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@feneceu

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Seminus viraram noite espalhando histórias desde a infância sobre a cama, entre leques, cascas de amendoim, latas de gatorade, mapas astrais e arcanos do Tarot, ouvindo Ney Matogrosso gemer uma história fatigada e triste sobre um viajante por alguma casa, pássaros de asas renovadas, reis destronados da imensa covardia. Eu era gordo, contou um. Eu era feio, disse outro. Morei em Paris, contou um. Vivi em Nova York, disse outro. Adoro manga, odeio cebola. Coisas assim, eles falaram até as cinco. Caio F. Abreu
The Shining - 1980
a tatuagem que eu nunca fiz no meu antebraço com seu nome, ficou na minha alma, tatuada na minha íris marrom, vão passar anos e não haverá força que irá apagar, essa lembrança duradoura, escrita de azul, um registro único da colisão de uma estrela numa vida, mas quem disse que passou? (sobre você perder uma amiga e reencontrar num detalhe da vida) Jorge de Castro
Eu aceito a sua partida, sua dúvida e seu desencanto, seu cansaço, seu descabelo e quando me deixa largado pelos cantos, eu aceito sua ausência, sua sede de ver o mundo e seus momentos de reclusão, aceito quando vai embora, quando fica pouco tempo e quando sente saudade do verão. Aceito seus dias de fúria, sua personalidade vulcânica, seus conceitos confusos e seu drama cotidiano, aceito sua irona na hora da briga, seu repúdio a filme dublado e quando amasso seu vestido com meu abraço, aceito sua família complicada, seu ódio por salada, suas mudanças de humor e quando me pede mil favores. Aceito quando me pede pra apagar a luz, pra segurar sua mão e pra fechar seu vestido, aceito seu sorriso torto, seu olhar fugitivo, seu batom nos dentes, aceito sua cara de tédio, quando eu falo de arqueologia, de gastronomia ou de futebol, quando fica bêbada e grita na rua, que eu sou amor e que vai me amar, eu aceito seu pior defeito, seu desassossego e não gostar de Machado de Assis, aceito sua dúvida eterna, seu pior problema e as vezes não se lembrar de mim. Eu aceito porque você me aceita, me encaixou perfeito, me fez homem feito, viu que eu não tinha jeito, era meio sem graça, mas viu graça em mim, notou que eu era diferente, mas decidiu ir em frente e me amou mesmo assim. Jorge de Castro

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eu sou tão trivial e passageiro como o lançamento de uma nova torradeira no canal da polishop, eu escolhi ser essa colisão de estrelas de brilho passageiro e pálido, eu acreditei quando me passaram essa mensagem telepática que eu seria feliz e ri sozinho, eu acho lindo quando alguém insiste na falta de graça de ouvir nosso cotidiano e quando falta assunto diz assim - "aí tá frio?" e você ouve minuciosamente a descrição do céu e imagina um céu carimbado de cinza, sem nadinha azul. eu não sei ficar sozinho, eu preciso criar apegos e conexões, eu sou essa eterna falta de paciência e esse desassossego de não saber quando abraçar, apertar a mão ou dar três beijinhos e sempre opto por sorrir com um canto só da boca como o Marlon Brando, mas eu sei que não fica igual e mentalmente digo que sou um idiota. eu só queria ficar quietinho um pouquinho e que você ficasse por perto também e nós dois assim quietos e juntos, em silêncio absoluto, faríamos com o som da nossa respiração a música mais bonita de amor, um blues ou um samba, eu deixaria você escolher. eu só queria sentir o mundo girando devagarinho e que só isso existisse, só o mundo lento e tonto, como naquele dia que a gente ouviu o disco do Belchior e essa memória na minha mente está gravada em câmera lenta, eu consigo ver a agulha deslizando sobre o disco. você me mandava fechar o olho e dizia pra respeitar minha mente gravando as memórias, mas eu só lembro que estava um pouco bêbado e queria logo abrir o olho, mas lembro do cheiro da sua boca, menta e cigarro, talvez fosse isso que você queria dizer quando me dizia pra criar memórias. mas sou sempre eu sozinho, no fim do dia, nesse escuro que faz aqui em minas, nesse acúmulo de saudade e coisa por dizer, nessas ruas de pedras, nessa luz difusa, nesse som dos meus passos, sobra sempre eu só, só eu, me dá vontade de chorar, mas eu não choro e sei que nosso tempo acabou.
Jorge de Castro
um dia meu vô me disse que moluscos são animais moles, mas que para sua proteção criam as conchas e a medida que esse bicho cresce, as conchas, crescem também. eu queria ser molusco mas meu vô disse que era impossível, mas eu sabia que tinha coração mole, e sabia que tinha concha também. eu cresci achando que era molusco, coração mole, casca dura. quando eu morrer vou deixar minha concha e todo mundo vai saber que eu era molusco. todo mundo vai saber que eu era mar.
Jorge de Castro
Você é tão esquisito
sabe... tchurururu, bem vindo ao que eu sou
Benjamin morreu umas três primaveras atrás, mas decidiu não dizer pra ninguém, foi desfeito e refeito, mas morreu mesmo assim, ele ainda sorria e carregava um rosto cansado, cara de lágrima seca e olho de choro chorado, quase ninguém via que o Benjamin morreu, eu mesmo quase não vi da última vez que o vi, ele sorriu pra mim e eu não sabia que quem morreu sorri, mas aí ele me disse que sim, que sorri, que acena, paga contas e fica aqui, ele morreu e não lhe deram flores, discursos fúnebres e nem seus outros amores choraram a morte do amor, eu dei uma flor pra ele, esse era um jeito de dizer que eu sabia que ele morreu, eu que não sabia lidar. Mas aí o Benjamin foi ficando sozinho, disse que doía esperar, disse que não sabia mais dizer, não eram flores, não eram bolos de cenoura que fariam ele ficar. Benjamin cansou de esperar e se foi, eu ainda choro porque ele foi embora e odeio música do Cartola, frase da Clarice Lispector e café, fiquei sozinho. Eu queria ter visto que ele tinha morrido, ter sentido, mas não foi assim. Hoje eu plantei girassol.
Jorge de Castro

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Raul tinha medo do mar, sabia que o mar era amigo, mas sempre preferiu o rio. Raul tinha medo do mar, por isso nunca nadava sozinho, nunca pulava ondas no ano novo, nunca mergulhou bem fundo, nunca se jogou da proa, nunca passeou num caiaque, nunca se afrontou mar adentro, sempre nadou no rasinho. Raul tinha medo do mar, porque o lembrava de amar, e isso ele tinha esquecido… Raul virou espuma do mar…
Jorge de Castro
não dá pra ser simples em meio a sua confusão, eu só sabia ser aquela coisa disforme e você só sabia andar na contramão, eu nunca soube ser assim exato e sempre apostei mesmo na solidão, sou um amontoado de cálculos que deu errado, o último suspiro na escuridão, me perdoa ser desalinhado e falar tanto sobre flores e marços sombrios, perdoa eu ser assim tão pequeno e segura com calma a minha mão.
eu morri tem duas semanas, mas hoje sorri, acenei, lancei dados, beijei um rosto gelado, eu reguei uma avenca, eu parti um coração, fui embora mais cedo, deitei de braços abertos no chão. eu morri tem duas semanas, ninguém chorou sobre meu caixão. flores são mentiras bonitas. Jorge de Castro
6:14 to 6:49am

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Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral dirá de mim: “Nunca fez mal…” Quem bêbedo, chorará em voz alta de não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas no meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: – Rei morto, rei posto… Quantas, debruçadas sobre o báratro sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços a soluçar tantos soluços que há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídos o sangue a pulsar nas cicatrizes dirão: “Foi um doido amigo…” Quem, criança olhando a terra ao ver movimentar-se um verme observará um ar de critério? Quem, em circunstância oficial há de propor meu pedestal? Quais os que, vindos da montanha terão circunspecção tamanha que eu hei de rir branco de cal? Qual a que, o rosto sulcado de vento lançará um punhado de sal na minha cova de cimento? Quem cantará canções de amigo no dia do meu funeral? Qual a que não estará presente por motivo circunstancial? Quem cravará no seio duro uma lâmina enferrujada? Quem, em seu verbo inconsútil há de orar: “Deus o tenha em sua guarda.” Qual o amigo que a sós consigo pensará: “Não há de ser nada…” Quem será a estranha figura a um tronco de árvore encostada com um olhar frio e um ar de dúvida? Quem se abraçará comigo que terá de ser arrancada? Quem vai pagar o enterro e as flores se eu me morrer de amores?
Vinicius de Moraes