ficou muito claro agora que a resposta de quem tá ali vendo, do espectador, é muito instantânea. Você está ali, a pessoa está do outro lado, e existe uma relação independente do que acontecer. Expondo, acho que é uma relação que fica um pouco mais distante – beleza, tem o dia da abertura, que você vai lá, mas depois você não sente muito. A música tem essa coisa da presença mútua que é muito poderosa, e que eu sempre subestimei porque tinha um medo. Depois que você dá esse passo, começa a entender essas respostas. Quando essa obra chega em algum lugar e ela é exposta a alguém, existe uma conversa íntima que é quando aquilo se multiplica, cria uma microvida. Fazendo todos esses eventos e coisas, no fim aí é que está essa coisa preciosa: quando você tem uma relação de afeto, de trocar ideia, de aquilo gerar uma coisa além do que é o trampo por si só. Quando eu vi isso, eu vi que é aí que está o por que da gente fazer arte. Você fazer as coisas pra você é um estudo, que eu acho super importante e amadurecedor; mas quando ele chega no outro vira uma outra coisa. Acho que o dilema é achar essas formas de não ser sempre a coisa tradicional de virar um artista, ir pra galeria. Porque não é um lugar que eu almejo. Eu gosto de tentar pensar em criar esses outros ambientes de promover esses contatos.”
Assista a um vídeo inédito do projeto Gruta, Ruínas:
O diálogo: Conversão
Em dezembro de 2016, Ana e o artista visual e produtor Carlos Issa organizaram na Galeria Sé a exposição Conversão. Composta de pinturas, desenhos, fotografias, trabalhos manuais, peças audiovisuais e apresentações de músicos, a exposição curada pela dupla discutia a importância do diálogo. Discussão esta que era provocada tanto pelas obras – em parte feitas em parcerias e por artistas que também possuem trabalhos sonoros, como Aline Vieira (Flores Feias, Meia-Vida), Pedro Keppler (Gattopardo) e Akin (Non Exist, Metanol.fm) – quanto pelo uso coletivo e colaborativo do espaço disponível na galeria.
Trabalho s/t de Anelena Toku e Carlos Issa para Conversão
“Eu organizo exposições há muito tempo. Sempre isso, agilizando rolês independentes com os amigos. Nunca consegui encarar o trabalho artístico como uma função, de seguir isso, ir pra galerias. Então eu sempre fui pela margem, produzindo e vendo as produções dos amigos, e sempre sentindo falta de ver a produção de todo mundo de uma maneira organizada. Então quando surgia uma oportunidade eu fazia esse esquema de montar uma coletiva, produzir. A primeira que eu organizei foi em 2009, quando aquele espaço Cartel 011 abriu. Era um buraco vazio. Por mil coisas eles chegaram em mim e a gente armou, juntei um povo e era todo mundo produzindo. Eu sempre curti fazer esse rolê de juntar o povo e botar na parede, onde quer que seja.
Com o Cacá [Carlos Issa], armamos uma exposição em casa com os desenhos que fizemos pro Pulso, que foram muito incríveis para experimentar nessa área da abstração e experimentação totalmente livre. A gente sentava junto e ficava fazendo vários desenhos por dia. Foi muito bom pra soltar isso. Daí, juntamos os desenhos e chamamos os amigos pra verem. Fizemos essa e queríamos fazer outra exposição em casa. Nisso, encontramos a Maria Montero, que é da Sé Galeria, e ela disse que tinha um buraco de data livre e que a gente poderia fazer lá. E o lugar é muito lindo, muito foda, daí começamos a agilizar. Lançamos o temas/provocação e todo mundo começou a produzir. Quase todos os trabalhos foram inéditos, o que é muito legal. E também quisemos trazer a dimensão do som, então tiveram os shows. O que criou aquele cosmos maluco foram os shows. Pra mim foi muito especial ter acontecido daquele jeito e ter trabalhos de muitas pessoas diferentes, de universos diferentes. Eu curto muito fazer essas coisas, e também ver as dificuldades. Todo mundo ficou meio “mas o que eu vou fazer, como vai ser?”. É esse processo de ir superando cada empecilho que a gente mesmo coloca.
Trabalho de Akin Deckard e Sabrina Ratté para Conversão
Deixamos bem livre pra todo mundo, e o legal é que a maioria dos artistas que apresentaram trabalhos gráficos ou visuais também tocam. A Carla, o Pedro Keppler, o Jonathan [Gall], o Hugo [Frasa], o [Lucas] Rampazzo, a Aline [Vieira], basicamente todo mundo toca e faz coisas visuais além de tocar. De alguma maneira, mesmo quem não estivesse ali com uma obra sonora tocou ou toca, e é uma expressão que caminha por todos esses lugares. É interessante ver os trabalhos visuais de pessoas que geralmente são conhecidas pelo som.
É muito louco eu ter feito esse trabalho com o Cacá, de pensarmos a exposição, porque nasceu da gente produzindo e tendo uma conversa abstrata. Conservamos muito durante esse processo, e uma das coisas que falamos muito sobre – ainda mais nesse momento, a gente fazendo os desenhos e o Cacá morando do lado da Paulista numa época que tinha protesto basicamente toda semana. Os barulhos de helicópteros passando e a gente tentando pensar: cara, o que tá faltando? E uma das respostas a que chegamos é essa ideia do diálogo, que só o diálogo e a conversa entre os lados é o que vai transformar alguma coisa. É muito difícil encarar o outro e saber ouvir. Conversamos muito sobre isso na época, e o Cacá veio com esse nome ‘Conversão’ – na hora que ele falou eu vi que era muito bom. É a ideia da conversa gigante.
Falamos pra todo mundo que a ideia era que fossem feitos trabalhos em parceria. Alguns rolaram, e também teve gente que tocou junto. A ideia é que todo mundo tivesse isso em mente, da conversa, de como representar a ideia do diálogo.”
A liberdade do artista: Bandeiras/Por Todas Elas
Nessa parte da entrevista, Anelena usou alguns de seus trabalhos de temáticas políticas pra discutir sobre a (suposta) liberdade dos artistas e da construção da memória coletiva por meio da arte.
Foto parte da série ‘Bandeiras’
“A política é uma coisa em que eu sempre estive envolvida. Talvez não ativamente, mas buscando, ouvindo, lendo sobre. E hoje chegou num momento em que eu não consigo não colocar isso em pauta. E é até pra mim um exercício de como trazer esse tema, porque eu fico revoltada mas ao mesmo tempo não quero reproduzir discursos polarizados. Eu sinto que trabalhos que fiz, como o Bandeiras e o vídeo da marcha das mulheres, eram um registro pra mim mesma. Mesmo o vídeo do “Céu Violeta”, que foi porque a gente estava em Brasília quando rolou o impeachment. A gente ia tocar lá, tinha marcado há mil anos, aí a gente foi pra lá e estávamos lá quando rolou. Eu não consigo descolar isso, pra mim é muito marcante, muito forte. Acho que é um registro pra entender que mundo estamos, pra lembrar, como uma memória externa. Porque no interno a gente vai pra onde quiser, somos livres. Mas somos livres até o ponto de lembrar que tem gente que não é.
Eu acabei de ler um texto sobre isso. Saiu uma entrevista com o Georges Didi-Huberman e ele fala sobre isso. Até que ponto os artistas são livres se as pessoas além deles não são livres? Como você pode lutar pela liberdade dos outros sendo um artista livre? E livre num sentido também muito abstrato. Acho que os meus trabalhos foram num sentido de registrar isso, que somos abstratos mas há coisas bem concretas e que me tocam muito. Como registrar e representar essas coisas de outra maneira? É uma coisa que eu tento fazer.
No vídeo dos protestos das mulheres, eu não estou falando nada. É só o que aconteceu. É uma coisa muito forte, foi aquele bem específico do estupro coletivo, e o das bandeiras, esse protesto do dia 18 foi o primeiro gigantesco pós todos os protestos pró-impeachment. E pra mim é isso, a coisa das bandeiras – tinha bandeira de tudo. Tem muitas outras camadas dentro de uma coisa óbvia do branco e preto, sim ou não. No meio tem outras coisas. É uma questão de reinterpretar esses fatos, porque se a gente ficar reproduzindo os discursos do mundão, pra mim não dá conta.”
















